No Irã, futuro da maior universidade do país está em jogo

Luta pela instituição acadêmica com 1,3 milhão de estudantes e 350 filiais pelo país é batalha por poder da elite política

The New York Times |

O futuro da maior instituição acadêmica do Irã está em jogo, depois que o líder supremo do país entrou em uma disputa entre o presidente Mahmoud Ahmadinejad e seu rival Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, que foi fundamental para expandir e melhorar a instituição.

O líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, se pronunciou esta semana dizendo que Rafsanjani não pode colocar os amplos ativos financeiros da Universidade Islâmica Azad – que alguns estimam estar em torno de US$ 250 bilhões – em um fundo público religioso. Fazer isso teria efetivamente impedido Ahmadinejad de tomar o controle da instituição.

A alteração proposta gera “dificuldades jurídicas e legais fundamentais”, escreveu Khamenei nesta segunda-feira em uma carta dirigida aos dois políticos. Mas ele também não permitiu algumas medidas apoiadas por Ahmadinejad para fazer mudanças que ampliem o controle do governo sobre os bens da universidade e as nomeações para o seu corpo diretivo. A luta pela universidade é a última batalha na disputa pelo poder no coração da elite política iraniana.

1,3 milhão de alunos

A universidade tem mais de 1,3 milhões de alunos pagantes e cerca de 350 filiais em todo o país. Ela foi criada para se tornar um baluarte islâmico contra instituições governamentais mais de esquerda do país. Mas ao longo dos anos, a universidade se tornou um bastião dos valores da classe média e tem servido para promover a plataforma pragmática conservadora de Rafsanjani e seus apoiadores.

Durante a campanha eleitoral do ano passado, os apoiadores de Ahmadinejad acusaram os dirigentes da universidade de fornecer apoio material para a campanha do candidato da oposição Mir Hussein Mousavi. A acusação relembrou o papel da universidade em 1997, quando os estudantes ajudaram a mobilizar eleitores na vitória esmagadora do presidente reformista Mohammad Khatami.

Rafsanjani se aliou ao Movimento Verde de Moussavi e os estudantes universitários desempenharam um papel significativo nos meses de protestos desencadeados pelo reconhecimento da reeleição de Ahmadinejad por maioria esmagadora. Ahmadinejad esmagou grande parte da oposição e continua a atacar Rafsanjani e a tentar isolá-lo.

As duas figuras mais importante a emergir com a morte do aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1989, Rafsanjani e Khamenei já foram aliados. Rafsanjani desempenhou um papel fundamental em colocar Khamenei no poder, um compromisso que ignorou sua falta de formação como um grande aiatolá. Mas as suas visões para o país há muito tempo divergiram.

Discurso

Em um discurso provocativo no mês passado, Rafsanjani pressionou sua campanha para transformar a universidade em uma organização sem fins lucrativos, dizendo que Deus “não permitiria que ninguém” impedisse sua tentativa de colocar seus bens em um fundo patrimonial protegido. Alguns analistas disseram que a decisão do líder supremo foi uma resposta a isso.

A decisão, disse Mohammad Sahimi, uma analista do Irã com base na Califórnia, foi um lembrete contundente que, de acordo com a república islâmica, Khamenei é o “representante de Deus na Terra”. “Neste momento me parece que o próprio Khamenei quer controlar a universidade”, disse Sahimi, que contribui com o site Tehran Bureau.

Rafsanjani postou uma resposta à decisão do líder em seu site, sugerindo que a batalha ainda não havia terminado. “Ainda que as palavras do imã nos guiem, a Universidade Azad nunca será administrada pelo governo”, disse Rafsanjani em um comunicado. Para reforçar seu argumento entre seu círculo eleitoral de conservadores moderados, ele se referiu a um édito do reverenciado fundador da república islâmica, o aiatolá Khomeini, dizendo que a universidade está fora do controle do governo.

*Por William Yong

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