No Haiti, aumenta a pressão para remoção de acampamentos

Quase nove meses depois do terremoto que arrasou o país, ameaças de despejo têm aumentado e se tornaram uma preocupação urgente

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Em comparação com outros acampamentos, o que fica nos mais de 113 mil metros ² da propriedade da Igreja de Deus com vista para o Vale de Bourdon é quase bucólico, com centenas de barracas de lona posicionadas sob a sombra de árvores frondosas e coesão entre os moradores. Mas o pânico está tomando conta do lugar.

A Igreja de Deus quer despejar o acampamento no futuro próximo. Ainda que a instituição religiosa tenha cedido sua permanência após o prazo no dia 30 de setembro sob a pressão de agentes humanitários, ela ainda quer livrar a sua sede haitiana do que os oficiais da igreja passaram a ver como uma população incômoda de parasitas.

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Quase nove meses depois do terremoto que arrasou o país, haitianos ainda vivem improvisados
"Aqui costumava ser um lugar bonito, mas essas pessoas estão destruindo a propriedade", disse Jim Hudson, missionário da Igreja de Deus que vive no local. "Eles estão urinando sobre ela. Eles estão tomando banho em público. Estão roubando energia elétrica. E eles não trabalham. Sentam-se durante todo o dia, à espera de esmolas".

Cada vez mais, os proprietários locais estão tentando desalojar acampamentos, dizendo que eles estão cansados de esperar que o governo realoje as pessoas ou que elas busquem uma solução por si mesmas.

Quase nove meses após o terremoto que devastou o Haiti, as ameaças de despejo têm aumentado significativamente e se tornaram uma preocupação urgente de ajuda humanitária, dizem grupos internacionais. Cerca de 144.175 pessoas foram vítimas de ameaças de despejo desde março e 28.065 foram desalojadas, de acordo com dados recolhidos por especialistas locais em abrigo.

Moratória

Autoridades humanitárias pediram ao governo para considerar uma moratória sobre as expulsões e abordar o assunto publicamente, pedindo compaixão. Eles temem que os despejos possam aumentar os conflitos, levar à proliferação de acampamentos menores, sem serviços, e forçar as pessoas a viver em locais que não são seguros.

Muitos proprietários de terras, temendo que os acampamentos se tornem favelas, dizem que precisam recuperar suas propriedades mais cedo ou mais tarde para seu próprio uso.

Suas práticas de despejo variam de súbitas e violentas a mediadas e planejadas. Em alguns casos, os proprietários enviaram assassinos para cortar ou queimar barracas, em outros têm oferecido recompensas em dinheiro para acelerar as partidas.

No terreno da Igreja de Deus, os oficiais da igreja estão impacientes. Para onde as pessoas vão em seguida deve ser uma preocupação do governo, dizem. As terras da igreja são de propriedade privada. Os desabrigados estão no caminho.

Edner Villard, 33 anos, um dos líderes do acampamento, sabe que os oficiais da igreja se sentem assim e têm ressentimento em relação a isso. Ele disse que ficou chocado quando ouviu um pastor dizer a oficiais da Organização das Nações Unidas sobre os moradores do acampamento: "Eles só me dão problemas".

"Nós somos tão pacíficos aqui!", disse Villard. "Eu não o desafiei e disse: 'Você está mentindo', porque ele é o representante nacional da Igreja de Deus no Haiti. Quem sou eu? Mas ele deveria ter mais compaixão. Ele é um homem de Deus e também um haitiano".

*Por Deborah Sontag

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