Nos EUA, debates eleitorais são cada vez mais feitos para a TV

Conforme debates ganham importância nas prévias republicanas, candidatos se preocupam tanto com a plateia quanto com os rivais

The New York Times |

"Olá, Charleston!” Essa frase foi dita alguns minutos antes de um debate na semana passada, realizado na Carolina do Sul, entre os pré-candidatos republicanos à presidência dos Estados Unidos. Um diretor da rede CNN, que transmitiu o debate ao vivo, subiu ao palco e tentou animar o público que estava no local.

Evidentemente insatisfeito com a falta de entusiasmo da plateia, ele tentou novamente. "Vocês conseguem fazer melhor que isso!", ele gritou. "Mais alto!"

"Era como se ele estivesse agitando a multidão em um jogo de basquete de colégio”, afirmou Bill Press, colunista e apresentador de um programa de televisão, ao descrever o acontecimento.

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Plateia aplaude durante debate entre pré-candidatos republicanos à presidência dos EUA em Charleston, Carolina do Sul (19/01)

Minutos após o início do debate, Newt Gingrich partiu para cima do moderador John King por tê-lo questionado sobre alegações feitas por sua ex-esposa. Isso fez com que a multidão enlouquecesse. "Essa era a atmosfera que eles queriam", afirmou Press. "E foi essa a atmosfera que eles conseguiram."

Conforme os debates ganham importância nas primárias republicanas, a mídia é questionada por sua tentativa de criar um espetáculo televisivo, transformando ambientes políticos em palcos para entretenimento.

Ao longo da campanha, os candidatos ganharam (Gingrich) ou perderam ( Rick Perry ) popularidade de acordo com seu desempenho nos debates. Mas a reação do público tem sido tão importante quanto os assuntos e a maneira que são discutidos pelos candidatos. Os aplausos, as vaias e até algo pior, o silêncio, influenciam na hora de julgar o desempenho de um candidato no debate.

Gingrich, que venceu a primária da Carolina do Sul após um desempenho combativo em dois debates, ressaltou isso quando ameaçou não participar de nenhum debate no qual o público não pudesse reagir.

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Ele direcionou sua ira para um alvo conhecido, a mídia, que muitas vezes é acusada de sufocar a liberdade de expressão do público ao limitar sua participação nos debates. O telejornal NBC News, que organizou um debate na segunda-feira em Tampa, Flórida, pediu ao público presente que mantivesse silêncio.

Ainda assim, a reação de Gingrich acabou levando a outra pergunta: será que a reação do público presente nos debates pode distrair as pessoas do objetivo em questão – o de selecionar o melhor candidato para presidente -, ao incentivar que os candidatos apelem para dizer apenas coisas que possam provocar a maior reação por parte do público?

"Houve um debate em New Hampshire no qual instruíram o público para que fossem educados, não torcessem pelos candidatos, não vaiassem - e ninguém se importou com isso", disse Gwen Ifill, um correspondente e moderador de dois debates presidenciais pela rede de televisão PBS.

Na verdade, o protocolo para os debates das eleições gerais, que são supervisionados pela Comissão de Debates Presidenciais, exige que o público fique em silêncio. Caso contrário, os espectadores podem ser escoltados para fora.

Mas os debates das primárias seguem regras um pouco diferentes. Eles são muitas vezes copatrocinados por partidos ou outras organizações políticas, como o Tea Party Express, que se uniu à CNN para realizar um debate em setembro. Estas organizações normalmente têm acesso à maioria dos ingressos para o debate, já que compõem um público politicamente agressivo.

Além disso, este ano o local onde alguns debates acontecem tem sido mais explorado por alguns dos participantes, incluindo Gingrich, um ex-correspondente da Fox News, e Herman Cain, um ex-executivo dono de uma rede de pizzarias e apresentador de um programa de rádio, que já deixou a disputa . Ambos têm experiência em lidar com público. Os executivos da Fox e da CNN argumentam que, independentemente de contarem com a participação de um público ocasionalmente mais rebelde, seus debates presidenciais são exercícios cívicos concebidos para ajudar a educar e informar os eleitores. Mas eles também enxergam o valor que os debates têm como produções televisivas. Um público ativo e engajado é sempre divertido de se assistir. Pessoas que se sentam sem nenhuma reação não são.

Um debate com um público mudo, disse Michael Clemente, vice-presidente sênior de notícias da Fox News, "é como um filme sem trilha sonora”. As produções da Fox tendem a ser as mais espalhafatosas da televisão, incluindo uma câmera que acompanha a multidão durante o debate para captar a sua reação.

Clemente diz que enxerga o valor cívico em permitir que os eleitores possam reagir, algo que ele diz que as pessoas já esperam poder fazer numa era na qual qualquer um pode pegar um smartphone e se tornar um formador de opinião.

"Muitos indivíduos estão acessando o Twitter e o Facebook," disse ele. "Você tem que lidar com pessoas que sentem que não estão lá apenas para ouvir sentadas o que está sendo dito."

A CNN seguiu o mesmo plano para o debate de quinta-feira. Um diretor de palco estaria presente em Jacksonville, Flórida, para incentivar a plateia de quase 1,2 mil pessoas, a maioria presente a convite do Partido Republicano do Estado. As reações seriam incentivadas, desde que houvesse respeito com os candidatos.

"Gostamos de ter um público que participe", disse Sam Feist, chefe do departamento da CNN em Washington. “Assim, o telespectador que está em casa assistindo ao debate consegue ver que é algo verdadeiro, com pessoas de verdade e eleitores de verdade, não é apenas um debate em um estúdio de TV.”

Por Jeremy W. Peters

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