Nova vida no Cairo proporcionou refúgio a médico nazista

CAIRO ¿ Mesmo já com a idade avançada, o alto, imponente e atlético alemão, conhecido pelos locais como Tarek Husseis Farid, manteva o hábito de caminhar 25 quilômetros todos os dias pelas ruas movimentadas da capital do Egito. Ele andava até a mundialmente conhecida mesquita Al Azhar, onde se converteu ao islamismo, e ao ornamentado Café J.Groppi no centro, onde pedia bolos de chocolate que enviava aos amigos e comprava bombons que dava às crianças, que o chamavam de Tio Tarek.

The New York Times |

Amigos e conhecidos no Egito também se lembram dele como um ávido fotógrafo amador que quase sempre estava com a câmera pendurada no pescoço, mas nunca permitia ser fotografado. E por uma boa razão: Tio Tarek nasceu Aribert Ferdinand Heim, membro da Waffen-SS, tropa de elite de Adolf Hitler, além de médico nos campos de concentração em Buchenwald, Sachsenhausen e Mauthausen.

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Foto usada na busca por Heim
Foi atrás das paredes cinza de Mauthausen, em sua terra natal Áustria, que Heim cometeu atrocidades contra milhares de judeus e outros prisioneiros. Essas atrocidades lhe renderam o apelido de "Dr. Morte" e o tornou o criminoso nazista supostamente ainda solto mais procurado pelo Centro Simon Wiesenthal.

Heim foi acusado de realizar operações em prisioneiros sem anestesia; remover órgãos de internos saudáveis e depois deixá-los morrer em uma mesa de operação; injetar veneno, incluindo gasolina, no coração de outras pessoas; e retirar os ossos de pelo menos uma vítima como "souvenir".

Depois de ficar fora do alcance do radar dos caçadores de nazistas por mais de uma década depois da 2ª Guerra Mundial ¿ passou a maior parte do tempo em um spa na cidade de Baden-Baden, onde teve mulher, dois filhos e um consultório médico especializado em ginecologia ¿ ele escapou de ser capturado logo após ser encontrado por investigadores em 1962.

O lugar aonde ele se escondeu, assim como sua morte em 1992, permanecia desconhecido até agora.

Investigadores em Israel e na Alemanha disseram repetidas vezes que acreditavam que Heim estivesse vivo e escondido na América Latina, próximo de onde vivia uma mulher que alegava ser sua filha ilegítima, no Chile. Testemunhas da Finlândia ao Vietnã e da Arábia Saudita à Argentina, seguiram pistas e reportavam visões aos investigadores.

Uma empoeirada pasta de documentos com fivelas enferrujadas, quase esquecida em um depósito no Cairo, escondia a verdade sobre a fuga de Heim para o Oriente Médio. Obtida pelo New York Times e pela rede de TV alemã ZDF das mãos da família Doma, proprietários do hotel onde Heim morava, os arquivos da pasta contam a história da sua vida, e morte, no Egito.

A pasta continha arquivos em páginas amarelas, alguns em envelopes que ainda estavam lacrados, de cartas e exames médicos de Heim, seu histórico financeiro e uma artigo sublinhado e rabiscado, retirado de uma revista alemã, sobre sua própria perseguição e ausência no tribunal, além de desenhos de soldados e trens feitos pelos filhos que ele abandonou na Alemanha.

Alguns documentos estão em nome de Heim, outros, em nome de Farid, mas muitos papéis, como a solicitação de residência com nome de Tarek Hussein Farid, têm a mesmo data de nascimento - 28 de junho de 1914 - e mesmo local de nascimento - Radkersburg, Áustria - que o próprio Heim.

Esconderijo no Oriente Médio

Apesar de nenhum de seus 10 amigos e conhecidos do Cairo que identificaram as fotos de Heim saberem sobre sua verdadeira identidade, eles descreveram sinais de que ele poderia ser o médico foragido. A impressão que eu tenho, baseado em meu pai, é a de que talvez ele tivesse problemas com os judeus e se refugiou no Cairo, disse Tarek Abdelmoneim el Rifai, filho de Abdelmoneim el Rifai, 88, dentista de Heim no Cairo e seu amigo próximo.

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Ruediger Heim, filho do médico nazista

Uma cópia secreta de um atestado de óbito das autoridades egípcias confirma informações de testemunhas de que um homem chamado Tarek Hussein Farid morreu em 1992. Tarek Hussein Farid é o nome que meu pai adotou quando se converteu ao islamismo, disse Ruediger Heim.

Em uma entrevista em Baden-Baden, Heim, 53, Heim admitiu publicamente pela primeira vez que esteve com o pai no Egito quando ele faleceu de câncer no reto.

Foi durante as Olimpíadas. Havia uma televisão no quarto, e ele estava assistindo às Olimpíadas. Isso o distraia. Ele deve ter sofrido muito, disse Heim, que é alto como o pai, com um rosto comprido e triste e com a fala suave e cuidadosa. Dr. Aribert Heim morreu um dia depois do fim dos jogos, em 10 de agosto de 1992, de acordo com seu filho e com o atestado de óbito.

Ruediger Heim disse que soube do paradeiro do seu pai por meio de sua tia, que já faleceu. Ele disse que não falou sobre o assunto porque não queria causar problemas para os amigos do pai no Egito. Na medida em que o número de criminosos de guerra nazistas sobreviventes diminuía, a importância do caso do pai dele aumentava

Apesar da mais nova evidência descoberta no Egito, é impossível encerrar definitivamente o caso de Heim, já que o local de seu túmulo permanece um mistério.

Sua morte é um fato importante, porém até então desconhecido, no desenrolar da apaixonada, porém controversa caça aos criminosos nazistas que já levou ao tribunal e à execução por planejar o Holocausto Adolf Eichemann, mas nunca capturou Josef Mengele, o mais famoso dos médicos nazistas, que morreu no Brasil em 1979, como mostram provas judiciais.

Apesar das vidas secretas dos nazistas em países como Argentina e Paraguai capturaram o imaginário popular com livros e filmes como O Dossiê Odessa e Os Meninos do Brasil, o caso de Heim ilumina a história muitas vezes negligenciada de sua fuga para o Oriente Médio.

Até a mudança dos ventos políticos, ex-nazistas eram bem-vindos no Egito nos anos que sucederam a 2ª Guerra Mundial. Ruediger Heim disse que seu pai disse a ele que conhecia outros nazistas lá, mas procurava manter distância deles.

Mesmo assim, não se sabe como Heim conseguiu enganar seus perseguidores por tanto tempo, enquanto recebia dinheiro da Europa, mais precisamente de sua irmã, Herta Barth, e se correspondia com os amigos e a família.

O mundo árabe era ainda melhor e muito mais seguro que a América Latina, disse Efraim Zuroff, diretor israelense do Simon Wiesenthal Center, que tem perseguido Heim e viajou ao Chile em julho do ano passado para aumentar a conscientização sobre o caso. De alguma maneira, estou completamente chocado, disse Zuroff.

Ele disse que o centro estava prestes a elevar o prêmio de recompensa por informações sobre à prisão de Heim de US$ 400 mil para US$ 1,3 milhão.

Por SOUAD MEKHENNET e NICHOLAS KULISH

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