Nos EUA, sobreviventes do Holocausto enfrentam seguradoras e a Casa Branca

Processos judiciais de centenas de americanos desencadeiam lobby em Washington e intensa oposição, que criam campo minado para Obama

The New York Times |

Sessenta anos depois de ter sobrevivido ao campo de extermínio nazista de Auschwitz, Renée Firestone ainda está tentando descobrir o que aconteceu com uma apólice de seguro que ela suspeita que seu pai (que morreu no Holocausto) havia comprado de uma companhia de seguros italiana antes da guerra. Firestone, 87 anos, esperava resistência das companhias de seguros que responderam aos pedidos de milhares de sobreviventes do Holocausto e seus herdeiros.

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Sobrevivente do Holocausto, Renée Firestone enfrenta calvário em busca de apólice deixada por seu pai
O que não estava previsto, disse Firestone - originalmente da Tchecoslováquia e naturalizada americana, que se tornou uma estilista em Los Angeles - foi a oposição de seu próprio governo, incluindo o Departamento de Estado e o Congresso, dela poder ir à corte.

"O que é doloroso é que nós podemos ver que eles estão apenas à espera de todos nós morrermos", disse.

Os processos judiciais de centenas de americanos sobreviventes como Firestone desencadearam uma intensa campanha de lobby em seu nome, em Washington. No entanto, a oposição do governo e mesmo de importantes grupos judaicos criou uma cisma incômoda entre os grupos que normalmente formam uma aliança, criando assim um possível campo minado para o presidente americano, Barack Obama.

"Tudo isso me entristece", disse Elie Wiesel, ganhador do prêmio Nobel, que talvez seja o mais conhecido sobrevivente do Holocausto, ao se referir à divisão a respeito dos benefícios de seguros. "Eu não sei como ou por que isso aconteceu, mas os sobreviventes devem ser assistidos em qualquer forma possível”.

O Departamento de Estado, tanto no governo Bush quanto no governo Obama, se opõe vigorosamente à ideia de permitir que os sobreviventes usem o sistema legal para reclamar contra seguradoras europeias, dizendo que isso prejudicaria um acordo de compensação celebrado entre os Estados Unidos e Alemanha em 2000, que levou ao pagamento de US$ 300 milhões em seguros para os sobreviventes e seus herdeiros.

A ameaça de processos particulares, segundo oficiais do governo, passa por cima da autoridade presidencial de impor a política externa. O Tribunal de Apelações do Segundo Circuito validou a posição do Departamento de Estado no ano passado e rejeitou os pedidos movidos contra uma companhia de seguros italiana, a Generali, que havia vendido muitas apólices antes do Holocausto para judeus europeus que queriam se proteger financeiramente do aumento do poder nazista.

"O Departamento de Estado teme que as alegações dos sobreviventes não apenas prejudiquem os acordos feitos anteriormente com os governos europeus, como também tenham impacto negativo sobre outros acordos de compensação que foram feitos desde o Holocausto", disse o departamento em um comunicado na sexta-feira.

Alinhados como o Departamento de Estado, proeminentes grupos judaicos, como o Comitê Judaico Americano e a Liga Antidifamação também se opusream aos esforços dos sobreviventes para levar o caso ao tribunal e fizeram pressão contra os esforços anteriores feitos pelo Congresso na possibilidade de intervir, como fizeram as próprias companhias de seguro.

Agora, no entanto, parece que um novo impulso no Congresso em nome dos sobreviventes está ganhando algum terreno.

"Estou otimista de que este é o nosso ano", disse a deputada Ileana Ros-Lehtinen, republicana da Flórida, que em março apresentou um projeto de lei na Câmara que obrigaria as seguradoras a divulgar os nomes dos segurados na época do Holocausto e permitir que os sobreviventes e seus herdeiros façam reivindicações em tribunais dos Estados Unidos.

Acordos exernos

Ros-Lehtinen, cujos avós maternos eram judeus sefarditas cujo distrito na área de Miami é o lar de muitos dos sobreviventes, disse que está ciente da oposição e preocupações do governo sobre isso prejudicar os acordos externos.

"Isso não vai usurpar a autoridade de ninguém", disse ele em entrevista. "Isso tem a ver com dar-lhes uma oportunidade de sobrevivência perante os tribunais. Nós já esperamos tempo demais”.

Dezoito sobreviventes também enviaram uma carta de nove páginas na semana passada à secretária de Estado, Hillary Rodham Clinton, expressando a sua raiva e decepção com o tratamento dado às suas reivindicações. "É mais do que inaceitável que sejamos vistos como inimigos do nosso governo, que sejamos negados o que era nosso e roubados por empresas com a protecção do regime mais sangrento na história", escreveram eles. Ela deu uma cópia da carta ao New York Times.

Sam Dubbin, um advogado de Miami que trabalha com muitos sobreviventes do Holocausto, disse que a atual proposta no Congresso é "a última e melhor esperança" de corrigir o que ele categorizou como uma injustiça histórica. Ele disse que os pedidos movidos pelo acordo de 2000 com a Alemanha estavam repletos de abusos e que o dinheiro pago representa apenas uma pequena fração dos US$ 20 bilhões correntes que são devidos em apólices de seguro por causa do Holocausto.

A grande maioria das reivindicações não foram pagas, notou Dubbin, enquanto muitos dos sobreviventes vivem na pobreza em várias cidades dos Estados Unidos. "É uma desgraça total", disse ele.

Negligência

Os opositores admitem que os processos de reivindicações de seguros em vigor há uma década atrás eram lentos e imperfeitos, mas observou que as queixas de alguns sobreviventes continham informações incorretas e foram impulsionadas mais pelos objetivos dos advogados de classe do que por reivindicações legítimas.

A acusação do grupo Dubbin de que líderes judaicos negligenciaram sobreviventes em apuros devido aos seus próprios objetivos "é horrível e ofensiva", disse o rabino Andrew Baker, diretor de Assuntos Internacionais para o Comitê Judaico Americano. "Temos lutado pelos sobreviventes do Holocausto há décadas", disse Baker.

Ele destacou, por exemplo, um acordo recente com a Alemanha forjado pelo Departamento de Estado e grupos judaicos para garantir mais de US$ 500 milhões em financiamento para a assistência domiciliar a idosos sobreviventes do Holocausto.

Stuart E. Eizenstat, enviado especial do Departamento de Estado que trabalhou no recente acordo para a assistência domiciliar e que é creditado por ter conseguido diversos acordos compensatórios cruciais para o Holocausto nos últimos 15 anos, disse que é preocupante ver os esforços do governo e membros de sua equipe agora sob o ataque de alguns sobreviventes. "Eu não consigo entender", disse ele. “É simplesmente muito triste”.

*Por Eric Lichtblau

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