Nos mares do noroeste, chegar ao destino é peça do quebra-cabeça

Cabines de balsas do Estado de Washington têm mesas em que passageiros podem jogar, em uma tradição que ninguém sabe como começou

The New York Times |

A balsa Hyak, no Estado de Washington, é uma das maiores de seu tipo nos EUA, mas é ao mesmo tempo pequena. Em meio a todas as idas e vindas, em meio a todo movimento, existe algo mais, pessoas simplesmente aproveitando o passeio.

New York Times
Homem monta quebra-cabeça na balsa Hyak durante o caminho para Anacortes, Washington
No verão, o convés da balsa encontra-se iluminado pela luz do dia e cheio de turistas que usam as mãos para proteger os olhos do sol enquanto aproveitam a beleza do Mar de Salish. No inverno, um céu cinza e frio abriga frequentadores locais da região que se mantêm em silêncio. Em tais dias, o melhor local para ficar é dentro da balsa. Agora em setembro os dias são de transição, o que pode explicar o problema atual dos quebra-cabeças.

"A Yakima não tem nenhum quebra-cabeças atualmente, e a balsa Elwha não tinha nenhum quebra-cabeças no outro dia", disse Lilliana Villalobos-Wolford, uma moradora das Ilhas de San Juan, ao norte de Puget Sound, e passageira assídua dessa e de outras balsas. "Somente a Hyak parece ter quebra-cabeças ultimamente."

Villalobos-Wolford, 49, mudou-se para as ilhas de Nova York há um ano e já mergulhou em uma pequena tradição de San Juan. Em vez de correr para o parapeito para observar a vista ou sentar-se para ler um livro, ela está entre os devotos que seguem imediatamente para as grandes e lisas mesas no centro da cabine principal, onde ficam os quebra-cabeças.

Recentemente, num dia de semana, encontrava-se diante dela a cidade de "Marseille", 1 mil pedaços de papelão que, conforme a imagem na caixa prometia, coletivamente representariam um navio de cruzeiro ancorado nesse famoso porto francês.

Não importava que sua viagem de balsa duraria apenas uma hora do continente até o seu destino final, a Ilha de Orcas - foi quase tempo suficiente para dar sentido a um milhar de peças na mesa ou até mesmo completar uma pequena seção da borda do quebra-cabeças que demonstrava pequenos detalhes apenas perceptíveis, em tons de marrom.

Não pela primeira vez, Villalobos-Wolford passou o seu tempo montando o quebra-cabeças de "Marseille" e, novamente, assim como outras pessoas que talvez nunca conheça, também nunca irá realmente vê-lo completamente terminado.

Uma semana antes, Travis Powell e Jennifer Haner, que viajavam com um grupo da igreja de Oregon, estavam na mesma balsa e se sentaram na mesma mesa para passar o tempo tentando montar a mesma seção do mesmo quebra-cabeças. Eles eram turistas e precisaram de alguns passeios de balsa para concluir que esses quebra-cabeças eram acessíveis a qualquer um que se dispusesse a montá-los.

"Nem coloquei nenhuma das peças ainda", disse Haner, 29. "Estou apenas no processo de separar as peças pelas cores."

Não se sabe se o "Marseille" foi concluído dez vezes ou nenhuma vez. Pessoas que montam os quebra-cabeças nas balsas contentam-se em não saber a resposta. Elas fazem o que podem e depois seguem a caminho do seu destino.

New York Times
Mulher monta quebra-cabeça na balsa Hyak durante trajeto para as Ilhas San Juan, Washington
Ninguém parece ter certeza de como isso começou. Vários membros da tripulação e um membro aposentado do Comitê de Balsas do Estado disse que esse costume virou um hobby entre os moradores locais há vários anos. Os membros da tripulação compram quebra-cabeças em brechós e os colocam à disposição dos passageiros. Alguns passageiros doam caixas de quebra-cabeças. As pessoas podem até não terminá-los, mas todos cuidam deles.

"Ajudei em uma parte", disse Villalobos-Wolford, explicando sua realização. "Agora alguém mais contribuirá. Se tiver sorte, voltarei em algum momento quando o 'Marseille' estará quase pronto e poderei terminá-lo. Isso é legal, também."

Alguns dizem que os quebra-cabeças, assim como a experiência externa no convés da balsa, têm poderes curativos. "Uma mãe e filho saíram no outro dia e disseram: 'Ei, obrigado pelo quebra-cabeças", disse Stacy Eliot, que trabalhava no convés do Hyak na semana passada. "Quero dizer, quantas vezes você vê uma mãe e um filho montando um quebra-cabeça atualmente?"

*Por William Yardley

    Leia tudo sobre: euaquebra-cabeçabalsawashington

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG