No Líbano, divisões separatistas alimentam o extremismo

TRIPOLI ¿ As ruas com ladeiras desta antiga cidade do norte estão começando a parecer um campo de batalha. Uma série de bombardeios durante os últimos dois meses deixaram ao menos 20 pessoas mortas, sendo a maioria soldados do exército libanês, e vários feridos. Líderes islamitas da rigorosa linha dos sunitas ganharam novos seguidores por aqui, abastecendo a violência separatista que tem deixado marcas na cidade e na economia. No momento, o presidente da vizinha Síria advertiu que o norte do Líbano se tornou ¿uma verdadeira fonte de extremismo e um perigo para a Síria¿.

The New York Times |

Mas em se tratando do Líbano, não fica claro qual parte disso tudo é terrorismo e qual parte é apenas politicagem de ano de eleição ¿ ou qual dos dois é mais perigoso.

Muitos líderes políticos libaneses dizem que a Síria e seus aliados ¿ incluindo o grupo militante xiita Hezbollah, que tem pouco poder no norte do Líbano ¿ estão tentando ganhar votos para as próximas eleições parlamentares, difamando seus oponentes com a imagem de Al-Qaeda. Alguns acusaram abertamente a Síria de orquestrar os bombardeios.

O norte é vítima do terrorismo e não sua origem, disse Ahmad Fatfat, membro do parlamento da região norte de Dunnieh. Alguém está tentando mandar uma mensagem ao povo, fazendo-lhes acreditar que os sunitas do norte são o verdadeiro perigo do Líbano.

A falta de evidências claras torna tais argumentos inevitáveis. Mesmo quando as autoridades libanesas prendem alguém ¿ como fizeram no domingo, acusando um grupo jihadista de portar bombas em Tripoli ¿ perguntas básicas persistem porque poderes externos costumavam usar esses grupos como mandatários no Líbano no passado.

Uma coisa é clara: muito está acontecendo devido às eleições, que acontecem em breve. O Hezbollah e seus aliados acreditam na conquista da maior parte do parlamento pela primeira vez. Isso seria outra derrota para a política americana na região e provavelmente faria com que Israel visse todo o Líbano, e não só o Hezbollah, como inimigo em guerras futuras.

Diferenças e conflitos

Ao mesmo tempo, por trás das acusações e das contra-acusações sobre bombardeios permanece um fato indisputável: as tensões separatistas tornaram-se piores no norte, alimentando o sentimento extremista e incentivando civis a se armarem.

A vasta parte da população é árabe sunita e apoia Saad Hariri, líder parlamentar da parte majoritária do governo do oeste aliado opositor ao Hezbollah. Os sunitas estavam muito irritados em maio, quando o Hezbollah tomou a capital por algum tempo e destruiu os escritórios do movimento político de Hariri e cartazes de propaganda.

Após o Hezbollah tomar o poder, uma pequena guerra começou em Tripoli, entre duas vizinhanças da cidade que são próximas, uma sunita e a outra Alawite, um desdobramento do islamismo xiita e aliado à Síria. O conflito terminou no mês passado com um cessar-fogo, mas parte da violência continua e os oficiais do exército dizem esperar por mais ataques.

Ao mesmo tempo, a religião de vertente rigorosa se espalhou entre a grande população de jovens desempregados de Tripoli, muitos deles desencantados com a liderança secular de Hariri. A disseminação do salafismo, corrente puritana do islã, se tornou um lugar comum na imprensa libanesa.

Muitos jovens têm se juntado ao salafismo desde maio, disse Fakher al-Ayoubi, jornalista de Tripoli e especialista em movimentos islamitas do norte. Alguns deles nem sabem como rezar, mas gostam da idéia de lutar contra os Alawites e o Hezbollah.

Há dúzias de facções militantes somente em Tripoli e muitas têm ganhado novas armas desde o princípio dos conflito entre vizinhanças em maio. A presença dos campos palestinos, onde se sabe que o estilo radical da Qaida faz sucesso e as forças de segurança libanesa não podem entrar, torna ainda mais difícil seguir os rastros dos militantes.

Esse princípio de militância já explodiu em violência anteriormente. No meio do ano de 2007, o exército libanês enfrentou combatentes do grupo militante Fatah al Islam, que é alinhado a Al-Qaeda, no campo de refúgio Nahr Bared Palestinian. Muitos acreditam que os recentes ataques ao exército são vingança pelo conflito de 2007, no qual o campo foi quase destruído.

Contudo, os islamitas em Tripoli dizem que acreditam que a Síria está encorajando a Fatah al Islam e se enfurecem com a possibilidade de sunitas libaneses pensarem em atacar o exército. Há poucas famílias sem parentes no exército, cujas tropas do norte são majoritariamente sunitas como eles próprios.

Não queremos que ninguém ataque o exército; são nossos irmãos, disse Bilal Daqmaq, um clérigo que diz abertamente que admira Osama bin Laden e foi intermediador entre o exército e o Fatah al Islam durante o conflito de 2007. O que a Fatah al Islam fez foi criminoso e errado.

Assim como muitos outros islamitas aqui, Daqmaq disse que também acredita que a Síria esteve por trás dos recentes ataques ao exército. Ele disse que o líder da Fatah al Islam, Shaker al-Absi, lhe contou que a Síria o estimulou a enfrentar o governo libanês no ano passado. Sabe-se bem que Absi, que está em liberdade, foi solto de uma prisão da Síria antes de se tornar líder da Fatah al Islam, embora a Síria negue que isso tivesse algo a ver com ele subsequentemente.

Daqmaq e outros como ele dizem que não têm nada a ganhar com a disseminação do caos em seu próprio quintal ou em provocar confrontos com vizinhos com arma melhores.

Por ROBERT F. WORTH

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