Nova Orleans celebra festival de jazz apesar das cicatrizes

NOVA ORLEANS - Como a cidade que o celebra, o Jazz and Heritage Festival de Nova Orleans é cheio de memórias locais.

The New York Times |

O festival que este ano aconteceu durante uma semana começando no dia 25 de abril girou em torno de músicas conhecidas, rituais distintos e receitas testadas em suas famosas barracas de comida. Depois de 38 anos o festival em si tem memórias. Ninguém no palco, ou em qualquer lugar do Fair Ground, onde acontece o jazzfest, esqueceu da passagem do furacão Katrina em 2005. No festival desse ano as apresentações tiveram um novo e talvez permanente costume: falar sobre as cicatrizes deixadas pela tempestade.

Quando Steve Wonder foi a atração principal do evento na sexta-feira ele levou ao palco a artista de black music local Irma Thomas para cantar sua música "Shelter in the Rain" (Proteção contra a Chuva, em tradução livre), que ela gravou depois de perder sua casa para a enchente. O trompetista Irvin Mayfield, liderando a Jazz Orchestra de Nova Orleans no sábado, concluiu  sua apresentação com um hino dedicado a seu pai, que se afogou na enchente que sucedeu a tempestade. Randy Newman tocou sua música sobre uma enchente anterior, "Louisiana 1927," e atraiu um sentido acompanhamento da multidão no refrão: "Louisiana, they're trying to wash us away". Outro trompetista da cidade, Kermit Ruffins, durante sua versão da otimista "O-o-h Child", falou sobre como foi crescer no devastado Nono Setor e pediu, "Limpem essa bagunça", enquanto a banda Dirty Dozen acrescentou algumas palavras sobre o Katrina em "What's Going On", de Marvin Gaye.

Mas os músicos no Jazzfest não falaram apenas de sofrimento. Ele fizeram uma festa à lá Nova Orleans, do tipo que simultaneamente derrota a dor, promove a continuidade, toca os locais e atiça os turistas. O festival, que lutou para acontecer em 2006 e foi ampliado no ano passado, agora está de volta a sua forma pré-Katrina: sete dias que tomam dois finais de semana prolongados. (No ano passado o segundo sábado do Jazzfest teve o maior público desde 11/9, cerca de 90.000.) A lista de atrações deste ano incluiu artistas como Widespread Panic, Santana, Roots, Elvis Costello e Jimmy Buffett.

Ainda assim o evento mais celebrado foi o retorno da banda que realizou o último show do festival entre 1990 e 2005: os Neville Brothers, cujos membros estão no centro da música de Nova Orleans desde os anos 1950. Separados pelo Katrina, os Neville Brothers não se apresentavam juntos em Nova Orleans desde a tempestade. Seu retorno a seu horário normal no festival foi um símbolo de restauração para a cidade que permanece vazia, particularmente nos bairros negros mais pobres que mantinham as tradições musicais vitais.

Individualmente eles estiveram por todo o festival. O tecladista Art Neville, com sua própria banda, reviu jovialmente algumas músicas que havia gravado há meio século; Aaron Neville tocou com ele no palco, tornando seu retorno à Nova Orleans num encontro de família. O percussionista Cyril Neville participou da apresentação de Dixie Cups, cujo sucesso "Iko Iko" se baseia numa música indigena do Mardi Gras. Aaron Neville se apresentou solo na tenda gospelt, colocando ritmo de marcha em músicas como "I Saw the Light" e cantando baladas com  uma voz gentil e doída. "Estou em casa", ele disse. "Isso é ótimo".

A música da cidade, do jazz ao R&B e funk, transformou a cultura americana mas nunca se conformou a ela. Sempre foi uma cultura a parte, permeando o convencional o rapper Lil Wayne, que não se apresentou no festival, é um conhecido artista de hip-hop mas nunca o definindo.

As músicas de Nova Orleans, tanto as velhas quanto as novas, nasceram de ritmos que têm ao menos um século, com raízes ainda mais antigas originárias da África, Europa e dos indígenas. Paradas representando a tradição da cidade nas grandes bandas passaram pelo festival chegando ao Heritage Stage, onde os artistas subiam ao palco.

Na música local, as tradições podem resultar em misturas inusitadas. Na tenda gospel músicas de louvor eram misturadas a funk. O saxofonista Donald Harrison começou sua apresentação com músicas complexas de jazz e terminou um funk embalado por cantos de Mardi Gras.

No Jazzfest, Nova Orleans não se torna convencional, mas ajuda seus visitantes a encontrar as conexões da Luisiana. Os espertos como Wonder bebem da fonte do talento local.

O coração do festival são os artistas locais: a atraente voz de grupos como John Lee and the Heralds of Christ, bandas como Rebirth, compositores de jazz como Terence Blanchard, o fenômeno do piano Henry Butler, o líder de banda socialmente consciente Ivan Neville, o homem do blues Snooks Eaglin e os muitos representantes do Mardi Gras que fazem suas fantasias a mão e saem às ruas por pura devoção à tradição.

Dos palcos do Jazzfest os artistas disseram "Apenas em Nova Orleans!". Depois do Katrina isso poderia ter mudado; alguns moradores que foram removidos começaram a transferir sua memória cultural aos lugares para onde foram enviados. Mas no Jazzfest, e em Nova Orleans, todas essas memórias e tradições ainda dançam em solo próprio.

- JON PARELES

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