No Iraque, mulheres desafiam tradição no ringue de luta

DIWANIYA, Iraque - Isto não é muito comum no mundo árabe, mas em janeiro uma equipe de luta livre feminina, a primeira do Iraque, começou a treinar. As lutadoras adoram a prática e já sonham em competir nos Jogos Olímpicos.

The New York Times |

Mas muitas pessoas nesta cidade ao sul de Bagdá - que, como grande parte do Iraque, é extremamente religiosa, conservadora e governada em grande parte de acordo com tradições tribais - querem que as jovens parem de lutar imediatamente. Um membro de uma tribo disse que elas devem ser "executadas" caso continuem. Um clérigo xiita afirmou que o time deveria ser proibido porque a luta pode conduzir à promiscuidade e a "transgressões" contra o Islã.

Como resultado da pressão, quatro lutadoras abandonaram a equipe. Mas as demais, por enquanto favorecidas pela promessa de maior democracia e igualdade pós-invasão, desafiam as ameaças.

"Eles pensam que somos meninas perdidas só porque praticamos um esporte", disse Ikram Hamid, 25. Farah Shakir, 17, disse: "isto é realmente algo diferente para o Iraque, mas eu amo o desafio."


Farah Shakir, de 17 anos, usa roupas de treino por baixo do véu / NYT

Para sermos justos, não é apenas a luta livre feminina que incomoda os tradicionalistas. "Eu tenho informação de que a luta livre masculina é problemática também, por causa de toda a fricção que acontece", disse o Xeque Hussein Al-Khalidi, clérigo responsável pelo conselho provinciano.

Mas foram as mulheres que tocaram em um ponto fraco, talvez em parte por causa de suas ambições. Três outros times foram criados no Iraque depois que Diwaniya criou a federação de luta do país. Em junho, todos os times participaram de um campeonato ganho pela equipe de Diwaniya, que se qualificou para um torneio asiático em setembro.

Algumas pessoas locais foram cativadas pelas lutadoras e sentem que elas representam um desafio apropriado ao poder tribal e religioso do Iraque, cujo domínio sobre a sociedade e as pessoas se tornou paradoxalmente muito maior depois da invasão de 2003. Um defensor, Haidar Walid, 20, disse que o time é um "sinal de evolução e liberdade."

A controvérsia em Diwaniya ressalta uma disputa fundamental na sociedade iraquiana. A posição de grupos xiitas e sunitas que sempre fizeram com que os iraquianos seguissem o que dizem ser um comportamento moral afrouxou e muitas pessoas se sentem livres para se expressar de vários modos. Isto foi refletido durante as eleições provincianas em janeiro, nas quais partidos seculares e relativamente liberais tiveram sucesso.

Em uma quente manhã recente, as lutadoras, algumas de véu e outras não, usando shorts e camisas de futebol, se enfileiraram no ginásio de luta livre de Diwaniya. Elas só podem usar o local quando lutadores masculinos não estiverem em prática.


Lutadoras treinam em ginásico de Diwaniya / NYT

Um tatame de luta livre danificado e pardo toma conta da sala. As paredes são adornadas por fotografias emolduradas de lutadores masculinos, cartazes coloridos de santos xiitas e o retrato de um herói local, Abbas Fadhel Jouda, um lutador iraquiano que foi morto por militantes há dois anos, por ser policial.

Depois do aquecimento, Shakir e suas colegas de equipe formam pares e começam praticando luta e derrubadas sob instrução de seu treinador e fundador de time, Hamid Al-Hamdani, e seus dois assistentes, todos lutadores profissionais.

Ao contrário da luta greco-romana, o estilo livre permite que o oponente seja segurado abaixo da cintura e as pernas sejam usadas para derrubada. Este é um esporte internacionalmente reconhecido, mas a disputa entre mulheres estreou na Olimpíada apenas nos Jogos de Atenas. Dois outros países árabes, o Egito e Marrocos, têm times de luta livre femininos.

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