Noite de Bagdá volta a brilhar por trás de vidros blindados

Diversos restaurantes abriram na capital do Iraque, oferecendo alívio à cidade espetacularmente desprovida de entretenimento

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Não adianta protestar, você terá de deixar sua arma na porta do restaurante. (Os clientes recebem uma senha em troca.) Guardas em jeans apertados e camisetas de patrulha mais apertadas ainda cuidam da porta de entrada, carregando o aparelho preferido das autoridades locais: um walkie-talkie. Até mesmo os convidados mais acostumados lançam olhares suspeitos rua abaixo em busca de carros possivelmente equipados com bombas.

Antoine Al-Hage, o equivalente capitalista de um soldado de sorte, sorri para tudo isso - o perigo, o risco e, claro, a recompensa de trazer diversão noturna para o Iraque. "Onde há guerra", disse, "há muito dinheiro".

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Lebanese Club, em Bagdá, tem deck iluminado e vista para o rio Tigre

Diversos novos restaurantes abriram na capital este ano, do Tomorrow e o Tool Al-Lail ao Toast e o City Chief, oferecendo alívio a uma cidade espetacularmente desprovida de entretenimento noturno.

Todos evoluíram da condição contemporânea de Bagdá, uma cidade que brinca com sugestões de um cotidiano comum, mas permanece um labirinto de muros de barricadas e arame farpado. Ou seja, quase todos divulgam ostentosamente o fato de possuírem vidros blindados.

Mas há algo especial sobre a casa de Al-Hage, que abriu no mês passado. A pergunta que toma conta da cidade nos últimos dias é: "Ah, e aquele restaurante libanês, você viu?"

O Lebanese Club tem algo de Beirute, Dubai e Miami no filme Scarface, sem a cocaína. "Um lugar elegante", diz Al-Hage, e ainda que exista uma sugestão de louvor maternal em sua opinião, ele está certo quando assume que a casa não tem concorrência em Bagdá, em termos de escala, ambição ou, mais certamente, decoração.

Vermelho, ouro e marrom ressaltam o alumínio, couro, vidro e falsa pele de crocodilo sobre as colunas. O mármore veio do Líbano, o parquete de Dubai e os móveis da Indonésia. Uma televisão de tela grande está fixada às janelas do segundo andar que se abrem para um pátio de três níveis. Ali, os clientes observam a vista do Tigre que antes era reservada aos palácios da mulher e do cunhado de Saddam Hussein.

À noite, Al-Hage se mistura com os clientes, sempre agindo como o perfeito anfitrião. "Prefiro falar francês", avisa.

Al-Hage, que é orgulhosamente libanês, exala uma pretensão um pouco autoconsciente, que celebra shatara - a palavra árabe para esperteza e astúcia com uma pitada de enganação. (Um exemplo de shatara certa vez ouvida em Beirute: "Não vou enganá-lo", disse um proprietário a um possível inquilino. "Bem, na verdade vou enganá-lo, mas não muito.") Ele também tem o dom de ganhar dinheiro aonde quer que vá, seja qual for a situação do Estado em que se encontra.

Um dos sócios iraquianos do clube, Jumaa Al-Musawi, parecia apreciar a verve de Al-Hage. O restaurante, ele temia, era uma aventura perigosa, mas ele disse que valia a pena tentar.

Compare isso com a posição de Al-Hage. "Há muito dinheiro aqui", exclamou. "Demais mesmo! Realmente muito!"

Al-Hage, de 51 anos, é a versão mais moderna de uma antiga história libanesa de uma diáspora conhecida por sua vontade de seguir o comércio, onde ele estiver. Ele simplesmente tem seguido as ambições imperialistas americanas há uma década.

Depois de ajudar a construir um aeroporto em Kandahar, no sul do Afeganistão, parou no Tajiquistão e Usbequistão. Há seis anos, entra e sai do Iraque, onde tantas fortunas foram feitas, por meio do governo americano, com a construção e prestação serviços.

"Onde quer que os americanos estejam, nós estamos", disse. Ele sorriu, animadamente. "Daqui", disse, "nós estamos pensando em ir para o Irã".

O Lebanese Club custou US$ 2,5 milhões para ser construído e seus investidores, iraquianos e libaneses, suspeitam que poderão obter o retorno do investimento em um ano. Mesmo em uma noite durante a semana, o local faz bons negócios, enquanto Al-Hage coordena uma equipe de 150 pessoas, com 25 libaneses. (O chef libanês ganha o maior salário, US$ 72 mil, com todas as despesas pagas).

Seu celular tocou, ele atendeu. "Não há eletricidade?", perguntou a alguém ligando de sua casa, escurecida por mais um blecaute. "Não há eletricidade? Por quê? Envie alguém lá em baixo para verificar o disjuntor."

Ele reclama das dificuldades para se obter vistos de saída - essencialmente, a permissão necessária para qualquer visitante que deixe o Iraque - e da temperatura (a previsão para um domingo recente era de 45º C).

Mas, para um homem que diz que trabalha 17 horas por dia, Al-Hage consegue manter, e ostentar, seu charme. "Bonjour", gritou a seis funcionários recém-chegados do Líbano. Depois virou-se para um assistente. "Veja se querem alguma coisa para comer! Veja se querem algo para beber!"

A voz de um antigo cantor egípcio, Abdel-Halim Hafez, soava pelos alto-falantes. "É uma longa jornada", dizia a canção, "e nela, eu sou um estranho".

Bagdá atualmente parece almejar uma pausa dos anos sombrios de toques de recolher, quando casas noturnas não existiam e o comércio era encerrado antes do anoitecer e as ruas ficavam desertas quando a noite caía. Ainda existe uma sensação de crise aqui, meses se passaram desde a eleição de março sem a criação de um novo governo.

Mas, sempre resiliente, a cidade mostra sinais de vida. Adolescentes descem em suas motos pelas ruas movimentadas e os restaurantes ficam abertos até meia-noite. Em um, a música "Frère Jacques" toca em um brinquedo. Peixes nadam em uma fonte em outro.

Mas, de longe, os carros mais extravagantes - Toyota Land Cruisers, Jeep Comandantes e Hummers - estão estacionados diante do Lebanese Club.

Desde que o clube abriu em 27 de maio, os embaixadores da França e do Líbano já jantaram ali. Bem como o porta-voz do governo, o governador de Bagdá, o chefe da comissão encarregada de expurgar os baathistas do governo e o ministro da segurança nacional. Alguns chegaram a evitar a sala VIP, com um anexo para guarda-costas, para se misturar com a clientela.

"Bagdá está mudando", disse Amir Razzaq, fumando um narguilé diante de uma enorme televisão de tela plana. "Está muito mudada. Agora só falta formarem um governo."

Por Anthony Shadid

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