Nova proposta de Obama sobre contraceptivos divide católicos

Movimento contrário à regra administrativa que exige que planos de saúde ofereçam controle de natalidade perde força

The New York Times |

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de atenuar uma nova regra administrativa que exige que planos de saúde ofereçam controle de natalidade gratuitamente para as mulheres, tirou força de uma quase-unificada frente contrária à proposta, liderada por bispos católicos romanos.

Os líderes de várias grandes organizações católicas que lidam diretamente com a pobreza, a saúde pública e a educação se mostraram abertos à nova versão do plano do presidente, dizendo que pode ser um acordo viável com o potencial de proteger a liberdade religiosa e ainda assim permitir que funcionários solicitem a cobertura de contraceptivos.

Os bispos, no entanto, continuaram a manifestar fortes objeções ao plano proposto pela Casa Branca. E eles ainda levaram a questão um pouco além, argumentando que católicos que são donos de suas próprias empresas não deveriam ter que fornecer contraceptivos pelo plano de saúde de seus empregados.

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O arcebispo Timothy Dolan, de Nova York, que está receoso sobre política de Obama sobre contraceptivos

O alvoroço ameaça envolver a Igreja Católica em uma batalha política em ano eleitoral, além de agravar certos conflitos internos. De um lado estão os tradicionalistas que acreditam na defesa da doutrina católica ao pé da letra e, do outro, os modernistas que acreditam que a igreja deve responder às mudanças dos tempos e se adaptar a uma sociedade pluralista.

Para muitos católicos, esse é um vestígio do debate de 1968, quando o Papa Paulo 6º publicou a encíclica "Humanae Vitae", que reafirmou a proibição da contracepção artificial, desconsiderando a recomendação de uma comissão do Vaticano que buscava acabar com a proibição.

Ainda hoje, até mesmo as freiras estão divididas. Uma das organizações que representa a maioria das ordens religiosas femininas, a Conferência de Lideranças das Mulheres Religiosas, disse que o governo de Obama tinha levado em consideração as preocupações dos católicos e encontrou uma "maneira justa e útil para lidar com o assunto”.

Mas uma ordem tradicionalista de Ann Arbor, Michigan, chamada de Irmãs Dominicanas de Maria, Mãe da Eucaristia, que foi formada há 15 anos e tem cerca de 100 membros, disse em comunicado que a nova proposta da Casa Branca era "um insulto”.

Leslie Tentler, professora de história na Universidade Católica da América, em Washington, disse: "Parte do que está acontecendo é um problema de autoridade, um problema sobre quem vai falar pela igreja. E eu acho que a maioria dos católicos não concorda com o argumento dos bispos de que somente os bispos podem dizer o que é moral para a Igreja em situações difíceis".

"Isso também reflete o problema ainda não resolvido sobre o ensino da contracepção, que é amplamente desmerecido não apenas pelos católicos, mas, também, pelo clero, que nem sequer fala sobre o assunto", disse Tentler, autor de "Catholics and Contraception: An American History" ("Os Católicos e a Contracepção: Uma História Americana, em tradução literal).

Uma nova pesquisa feita The New York Times/CBS News descobriu que 57% dos eleitores católicos apoiaram a exigência de que os empregadores com associações religiosas, como hospitais ou universidades, cubram o custo total dos contraceptivos para seus empregados, enquanto 36% se opuseram a ela - 7% disseram estar indecisos sobre o assunto. Não houve quase nenhuma diferença entre as opiniões dos católicos e de outros eleitores quando perguntados sobre a questão.

Em questão está uma nova disposição na reforma do setor de saúde pública aprovada em 2010 que diz que os empregadores precisam oferecer cuidados preventivos, incluindo os métodos contraceptivos, gratuitamente. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos anunciou no dia 20 de janeiro que as paróquias e casas de culto seriam isentas da obrigação, mas que os empregadores de outras associações religiosas católicas, como hospitais e universidades, teriam que pagar pela cobertura.

Os bispos afirmaram que essa regra é uma afronta à liberdade religiosa e uma violação da consciência católica. Após três semanas de protesto que uniram bispos, padres, freiras e católicos proeminentes da direita e esquerda, o governo de Obama anunciou o que chamou de “acordo” na sexta-feira. Ele disse que as instituições católicas não teriam que pagar pela cobertura dos métodos contraceptivos ou fazer com que os seus funcionários sejam obrigados a ter tal cobertura, mas que tudo seria pago diretamente pelas companhias de seguros.

O contraste nas respostas das organizações católicas tem sido mais uma questão da maneira de falar do que sobre o que está sendo dito. Eles estão todos de acordo que ainda precisam lidar com certas questões, como o que fazer com as instituições católicas que são "autoseguradas", ou seja, que agem tanto como seguradora quanto como empregadora.

No entanto, alguns demonstraram um tom mais otimista, aclamando o anúncio feito pela Casa Branca como um passo adiante e de boa fé. Esses grupos incluem a Associação Católica de Saúde, que representa 600 hospitais e 1,4 mil centros de saúde, além de instituições de caridade católicas, a Associação de Faculdades e Universidades Jesuítas, das Irmãs da Misericórdia das Américas, e a Conferência de Liderança das Mulheres Religiosas. Eles disseram que os detalhes de como lidar com a questão das instituições "autoseguradas" podem ser eventualmente resolvidos.

O reverendo Gregory Lucey, presidente da Associação de Faculdades e Universidades Jesuítas, que representa 28 instituições, disse: "Estou realmente grato pelo que o presidente fez na sexta-feira passada. Estou otimista e esperançoso, e sinto que a questão da liberdade religiosa está sendo levada em consideração."

O arcebispo Timothy M. Dolan, de Nova York, presidente da Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos, adotou um tom mais sóbrio em uma entrevista na terça-feira, dizendo: "Não estamos vendo nenhuma mudança substancial e nos preocupamos se isso irá levantar mais perguntas do que respostas."

Ele acrescentou: "Ainda estamos receosos de que estamos sendo requisitados para subsidiar uma coisa que achamos moralmente ilícita. Ainda não está havendo um cuidado para o que podem ser chamadas de questões mais filosóficas, ou seja, ‘que direito tem um gabinete federal de definir quem, o quê, onde e como da prática religiosa?’”

A controvérsia soa para muitos líderes católicos como uma repetição da luta que aconteceu sobre a reforma do sistema de saúde aprovada em 2010. Os bispos católicos vinham defendendo cuidados de saúde universal desde 1919, mas, em última análise, quase bloquearam a aprovação do projeto em 2010 porque, segundo eles, não tinha base o suficiente para garantir que o dinheiro federal não seria usado para pagar por abortos.

Desta vez, os líderes católicos que lidam com o setor da saúde pública disseram em entrevistas que não querem ver a controvérsia sobre a liberdade religiosa e a contracepção ficar no caminho da implementação de uma reforma da saúde.

A irmã Anne Curtis, membro da equipe de liderança das Irmãs da Misericórdia das Américas, uma ordem religiosa com cerca de 3,8 mil membros com sede em Silver Spring, Maryland, disse: "Nossa esperança é a de que poderemos lidar com este aspecto desta legislação de saúde para que os cuidados de saúde possam ser disponibilizados para todos."

A irmã Carol Keehan, presidente da Associação Católica de Saúde, disse: "Meu principal interesse é que em 2014 as 32 milhões de pessoas que hoje não têm seguro tenham acesso aos cuidados de saúde. Será um impacto enorme nas vidas de muitas pessoas deste país. Estou trabalhando no setor de saúde pública há mais de 40 anos e sei pelo que elas estão passando ".

Por Laurie Goodstein

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