No norte da França, general Philippe Pétain dá seu último adeus

Conselho da cidade de Tremblois-lès-Carignan quer mudar nome de rua que presta homenagem a militar que colaborou com nazistas

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O conselho municipal da cidade francesa de Tremblois-lès-Carignan, na beira da floresta de Ardennes, recentemente votou para mudar um terço dos nomes de suas ruas.

Tremblois tem apenas três ruas e elas foram batizadas em homenagem a três heróis franceses da Primeira Guerra Mundial: Marshals Ferdinand Foch, Joseph Joffre e Philippe Pétain. O problema é que Pétain também atuou como chefe de Estado durante a Segunda Guerra Mundial, quando sua administração na parte desocupada do país, que ficou conhecida como França de Vichy, colaborou com a Alemanha nazista para eliminar seus inimigos, especialmente os judeus.

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Memorial da Primeira Guerra em Tremblois-lès-Carignan, na França
Assim, sob pressão do governo nacional, veteranos e grupos judaicos, o Conselho votou por unanimidade para tirar o nome de Pétain de uma rua de cerca de 600 metros de comprimento, e rebatizá-la Rue de la Belle-Croix, por causa de uma capela que fica em um bosque a seu pé.

Após a Primeira Guerra Mundial, praticamente todas as cidades francesas tiveram a sua rua ou avenida Pétain. Tão vasta era a sua fama que uma dúzia de cidades nos Estados Unidos também batizou ruas com seu nome. Mas quando as placas forem mudadas neste mês, a última rua na França com o seu nome terá desaparecido. E nem todo mundo está feliz com a decisão.

"Isso é ridículo", disse Laurent Joste, 27 anos, um mecânico de automóveis da Bélgica, que vive na cidade há três anos. "Claramente ele foi um traidor na Segunda Guerra Mundial, mas estas coisas aconteceram décadas atrás. Não é bom pensar assim".

Marcas

A Primeira Guerra Mundial deixou cicatrizes profundas na cidade, que fica entre os campos de extermínio de 1914 a 1918, perto da fronteira belga. É uma curta distância de carro de Tremblois para Verdun, onde os exércitos se enfrentaram por anos em uma das batalhas mais calamitosas da guerra. A cidade fica perto do rio Marne e do cume do Chemin des Dames, onde o massacre das tropas francesas em 1917 incitou rebeliões que só as mãos calmas, mas firmes de Marshals Foch e Pétain conseguiram acalmar.

Tremblois foi arrasada por um bombardeio, salvo algumas casas e a igreja. Um monumento aos mortos na guerra – uma estátua de um poilu francês em cores vivas – tem os nomes de 15 moradores, cerca de 15% de toda a população.

Em comparação, a Segunda Guerra Mundial deixou a aldeia relativamente intocada. Para Jean Ponsart, que tinha 13 anos em 1945, a principal memória da época são as fileiras infinitas de caminhões e tanques americanos rugindo pela Rue Foch, a principal rua da cidade, parando aqui e ali, por precaução, mas geralmente por tempo suficiente para dar doces para as crianças.

Sua casa tem a única placa da Rua Pétain (na França as placas de rua são frequentemente colocadas nas laterais das casas), e ele diz que está confortável com isso. Ele se opôs a uma proposta para mudar o nome da rua para Rua Charles de Gaulle, em homenagem ao líder da resistência francesa na Segunda Guerra Mundial e presidente do pós-guerra. "Se é Pétain ou De Gaulle, então é Pétain!", disse.

A comoção em torno da Rua Pétain começou no ano passado, quando um jornalista local descobriu a rua e escreveu diversos artigos para seu jornal. Na ocasião, duas outras cidades no norte da França tinham ruas com o nome do marechal Pétain, e seu retrato estava pendurado na prefeitura de uma terceira cidade, no oeste da França. Sob pressão da opinião pública, as outras ruas foram rebatizadas e um tribunal ordenou que o retrato fosse removido. Tremblois permaneceu o último refúgio do marechal.

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Jean Ponsart tira neve da Rua Pétain, que vive polêmica por causa do nome
"Era escandaloso ", disse o jornalista Guillaume Levy. "Eu conheci o prefeito. Houve reações diferentes, e os argumentos não foram políticos".

Primeiro havia a imagem duradoura de Pétain como o "conquistador de Verdun", o homem que venceu a Primeira Guerra Mundial para os franceses, disse Levy. Depois havia também a inconveniência. "Eu conversei com o homem em cuja casa a placa está localizada", disse ele. “Ele disse o quanto isso custaria e que o carteiro não saberia onde pôr as cartas. Então, tudo se tornou polêmico".

Cidade versus país

Em parte, era a cidade contra o país. O prefeito da cidade, Jean-Pol Oury, mostra aos visitantes as cartas de ódio que recebeu, incluindo ameaças, para manter o nome de Pétain. Oury, 56, anos que dirige uma empresa de relações públicas quando não cuida dos assuntos de Tremblois, disse que fez uma pesquisa entre seus 114 habitantes. ''A maioria disse, 'Não me incomode'”, revelou.

Mesmo assim, os artigos de Levy chamaram a atenção de grupos judaicos e organizações que representam os sobreviventes da guerra e as pessoas que foram deportadas durante a Segunda Guerra Mundial pelo governo de Pétain em Vichy e pelos alemães que ocupavam o resto da França. Finalmente, Oury depôs perante o conselho de nove membros da cidade. ''Eu expliquei a situação, que éramos a última cidade com uma Rua Pétain", contou. "Eu disse que duas outras cidades rebatizaram suas ruas. Eu disse que eles deveriam decidir”. Todos os nove votaram a favor da alteração do nome.

Muitos historiadores consideram Pétain mais como um facilitador dos nazistas do que um instigador de seus projetos, embora esse ponto de vista tenha sido manchado pela descoberta no ano passado de documentos sugerindo que ele teve um papel ativo em escrever as leis anti-semitas do governo de Vichy.

Os historiadores há muito tempo o culpavam por não ter desertado os nazistas uma vez que suas políticas de extermínio dos judeus tornaram-se claras. Ele foi condenado à morte em um julgamento por traição no pós-guerra, mas De Gaulle mudou a sentença para prisão perpétua. Em 1921, De Gaulle, um grande admirador de Pétain, o homenageou batizando seu primeiro filho de Philippe.

Defensores

E ainda há quem defenda Pétain na França. ''Em 1940, uma vez que o governo foi incapaz de agir em face ao caos, o primeiro a tomar uma atitude veio do povo e dos políticos e foi Pétain", disse Hubert Massol, presidente da Associação para a defesa da memória do Marechal Pétain, que foi fundada logo após a guerra por apoiadores mais próximos do marechal. "Então todos os erros cometidos foram despejados sobre ele". Sem a intervenção de Pétain, disse Massol, "ninguém, nem mesmo os judeus, teriam sido poupados”.

Em Tremblois, alguns estão aliviados ao ver a mudança, mesmo que o nome nunca os tenha incomodado. Marie Stutzmann, de 46 anos, mudou-se da Alsácia com os seus pais há 40 anos para uma casa de esquina na Rua Pétain. Amigos e conhecidos sempre reagiam quando ela lhes contava seu endereço. ''Isso não me incomodava, mas as pessoas levantavam suas sobrancelhas”, contou.

Celine Grulet, 41 anos, que trabalha em uma grande fábrica de chocolate Ferrero do outro lado da fronteira, na Bélgica, disse: ''Eu estou contente que ele esteja sendo alterado. Particularmente no que diz respeito aos anos posteriores a 1940". Por anos ela rejeitou o nome. "Mas eu dizia a mim mesma: 'O que eu posso fazer?'”

O prefeito Oury cita o presidente Nicolas Sarkozy. “Sarkozy muitas vezes diz, em relação aos alemães: ‘Não esquecer, mas perdoar’. Por que não fazer o mesmo com Pétain?”

*Por John Tagliabue

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