Nos EUA, testes de DNA ajudam adotados a encontrar suas raízes

Com bloqueio ao acesso a documentos sobre adoção, americanos recorrem a empresas para encontrar parentes e informações

The New York Times |

Quando era mais nova, Khrys Vaughan tinha certeza de que havia herdado a aparência e os maneirismos do pai, e que sua admiração pela tradição e gentileza à moda antiga certamente faziam parte das raízes sulistas dele e de sua mãe. No entanto, ela questionou tudo isso quando lhe disseram que era adotada. Na época, Khrys tinha 42 anos.

Ela iniciou uma busca para encontrar os pais biológicos, mas descobriu que os registros de sua adoção haviam sido selados, uma prática comum na década de 1960. Então Khrys se deparou com um anúncio de uma empresa que oferecia testes de DNA para ajudar pessoas que foram adotadas a encontrar pistas sobre suas raízes e ligações com seus pais biológicos.

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Khrys Vaughan (esq), abraça a prima Jennifer Grisgsby, que encontrou após tesde de DNA (16/01)

Cerca de cinco semanas após ter enviado dois frascos pequenos contendo células colhidas dentro de sua boca, Khrys recebeu um email dizendo que suas origens se entendiam até França, Romênia e África Ocidental. Ela também recebeu por email nomes e endereços de uma dúzia de primos distantes.

Este mês, dirigiu 330 quilômetros de sua cidade natal, Saint Louis, até Evansville, Indiana, para conhecer um primo seu de terceiro grau, um dos primeiros parentes na lista a lhe dar uma resposta por email. Khrys é negra, seu primo é branco, e eles ainda não descobriram qual ancestral têm em comum. Mas ela disse que não tem problema.

"Alguém tem um grau de parentesco comigo", disse ela. "Alguém tem o meu sangue. Posso olhar para esta pessoa e dizer: 'Ela faz parte da minha família'".

Um número crescente de adotados, que hoje em dia chegam a quase milhares, estão buscando as empresas de testes de DNA na esperança de completar o quebra-cabeça sobre suas origens. Muitos procuram saber se os primeiros integrantes em suas árvores genealógicas nasceram na Irlanda, Itália, Europa ou América do Sul. Outros procuram saber se são geneticamente predispostos a ter diabetes, câncer ou outras doenças.

Porém, a maioria dos adotados procura informações que os levem até seus pais biológicos e alguns estão expandindo sua concepção de família ao procurar uma grande quantidade de familiares mais distantes, como primos de segundo, terceiro e quarto graus.

As empresas que efetuam testes de DNA estão intensificando seus esforços para atingir esta comunidade, publicando anúncios em fóruns de adoção e testemunhos em sua página da internet. Alguns adotados que fazem parte do fórum também estão ajudando a divulgar o serviço.

"Nunca houve um melhor momento para estabelecer a sua identidade biológica", diz o site da Adoption.com, que promove esforços para unir adotados e seus parentes biológicos pela internet.

Os testes de DNA tem aumentado em popularidade na última década à medida que o custo da análise de amostras de células tem diminuído e os americanos estão ficando cada vez mais interessados em descobrir suas raízes. Como resultado, algumas empresas têm acumulado amostras de DNA suficientes para poder ajudar os interessados a encontrar seus pais biológicos, trazendo esperança para pessoas que nasceram em uma era em que os registros de adoção eram comumente selados, deixando poucas pistas para aqueles que fazem uma busca de seus antepassados.

Muitas empresas oferecem testes que conseguem confirmar se os adotados têm alguma relação com pessoas que já conhecem. Outras atingem um espectro mais amplo, ligando os resultados de DNA a um banco de dados que contém dezenas de milhares de amostras genéticas, a maioria de pessoas à procura de suas raízes ancestrais. Os testes detectam rastros genéticos que revelam se as pessoas compartilham um parente ou ancestral em comum.

Alguns especialistas em matéria de adoção e genética têm criticado as empresas que fazem os testes de DNA para pesquisar a árvore genealógica ou ancestral de alguém, dizendo que elas estão, muitas vezes, fazendo ligações genéticas que são muito distantes – basicamente expandindo a definição do que é ser um parente. No entanto, a crescente popularidade dos testes, combinada às redes sociais que conectam as pessoas diariamente, têm providenciado a alguns adotados uma concepção de família que parece tangível, íntima e imediata.

Poucos minutos depois de ter recebido os nomes de seus parentes distantes, Khrys, uma gerente de projetos freelancer, estava admirando as fotografias de seus parentes no Facebook. Outra adotada que encontrou integrantes de sua família através de testes de DNA, Kathy Borgmann, 49, uma agricultora de milho da cidade de New Palestine, Indiana, trocou emails com primos que a deixaram muito feliz ao escreverem: "Bem-vinda à família".

Alan Bogner ,de Olympia, Washington, sentiu tamanho parentesco com seus recém-descobertos primos de segundo e terceiro grau que participou de uma reunião de família em Iowa. Ele descobriu, entre outras coisas, que muitos deles também eram altos - ele mede quase dois metros - e que compartilhavam do mesmo ponto de vista político liberal.

"Parece bobagem, mas eles são muito parecidos comigo", disse Bogner, 54, que trabalha no gabinete do governador.

Mas os testes têm suas limitações. O preço pode variar de US$ 99 a US$ 500, colocando-os fora do alcance de algumas pessoas. As empresas também alertam que é muito mais comum encontrar primos de segundo e terceiro grau do que os pais biológicos ou até mesmo irmãos.

Neil Schwartzman, de Montreal, teve sorte quando seu teste fez com que ele encontrasse sua irmã - "Fiquei chocado", lembrou - mas esses casos não são comuns.

As empresas afirmam que as chances estão melhorando, pois cada vez mais pessoas estão pagando pelos testes e assim adicionando seu DNA aos bancos de dados. Duas empresas– a Family Tree DNA e a 23andMe - têm um banco de dados que contêm amostras de 350 mil e 125 mil pessoas, respectivamente, e seus executivos afirmam que os números estão aumentando. Nos últimos anos, cerca de nove mil clientes se identificaram como sendo adotados, mas funcionários acreditam que o número real é maior, já que nem todos expõem seus motivos para realizar os testes.

"Talvez não exista ninguém que compartilhe de seu DNA no banco de dados hoje, mas, em dois anos, uma prima de primeiro grau pode aparecer”, disse Anne Wojcicki, presidente da 23andMe.

Empresas de testes de DNA que disputam clientes não compartilham os seus bancos de dados. Por isso, muitas vezes é necessário que as pessoas enviem amostras para mais de uma companhia.

Além disso, nem todos esperam ou querem encontrar novos familiares. Alguns adotados que encontraram certas pistas genéticas de seus antepassados foram rejeitados por parentes distantes. A maioria das pessoas faz os testes de DNA para preencher lacunas em suas árvores genealógicas, não para encontrar novos membros de sua família.

Bogner disse que vários de seus primos identificados pelos testes de DNA pararam de se comunicar com ele, uma vez que ficaram sabendo que ele era adotado. "Foi muito decepcionante", disse ele.

Elizabeth Bartholet, especialista em adoção da Faculdade de Direito de Harvard, disse que a proliferação dos testes destaca a necessidade de um acesso mais amplo aos registros de adoção. Enquanto isso, disse ela, seria melhor que os adotados cultivassem a relação que têm com os parentes que já conhecem.

Mas Khrys, que hoje tem 44 anos, disse que seus recém-encontrados parentes preencheram um vazio em sua vida. Seu pai adotivo morreu quando ela tinha nove anos e ao longo dos anos ela havia encontrado conforto na ideia de que tinha a mesma risada que ele.

"Chorei muito porque descobri que não era a filhinha querida do papai", disse Khrys, descrevendo o dia em que sua mãe adotiva finalmente lhe disse a verdade. "Precisava encontrar o meu lugar no mundo."

Ela enviou o primeiro email para uma prima identificada pela Family Tree DNA, em março. Ele foi parar na caixa de entrada de Jennifer Grigsby, uma analista de pesquisa de Somerset, Kentucky, que o leu com espanto. Jennifer também tinha feito um teste de DNA para saber mais sobre sua linhagem.

"Não estava procurando por uma nova relação", disse ela. Mas quando as duas mulheres começaram a conversar, “houve uma conexão instantânea", disse Jennifer, 37 anos.

Semana após semana, elas trocaram emails e mensagens pelo Facebook, e conversaram por telefone cerca de duas vezes ao mês. Algumas semanas atrás, decidiram se encontrar em Evansville, a meio caminho entre suas casas.

Três dias antes do encontro, Khrys ficou sabendo da identidade de sua mãe biológica. Os tribunais haviam determinado que sua mãe tinha morrido em 2005, o que significava que seu nome poderia finalmente ser liberado. A descoberta fez com que ela encontrasse suas quatro irmãs.

Jennifer disse que não tinha problemas em cancelar seu encontro para que Khrys pudesse priorizar rever suas irmãs. Mas Khrys não quis. Na semana passada, dirigiu mais de três horas para encontrar o primeiro parente de sangue que a abraçou como família.

"Finalmente!", disse, quando se encontraram. Depois, abraçou a prima de terceiro grau como se nunca mais fosse soltá-la.

Por Rachel L. Swarns

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