No Iraque, arte moderna espera por oportunidade de retorno

Após anos de guerra, obras de artistas iraquianos estão armazenadas em condições precárias

The New York Times |

O que restou da coleção de arte iraquiana do século 20 de Saddam Hussein está abarrotado em três galerias sujas de um antigo grande museu na Rua Haifa. O resto do edifício, antes conhecido como Centro de Arte Contemporânea se tornou um aglomerado de escritórios e cubículos fechados ao público e fortificados com tijolos, arame farpado e sacos de areia.

Centenas de obras estão guardadas em um armazém quente e empoeirado, aos cuidados de uma equipe atenciosa, porém frustrada. Muitas das pinturas estão danificadas. Todos estão sendo prejudicadas pelas condições perigosas e armazenamento precário, pelo calor e pela indiferença dos oficiais do Iraque a uma importante - ainda que pouco conhecida - parcela de seu patrimônio artístico.

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Obras são vistas em armazém do Museu Nacional de Arte Moderna do Bagdá

Esse é o estado da coleção de arte moderna do Iraque, rebatizado de Museu Nacional de Arte Moderna em 2006, mas ainda uma instituição que existe apenas como uma ideia. O fato de ainda existir se deve em grande parte aos esforços de um grupo de funcionários, curadores e artistas que têm lutado durante os anos de guerra para reconstruir o que mesmo sob a ditadura foi o registro de um despertar artístico que produziu um século de pinturas e esculturas em estilo modernista, emprestado de movimentos internacionais, adaptado às sensibilidades iraquianas e arábes.

"Isso não é apenas uma parte da nossa história", disse Taha Wahaib, escultor que se juntou a um não-oficial "Comitê Popular de Artistas" que dedica seu tempo e dinheiro para restaurar a coleção do museu após os calamitosos eventos de abril de 2003. "Isso é parte da humanidade".

O museu foi saqueado após a queda do regime de Saddam Hussein. Ao contrário do Museu Nacional, reaberto pelo primeiro-ministro Nuri Kamal Al-Maliki com alarde no ano passado, ele tem recebido pouca atenção e apoio financeiro do governo do país e de doadores internacionais.

"Sempre olhamos para o passado deles como algo antigo", disse Nada Shabout, professor iraquiano-americano de história da arte na Universidade do Norte do Texas que tem escrito extensivamente sobre a arte iraquiana, "algo que está morto, ao contrário de algo vivo".

Sete anos depois que a guerra tomou conta do Iraque, o legado do país do que Shabout chama de arte viva permanece negligenciado e esquecido. Uma instituição que antes organizava bienais de artistas árabes se tornou um museu vazio, ignorado por um governo que se esforça para fornecer serviços básicos como eletricidade e segurança.

Das oito mil pinturas e esculturas do museu, cerca de 7 mil foram saqueadas em três dias caóticos. Mesmo agora, os olhos de Wahaib, o escultor, se enchem de lágrimas quando ele recorda o que aconteceu.

"Quando você vê a sua cultura, sua história, devastadas desta forma - seja ou não intencional... ", ele disse, parando com a voz embargada. "O que vimos na rua, foi devastador".

Nos meses que se seguiram, obras de arte do museu começaram a aparecer nas ruas, nos mercados, à venda por iraquianos desesperados por dinheiro.

"Eles não tinham ideia do que pegaram", disse Hassan Qusay, um dos gerentes do museu.

Nem do valor das obras. A comissão de artistas - cujas obras de alguns membros estão no museu - começou a comprar o que pode.

Wahaib pagou o equivalente a US$ 100 por uma estátua de madeira de Jawad Salim, um dos modernistas mais importantes do Iraque, que morreu em 1961. Ela se chama "Maternidade", uma figura estilizada segurando um coração acima da cabeça, mas agora o coração está faltando.

Wahaib escondeu a escultura por anos - em um local que não quis especificar - até que decidiu que era seguro retorná-la, o que fez no ano passado.

Os artistas conseguiram encontrar e recolher mais de 400 obras, mas o bazar ao ar livre que tomou conta de Bagdá eventualmente deixou as ruas ou passou à clandestinidade.

Alguns trabalhos continuam nas mãos dos principais artistas e colecionadores, incluindo Ahmad Chalabi, político xiita proeminente, que comprou pelo menos três obras que pendurou na parede de sua casa. Ele não retornou as obras por ter dúvidas sobre o destino do museu.

"Espero que eles consigam", disse, "mas precisam de mais esforço".

Sabti Qasim, artista e proprietário da Galeria Hewar, pagou US$ 8.650 por 34 pinturas saqueadas e duas esculturas. Com mais dinheiro, ele explica que poderia tranquilamente encontrar e devolver mais peças, mas o Ministério da Cultura se recusou a fornecer qualquer verba.

Ele devolveu as obras que tinha para o museu no ano passado, mas depois de saber que uma escultura foi colocada em um corredor perto de um banheiro, questionou sua decisão.

"Querido", ele disse, "nós perdemos o nosso país. Nós perdemos a nossa cultura".

Por Steven Lee Myers

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