No Japão, ilha reconstruída após tremor serve como advertência

Moradores de Okushiri, devastada por terremoto em 1993, dizem que dinheiro da reconstrução também causou problemas

The New York Times |

Na noite do dia 12 de julho de 1993, a remota ilha de Okushiri, no Japão, foi destruída por um grande terremoto seguido por um tsunami que agora parece um sinistro precursor de um desastre muito maior que atingiu o nordeste do Japão em março de 2011. Os moradores da ilha ainda se lembram horrorizados de como uma parede de água negra surgiu no meio da escuridão, acabando com comunidades inteiras e deixando quase 200 mortos.

Na década seguinte, o governo japonês reconstruiu a ilha, erguendo paredes de concreto de 35 metros sobre longos trechos de sua costa, e fazendo com que se parecesse mais com uma fortaleza do que com uma vila de pesca. O projeto que custou o equivalente a US$1 bilhão incluiu não apenas as defesas contra as ondas do mar, mas também a reconstrução de bairros inteiros em terrenos mais altos e alguns floreios, como um memorial do tsunami de US$ 15 mil com um vitral futurista em homenagem a cada uma das vítimas.

Saiba mais: Veja o especial do iG sobre reconstrução após tragédias

NYT
O porto de Inaho na ilha japonesa de Okushiri, devastada por terremoto e tsunami em 1993 (28/11/2011)

Mas hoje, à medida que o Japão inicia a reconstrução de sua costa nordeste, algo que deve custar em torno de US$ 300 bilhões, Okushiri tornou-se uma espécie de advertência. Ao invés de fazer com que a ilha voltasse a seu passado glorioso, muitos moradores dizem que, o US$ 1 bilhão gasto pode ter acabado com essa possibilidade.

A reconstrução trouxe uma onda de empregos bem remunerados na área de construção civil, segundo os moradores. Mas esse foi exatamente o problema: ao se acostumar com salários mais elevados, muitos dos jovens se recusaram a voltar para a vida dura de ganhar o pão com a pesca e por isso foram embora da ilha.

Isso acelerou o despovoamento do local, assim como da região rural do Japão, já que as pessoas, especialmente os jovens, estão sendo mais atraídos para a vida nas cidades. O número de moradores da ilha diminuiu mais rapidamente do que em outras áreas rurais, dizem os especialistas - na época do tsunami de 1993, 4.679 pessoas habitavam a ilha, hoje apenas 3.160.

"Não utilizamos desse dinheiro para investir na reconstrução de novas indústrias para manter os jovens na região", disse Takami Shinmura, 58, prefeito do município de Okushiri. "Hoje lamentamos não termos feito isso."

Desde o tsunami que atingiu o país em março do ano passado, centenas de oficiais dos governos das áreas afetadas, assim como a mídia nacional, tem visitado Okushiri, uma ilha de cerca de duas vezes o tamanho de Manhattan, para aprender com seu processo de reconstrução.

Mas a mensagem de Okushiri não parece estar fazendo nenhuma diferença. O país está sendo conduzido por uma onda de simpatia nacional em relação aos deslocados pelos recentes desastres, enquanto alguns japoneses silenciosamente se perguntam, devido aos custos envolvidos, se faz sentido reconstruir comunidades que já estavam em declínio muito antes do terremoto de 2011.

As paredes construídas contra as ondas em Okushiri dão a sensação de se estar pescando ao lado de um castelo medieval, dando acesso ao mar para os pescadores apenas através da abertura de pesadas portas de aço.

O boom da construção criou também outros elefantes brancos. O porto de pesca de Aonae, parte da cidade de Okushiri, orgulha-se de ter construído um refúgio contra o tsunami por US$ 35 mil, que consegue abrigar até duas mil pessoas, três vezes a população do Aonae. O refúgio, uma plataforma elevada que as pessoas teriam que subir para escapar das ondas, parece uma mesa de concreto enorme ofuscando os barcos e docas abaixo.

Yasumitsu Watanabe, diretor da cooperativa de pesca de Aonae, disse que foram ingênuos de pensar que a ilha voltaria a ter sua economia baseada na pesca. Mesmo antes do desastre, as pescas vinham diminuindo devido ao aquecimento global e à prática excessiva. Pior: o número de abalones, um tipo de molusco local, foi abalado pois o tsunami destruiu seu habitat natural nas águas rasas da ilha.

O número de pescadores na ilha caiu de750 para menos de 200, disse ele.

"Precisamos de uma nova fonte de empregos", disse ele. "Somente a pesca não irá mais conseguir providenciar (o sustento de nossa cidade)."

Watanabe disse que desejava que a ilha tivesse construído enseadas abrigadas, onde peixes ou mariscos pudessem ser cultivados. Outros disseram que a ilha de Okushiri poderia ter usado o dinheiro do governo para construir fábricas para processar peixes locais, que agora são enviados para outro lugar, ou para promover o turismo na ilha que é em grande parte deserta e tem apenas um hotel moderno.

O alarde da reconstrução realmente tornou esse tipo de diversificação mais difícil, segundo oficiais locais. Além de usar os fundos do governo, Okushiri pediu emprestado mais de US$ 60 milhões para seus próprios projetos de construção, um encargo financeiro que o município não irá conseguir terminar de pagar até 2027. Isso forçou o adiamento de melhorias necessárias, como a reforma da prefeitura local, que foi construída já faz 56 anos e cuja madeira está bamba e muitos consideram um risco caso aconteça um terremoto.

"Não temos mais nenhuma reserva financeira, apenas dívidas", disse o prefeito Shinmura. "Tohoku deveria aprender com nossas experiências", acrescentou, referindo-se à região do nordeste atingida pelo terremoto e pelo tsunami do ano passado.

As más experiências de Okushiri têm feito com que alguns analistas em Tóquio proponham abordagens radicalmente diferentes para a reconstrução da região do nordeste. Yutaka Okada, um economista da Mizuho Research Institute, disse que o Japão pode sair-se melhor se ele simplesmente doar fundos fixos para as vítimas do mais recente tsunami. Alguns irão embolsar o dinheiro e irão embora do local, disse ele, mas outros poderão usufruir destes fundos para começarem novos negócios, um tipo de inovação do setor privado que o Japão, muitas vezes não tem. "O setor privado poderia ter melhores soluções do que apenas construir elefantes brancos", disse Okada.

Em Okushiri, o fim do boom da reconstrução forçou esse tipo de empreendedorismo. Para encontrar novas maneiras de ganhar dinheiro, a maior empresa de construção de Okushiri, a Ebihara Kensetsu, ramificou seu negócio ao comprar o único hotel da ilha, começou a vender água mineral engarrafada e até mesmo abriu a primeira vinícola da ilha.

"Não podemos mais depender tanto do governo central," o presidente da empresa, Takashi Ebihara, disse. "Isto não se aplica apenas a nós, mas aTohoku e a outras partes do país também."

Por Martin Fackler

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