No Japão, confiança é abalada por perda de rotina pós-tsunami

Moradores da capital Tóquio se perguntam se podem confiar nas informações e garantias dadas pelo governo

The New York Times |

O Japão, um país conhecido pelo ritmo tranquilizador da ordem e da previsibilidade, foi abalado por um terremoto, um tsunami e uma crise nuclear e levado a uma nova realidade inquietante: a falta de controle.

Em uma nação onde se pode acertar seu relógio com a chegada de um trem e um condutor se desculpa por um minuto de atraso, apagões obrigaram os passageiros a sair mais cedo para que não fiquem presos quando os trens pararem de correr. Algumas lojas já não têm elementos essenciais, como arroz e leite.

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Sobreviventes do terremoto aguardam atendimento no hospital de Ishinomaki, no Japão (28/3/2011)
Enquanto os trabalhadores lutam para evitar vazamentos nucleares em usinas 170 milhas ao norte da capital, os moradores de Tóquio estão se perguntando se podem confiar nas garantias do governo de que eles estão fora de perigo.

Na zona de desastre no norte do Japão, há um número estimado de 440 mil pessoas vivendo em abrigos improvisados ou em centros de evacuação, segundo as autoridades. O tempo frio e os ventos têm contribuído amargamente para a tragédia conforme os sobreviventes sofrem escassez de alimento, combustível e água.

A sequência de desastres reavivou a noção – adormecida desde que Tóquio se recuperou da devastação da Segunda Guerra Mundial – de que essa cidade tem sobrevivido mais do que poderia.

Muitas pessoas estão ficando em casa para evitar a radiação que o vento pode soprar em sua direção. Outros estão pensando em partir. Mas a maioria dos japoneses está tentando defender a ética que lhes é ensinada desde a infância: fazer o melhor possível, perseverar e reprimir seus próprios sentimentos em favor do bem do grupo.

Trauma

Especialistas alertaram que, apesar de o Japão viver de acordo com a ideia de "gaman", ou resistência, haverá sinais de trauma, particularmente entre aqueles que viram seus parentes serem lavados pelo tsunami.

"No tsunami eles viram pessoas morrendo na frente deles", disse Susumu Hirakawa, um psicólogo clínico em Tóquio, que se especializa em stress pós-traumático e tem aconselhado a Guarda Costeira do Japão.

Também não ajudou que os funcionários do governo e executivos da Tokyo Electric Power Company, que administra as usinas de energia nuclear em Fukushima, tenham oferecido relatos conflitantes e muitas vezes se recusado a responder perguntas hipotéticas ou discutir os piores cenários possíveis.

"Eu não tenho certeza se o que estão dizendo é verdade ou não, e isso me deixa nervoso", disse Tetsu Ichiura, um vendedor de seguros de vida em Tóquio. "Eu quero saber por que eles não nos dão uma resposta”.

*Por Ken Belson

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