No Iraque, vitrines refletem batalha entre sharia e secularismo

Influência do Ocidente na moda feminina desagrada religiosos, que veem mudança como depravação

The New York Times |

Os vendedores em torno da mesquita Kadhimiya, no norte de Bagdá, vendem todos os tipos de roupas femininas, de túnicas negras que cobrem todo o corpo a lingeries atrevidas para se usar no quarto. Mas em uma tarde recente, Hameed Ibrahim levou sua família a um novo tipo de vitrine de moda naquela região.

Em um palco montado entre duas lojas, quatro manequins em trajes ocidentais, com seus cabelos loiros escapando de sob lenços coloridos, posavam em meio a chamas de papel crepom. A seu lado havia um cartaz com imagens de homens tomados pela luxúria, e atrás delas, imagens de sofrimento eterno. Ao pé do palco estava uma escritura da mesquita. "Aquele que enche os olhos com o proibido, no dia do julgamento Deus o encherá com fogo”.

Para Ibrahim, essa era uma mensagem que sua esposa e filhas – e todas as mulheres iraquianas – precisavam ver. "Eu trouxe elas aqui para que possam ver isso", disse ele. "Talvez todo mundo tenha se esquecido de Deus e dizem que isto é um progresso. Bem, eu chamo isso de depravação"

The New York Times
Em loja de Bagdá, vitrine sugere que vestimentas ocidentais levam a chamas do inferno
Desde a queda do governo de Saddam Hussein em 2003, as roupas das mulheres locais têm servido como um termômetro não apenas da moda local, mas da ascendência atual dos valores religiosos em uma sociedade antes secular. Em uma rua movimentada, perto do maior santuário sagrado de Bagdá, está sendo travada a Batalha da Abaya – entre o secularismo e a sharia –, que incita opiniões fortes em ambos os lados. Se a revolução no mundo árabe está varrendo as ruas do Cairo, ações menores aqui representam forças não menos urgentes.

A esposa de Ibrahim, que deu seu nome como Um Noor, ou mãe de Noor, aprovou a exposição, que está lá há cerca de um mês. Como muitas na rua, ela usava uma abaya preta que cobria todo o corpo, menos seu rosto, e ela vestiu suas quatro filhas do mesmo jeito. "Isso é bom porque vai assustar as mulheres e parar o que elas estão fazendo e usando", disse ela. "Há algumas pessoas que não têm medo de Deus. Deixe-as vir e ver isso”.

Códigos

As roupas nas manequins são castas pelos padrões americanos ou europeus. As mangas e as bainhas são longas, e os decotes altos ou cobertos por lenços. Mas a mensagem é inflexível: os homens que olham para as mulheres vestindo roupas como essas se tornam monstros vorazes, e as mulheres que as usam queimam por toda a eternidade.

"Nós tivemos essa grande ideia depois que vimos a depravação e a maneira como as mulheres tem se vestido e mostrado seu corpo", disse um representante da mesquita, que deu seu nome apenas como Abu Karar, ou pai de Karar. "Essa é uma pequena encenação para mostrar o castigo de Deus se elas usarem esses tipos de roupas, mostrando seus seios, sua bunda, seu corpo”.

A mesquita, acrescentou, oferece gratuitamente lenços de cabeça para as mulheres que concordam em "manter a sua promessa a Deus" e não vestir roupas que irão inflamar a imaginação dos homens.

Os clérigos tiveram um sucesso apenas parcial em impor os costumes islâmicos no país. O governo de Bagdá recentemente fechou vários bares e lojas de bebidas alcoólicas por conta de um feriado xiita de 40 dias. Mas o ministro do Ensino Superior rejeitou o pedido de um clérigo para separar homens e mulheres no campus. As mulheres com lenços ou abayas agora são predominantes na capital, mas elas andam entre outras vestindo jeans apertados ou saias vistos em uma série de televisão turca que invadiu o Iraque.

"Os partidos religiosos estão no topo agora", disse Nada Abed Al-Majeed Al-Ansari, decana da Faculdade de Ciências da Mulher da Universidade de Bagdá, que recentemente organizou um painel de discussão sobre vestuário apropriado para as mulheres.

Espaço

Ela disse que as décadas de guerra e sanções tornaram os iraquianos mais religiosos, e que o fim das proibições da era Hussein criaram espaço para o fanatismo religioso, principalmente entre os xiitas, cujos rituais foram proibidos pelo governo anterior. "Eu acho que tudo será resolvido com o tempo, mas não hoje", disse. Segundo ela, não houve movimentação para a instituição oficial da lei islâmica. "Ninguém está obrigando ninguém a usar o véu".

Como nas guerras culturais da América, os dois lados na Batalha da Abaya dizem que estão perdendo.

Do ponto de vista de Abu Karar, o declínio é acentuado. "Nós vimos um grande aumento na depravação no ano passado", disse ele. "E este ano está pior". Mesmo em Kadhimiya, onde dois importantes imãs xiitas estão consagrados, ele disse que a maioria das mulheres que vê a exposição o chama de "nomes feios”.

Mas, para Maysoon Ibrahim, 34 anos, a encenação apenas encorajava os homens a perseguir as mulheres, tornando-as menos humanas. A pressão para cobrir o corpo, segundo ela, já está ficando mais forte. Os homens que costumavam flertar agora usam palavras desagradáveis, disse ela.

"Mesmo se eu uso perfume eles dizem, 'Por que você está usando?" Ela acrescentou: "Estamos nos tornando como o Irã". Ainda assim, ela disse que não vai parar de usar jeans apertados e saias.

Abbas Hussein, 23 anos, vê este tipo de atitude como problemática. Desde a chegada da televisão por satélite e dos DVDs, ele disse, as mulheres iraquianas estão tendo ideias do mundo não-muçulmano – e colocando homens como ele em situação de risco moral. "Sim, eu olho para as mulheres quando as vejo vestindo jeans apertados. Esse é um dos problemas. Isso significa que o diabo está fazendo um bom trabalho”.

*Por John Leland e Duraid Adnan

    Leia tudo sobre: iraquebagdámodavitrineculturafeminina

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG