No Haiti, valas coletivas para vítimas anônimas

TITANYEN, Haiti - Alguns quilômetros ao norte dos edifícios destruídos de Porto Príncipe, em uma colina na qual vacas pastam, uma vala comum espera os mortos. Retangular, com cerca de seis metros de profundidade e largura e 100 de comprimento, esta vala comum é uma sepultura coletiva, mas não a única.

The New York Times |

Caminhões de entulho do governo têm colocado corpos aqui desde sexta-feira. Ninguém contabiliza, registra imagens ou procura por nomes. Em alguns lugares, pernas e braços de estranhos se trançam em uma dança paralisada, mas aqui o chão foi coberto por uma terra que apaga todo e qualquer sinal de vida.

Olhe e veja: uma fotografia rasgada de um homem de bigode e gravata prateada; um passaporte americano cancelado de uma criança nascida em Stamford, Connecticut; um pedaço de uma meia-calça roxa que nunca voltará a atrair um amante.


Passaporte antigo é visto jogado ao lado das valas comuns / NYT

"Eles enterraram tantas pessoas aqui", disse Voissine Careas, 60, um fazendeiro que cortava lenha perto dali com um machete. "E agora eles estão cavando buracos para mais."

Junto com tudo o que foi roubado pelo terremoto da semana passada, os haitianos têm que somar outra perda: a habilidade de identificar e enterrar seus mortos. Os rituais funerários estão entre as cerimônias mais sagradas para os haitianos, que são conhecidos por gastar mais dinheiro nos seus túmulos do que em suas próprias casas.

Isso é em parte causado por sua familiaridade com a morte -- a expectativa de vida média de um haitiano é de 44 anos -- mas também da convicção vodu difundida de que os mortos continuam vivendo e que as famílias têm que se manter conectadas para sempre aos seus antepassados.

"Manter uma relação com os mortos é o que permite que os haitianos se unam diretamente, através de laços sanguíneos, com um passado pré-escravo", disse Ira Lowenthal, antropólogo que morou no Haiti durante 38 anos. Ele acrescentou que com tantos corpos enterrados fora dos túmulos familiares, onde muitos rituais acontecem, incontáveis conexões espirituais serão cortadas. "Isso é uma violação de tudo o que estas pessoas valorizam", Lowenthal disse. "Por outro lado, as pessoas sabem que não têm escolha."

Dentro e fora de Porto Príncipe, o geralmente alto padrão cerimonial foi abandonado. As ruas têm menos corpos agora, mas o necrotério está superlotado e casas funerárias -- as que não desmoronaram -- têm mais corpos do que podem embalsamar.

Os caixões de madeira vistos nos primeiros dias depois do terremoto, carregados sobre caminhões, também são mais difíceis de se encontrar. Nas ruas estreitas atrás do cemitério nacional, onde a maioria deles é construída, os carpinteiros afirmam não ter madeira e eletricidade para dar continuidade à produção.

"Eles enterram você como um cachorro", disse Pegles Fleurigine, 51, em uma viela na qual construiu caixões durante mais de uma década. "Eles não o enterram em caixões."


Trator prepara morro para receber mais corpos de vítimas do terremoto / NYT

Fiapos de madeira presos sobre seu bigode. Magro e alto, com uma máscara branca sobre a testa, ele estava de pé ao lado de um caixão azul e prateado, envernizado como um Cadillac.

"As pessoas que solicitaram esse caixão estão tentando conseguir dinheiro para pegá-lo", ele disse.

Um contraste ainda maior entre a morte antes e depois do terremoto pode ser visto por uma parede caída que conduz ao cemitério nacional. À distância, mausoléus pintados de azul, com cruzes elaboradas e nomes poéticos como Famille Leonon Maxi. De perto, um buraco com as marcas de uma escavadeira e meia dúzia corpos decadentes deixados para trás.

Alguns inchados demais para serem reconhecidos, mas a certa altura no domingo uma jovem menina em um vestido branco florido encarava um jovem morto. Ele tinha o corpo de um atleta e vestia calças jeans de marca com um cinto largo elegante.

Questionada se o conhecia, a menina deu as costas.

Nas colinas de Titanyen, nos arredores da capital, não há nenhuma menina vagando. O pântano cheira a enxofre em um dia bom e este já foi o local de despejo preferido para oponentes políticos dos Duvaliers, líderes brutais do Haiti entre os anos 1950 e 1980. É considerado um terreno maldito pela maioria dos haitianos, poucas pessoas vivem na região, e na segunda-feira a maioria parecia tomar ônibus e caminhões para sair dali.

Na verdade, o nome deste lugar é tão notório que se tornou a ameaça distribuída por pais ao longo de muitas gerações: "Se você for ruim, irá para Titanyen."

Agora, o local se tornou o derradeiro lar das últimas vítimas do Haiti. No princípio, os enterros coletivos aconteceram arbitrariamente. Nas margens das estradas, pequenos destroços parecem inocentes sobre a grama, até que se vê um membro humano entre o concreto.

Mais adiante, estrada asfaltada acima, a operação parece mais organizada. Aqui há uma escavadeira com um motorista pouco disposto a falar. Um poste com duas grandes luzes, brilhantes olhos gigantescos, permitem o trabalho durante à noite.

Os fazendeiros dizem que pelo menos seis caminhões chegam a cada hora. Trabalhadores que recebem US$ 100 por dia para pegar os corpos das ruas de Porto-Príncipe disseram em entrevistas que não têm orientação sobre para onde levá-los.

Depois do tsunami de 2004 na Ásia, grupos de ajuda e governos estabeleceram um sistema no qual as pessoas eram fotografadas antes do enterro para que seus entes queridos pudessem localizá-los. Aqui, todos os mortos são anônimos. Lowenthal, o antropólogo, disse que isto não reflete insensibilidade por parte dos haitianos, mas sim uma catástrofe sem precedente que subjugou o país e os grupos de ajuda.

"Isto é pior que o tsunami", ele disse. "Veja a concentração da destruição."

As colinas de Titanyen são um lugar para o qual nenhum haitiano quer ir, ele acrescentou. Agora, mais uma vez, eles são tomados por seus piores medos.

Uma caminhada ao longo das colinas conduziu primeiro a destroços cobertos por fotografias de crianças, provavelmente de uma escola desmoronada.


Fotos de crianças são vistas perto de vala comum / NYT

No topo, uma clareira e montes de terra abriam espaço para os mortos. Um fazendeiro de camisa vermelha, que agia como guia, se manteve a um distância segura do odor.

Pelo menos 35 corpos estavam claramente visíveis. Mulheres com blusas rasgadas, homens com os rostos congelados em estranhas caretas e, no fundo, uma criança com os braços sobre a cabeça.

Alguns provavelmente eram parentes, outros eram estranhos, talvez até mesmo inimigos. Mas na morte eles compartilharam o que para muitos haitianos é o maior de todos os insultos: a falta de um adeus digno.

- DAMIEN CAVE

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