No Haiti, população deslocada por tremor segue sem perspectivas

Seis meses após terremoto, milhares de pessoas ainda vivem em abrigos improvisados e reconstrução do país segue a passos lentos

The New York Times |

Centenas de famílias deslocadas vivem perigosamente em um único agrupamento de frágeis barracos instalados ao longo do canteiro central de uma estrada costeira bastante congestionada chamada Route des Rails.

Veículos passam em ambos os lados dia e noite, soando buzinas, levantando poeira e soltando fumaça. Moradores tentam se proteger colocando pneus como pára-choques na frente de seus barracos, mas os carros ainda batem, ferem e, por vezes, matam. Raramente alguém para para oferecer ajuda e Judith Guillaume, 23, muitas vezes se pergunta o motivo.

"Eles não têm coração ou uma sugestão?", questiona Guillaume, que cobre o nariz de seus filhos com sua saia floral quando a fumaça de óleo diesel se torna mais forte.

Seis meses após o terremoto que trouxe a ajuda e atenção de todo mundo ao Haiti, o acampamento no canteiro central se mistura de maneira quase entorpecida à miséria da paisagem pós-desastre. Apenas 28 mil dos 1,5 milhão de haitianos deslocados pelo terremoto se mudaram para novas casas e a área de Porto-Príncipe continua a ser um cenário de vida nas ruínas.

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Seis meses após terremoto, haitianos seguem acampados no canteiro central da rodovia Route des Rails.

Esse quadro contém um amplo espectro de circunstâncias: acampamentos precários e negligenciados, cidades de acampamentos planejadas, com latrinas, chuveiros e clínicas; bairros cobertos por detritos onde os moradores voltaram tanto para casas intactas quanto para aquelas que estão condenadas e, aqui e ali, novos abrigos ou territórios demolidos para dar espaço à cidade do futuro.

Mas o governo do Haiti tem sido lento em fazer as difíceis decisões necessárias para se deslocar de um Estado de emergência para um período de recuperação. Fraco antes do desastre e ainda mais enfraquecido por ele, o governo tem sido oprimido pelas complexidades logísticas de questões como a remoção de entulhos e a identificação de locais seguros para o realojamento.

Em alguns casos, o governo também tem sido politicamente volúvel sobre, digamos, a criação de novas favelas ou incentivar as pessoas a voltarem a suas casas intactas quando o chão sob elas pode se mover novamente.

Em outros, as autoridades assumiram a responsabilidade, mas foram atoladas pelos problemas. Desde o início de maio, o presidente René Préval se concentrou pessoalmente em devolver cerca de 11.600 haitianos acampados em frente ao Palácio Nacional para o bairro Fort Nacional. Mas ainda que Fort Nacional viva agora em plena atividade de limpeza, nenhum abrigo transitório foi construído no local.

Em contrapartida, a Agência Adventista de Desenvolvimento e Socorro, trabalhando diretamente com o atuante prefeito do município Carrefour, na região metropolitana de Porto-Princípe, já passou mais de 500 famílias de sua grande cidade de tendas para casas simples de pinho, cujas fundações de concreto incorporam detritos reciclados.

As organizações internacionais presentes no país, ainda que paralisadas pela da dificuldade de questões como a propriedade da terra, criticam o governo por criar obstáculos ao seu próprio povo. Atrasos significativos na liberação de material da alfândega, por exemplo, desaceleram os esforços de recuperação ao mesmo em que geram taxas de substanciais de armazenamento para o governo.

"Onde quer que eu vá, as pessoas me perguntam: 'Quando é que vamos sair deste acampamento?'", disse Julie Schindall, porta-voz do grupo internacional de ajuda Oxfam no Haiti. "E eu não tenho uma resposta. É preciso haver uma comunicação sobre a forma como a questão dos acampamentos vai ser resolvida".

Autoridades da ONU e do Haiti pedem paciência com as consequências do que chamam de o maior desastre urbano da história moderna. Eles apontam para conquistas no fornecimento de alimentos de emergência, água e abrigo e por conseguirem evitar a fome, o êxodo e a violência.

Além disso, eles notam, o governo haitiano, enquanto lida com inúmeras pressões por vezes conflitantes de grupos internacionais no país, também está prejudicado pela destruição ou danificação da maioria dos ministérios e pelo grande número de funcionários mortos. "Eu desafio qualquer país do mundo a ser totalmente funcional nesta fase, depois de um desastre como esse", disse Imogen Wall, porta-voz do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários.

Em Aceh, na Indonésia, depois do tsunami de 2004 que deixou o governo nacional intacto, foram precisos mais de dois anos para que a população deslocada deixasse os acampamentos improvisados, disse Wall.

Apenas um quarto dos mais de 1.200 acampamentos pós-terremoto são geridos externamente por organizações humanitárias, o resto vive sob sistemas improvisados de auto-gestão. No acampamento da Route des Rail, isso significa depender de Luma Ludger, o líder do acampamento, que mantém registros meticulosos em um livro manuscrito - e reza.

A Cruz Vermelha também veio ao local e entregou kits de higiene. "Eles nos disseram que era muito perigoso estar aqui e perguntaram o que poderiam fazer por nós", afirmou Ludger. "Eu disse a eles que precisamos de terra. Eles disseram 'uau, não podemos ajudar com isso' e nos deram pasta de dente".

Durante dois meses após o terremoto, os arquitetos e planejadores do Haiti trabalharam em Petionville para preparar uma avaliação pós-desastre das necessidades do país e o plano de ação necessário para obter apoio financeiro internacional para a reconstrução do Haiti.

Em uma conferência em Nova York no dia 31 de março, os doadores prometeram US$ 5,3 milhões ao Haiti nos próximos 18 meses. Duas semanas mais tarde, apesar do surgimento de dúvidas sobre abrir mão do controle para os estrangeiros, o Parlamento aprovou a criação de uma comissão de reconstrução provisória liderada pelo ex-presidente Bill Clinton, enviado especial da ONU para o Haiti, e Bellerive Jean-Max, o primeiro-ministro do Haiti. Foram precisos mais alguns meses para escolher os seus 26 membros haitianos e internacionais e a busca por um diretor executivo ainda está em andamento.

Em meados de junho, a comissão de reconstrução se reuniu pela primeira e única vez até agora. Eventualmente, a habitação permanente será construída, disse Leslie Voltaire, enviado especial do Haiti junto às Nações Unidas, em um dos poucos locais nos quais o governo está agindo e espera transformar em um novo centro populacional.

Um desses locais é Corail-Cesselesse, cerca de 10 quilômetros ao norte de Porto-Príncipe, onde a primeira cidade de acampamento planejada foi instalada em abril. Rapidamente criada para as pessoas deslocadas que pareciam em maior risco de inundações ou deslizamentos de terra em outras regiões, hoje ela é o lar de cerca de 5 mil haitianos que moram em barracas brancas ordenadamente posicionadas.

Alguns grupos de ajuda criticam o local. "Esse local não representa um pensamento estratégico claro por parte do governo", disse Schindall da Oxfam. "É como o Sudão. Não há uma árvore à vista. E as pessoas se sentem abandonadas. Elas estão tendo problemas importantes em encontrar atividades que gerem renda na região e vão ter dificuldade para se alimentar".

Mas vários moradores entrevistados parecem dispostos a tolerar o posicionamento afastado do acampamento, porque viver ali os coloca na fila de espera de abrigos provisórios que serão supostamente erguidos na região, e então para as casas permanentes, que podem vir em breve.

O pedreiro Jean Pierre Mérite pediu que visitantes o acompanhassem pela terra estéril. "Olhe para todo este espaço", disse, abrindo os braços em direção ao terreno. "Todas aquelas pessoas que morreram moravam em casas que desabaram como dominós. Portanto, mesmo se nós estamos desarraigados, a vida pode ser melhor aqui. Quase todos nós somos inquilinos. Aqui, talvez possamos ter uma casa nossa algum dia. Isso é o que dizem. Você tem que acreditar neles".

* Por Deborah Sontag

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