No Egito, turismo sofre impacto de revolução estagnada

Após euforia que se seguiu à queda de Mubarak, população está descontente com problemas econômicos e políticos

The New York Times |

O passeio de camelo em torno das Grandes Pirâmides em Giza, no Egito, fazia parte de uma experiência única que Farag Abu Ghaneima oferecia a dezenas de pessoas por dia. Recentemente, porém, ele vendeu três de seus cinco camelos para um açougueiro.

Turistas que visitavam a cidade aos milhões todos os anos agora chegam tão esporadicamente que as duas charretes a cavalos de Ghaneima estão paradas há muitos dias. Além disso, apenas três dos antes 15 funcionários permanecem para tocar o estábulo e uma loja de perfumes da família.

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Grupo de turistas visita as Pirâmides em Giza, no Egito (20/10)

"Mal ganhamos o suficiente para nos alimentar, que dirá para alimentar os cavalos e camelos", disse Ghaneima, apontando animais de costelas aparentes que pastavam em uma pequena praça verde em sua aldeia. "A revolução foi bonita, mas ninguém imaginava suas consequências."

Mais de oito meses depois de o presidente Hosni Mubarak ter sido derrubado do cargo, a euforia deu espaço a uma temporada de descontentamento. Há tristeza generalizada com a sensação de que o Egito está novamente estagnado e que a economia segue em direção a um penhasco, enquanto o governo interino se recusa ou simplesmente não consegue agir.

O turismo, grande pilar da economia local, do qual dependem cerca de 15 milhões de pessoas, permanece em queda. Greves frequentes sobre salários e direitos dos trabalhadores continuam a prejudicar ainda mais os serviços governamentais, dos transportes aos hospitais.

Manifestações em massa se transformaram em distúrbios sectários, como em 9 de outubro. Uma dura reposta militar deixou 27 mortos e a sensação de que a anarquia está por perto.

Eleições parlamentares marcadas para começar no dia 28 de novembro, que terão três turnos e devem terminar em 10 de janeiro, foram estabelecidas para trazer uma sensação de realização e de que o levante resultou em um sistema político e econômico mais justo e menos corrupto.

Mas conforme a campanha começa para valer nesta semana, a proliferação de mais de 55 partidos e cerca de 6,6 mil candidatos para 498 assentos na Assembleia do Povo inspira principalmente confusão.

"A situação é tão confusa que não sabemos para onde vamos – esse é o problema", disse Rami Essam, respondendo a perguntas em meio às músicas que costumava tocar em sua guitarra na Praça Tahrir, epicentro dos protestos contra Mubarak e onde manifestações ainda acontecem às sextas-feiras.

"Liberdade!", ele cantou, sobre as demandas da revolução.

"Ignorada", respondeu a multidão em árabe.

"O governo civil!”

“Ignorado!”

“Contra-revolucionários!”

“Ignorados!"

Preso na praça em março, Essam publicou na internet fotos dos cortes e machucados que, segundo ele, foram causados por soldados.

Ele usa hinos que tinham como alvo o governo de Mubarak para, agora, denunciar o governo do Conselho Supremo das Forças Armadas. "Ainda não conseguimos qualquer uma de nossas demandas e todos os nossos sonhos se foram", disse ele.

No plano econômico, as fontes mais importantes de renda do Egito permanecem estáveis, com o turismo sendo uma notável exceção. Os outros pilares da economia – a venda de gás e petróleo, receitas do Canal de Suez e as remessas de trabalhadores no exterior – permanecem estáveis ou em crescimento, segundo dados do Banco Central.

Mas essas fontes de renda têm conseguido pouco mais do que sustentar uma economia enferma. No geral, a atividade econômica chegou a um impasse há meses, com o crescimento esperado para menos de 2% este ano, uma queda brusca em relação aos 7% registrados em 2010. O desemprego oficial subiu de 9% para pelo menos 12%. O investimento estrangeiro é insignificante.

O tumulto revolucionário prejudicou mais o turismo do país. Quase 15 milhões de turistas visitaram o Egito em 2010, um recorde, mas o número caiu 42% até setembro deste ano, disse Amr Elezabi, o presidente da Autoridade de Turismo egípcia, com cerca de US$ 3 bilhões perdidos. Sempre que o número de turistas volta a aumentar, ele inevitavelmente cai por causa de tumultos periódicos.

Desesperada para reverter a tendência, a autoridade chegou a realizar testes de mercado. "As pessoas ficavam felizes por nós pelo que aconteceu, mas diziam: 'Não fale conosco sobre a revolução", disse Elezabi. "Você não pode vender o Egito através da Praça Tahrir".

Parte da culpa pelo mal-estar econômico do Egito, no entanto, cabe ao gabinete interino, que reporta ao Conselho Militar. Os ministros, conscientes de que vários empresários que serviram no governo Mubarak estão na prisão por corrupção, estão relutantes em autorizar novos projetos.

"Os impedimentos normais se tornaram ainda piores", disse Hisham A. Fahmy, presidente-executivo da Câmara de Comércio Americana no Egito, que reúne empresas multinacionais e egípcias.

Quase toda conversa acaba em política, com o tema base sendo o motivo de tão pouca mudança concreta no Egito, especialmente quando comparado com as mudanças na Líbia e na Tunísia, onde as revoltas também depuseram ditadores.

Os generais no poder e os seus apoiadores argumentam que as manifestações e greves estão minando todas as tentativas de restaurar a estabilidade e a economia do país. A televisão estatal chegou até mesmo a criar uma música sobre isso, que diz: "Mesmo que você tenha exigências, coloque os interesses do país em primeiro lugar."

Os ativistas acusam os generais de ressuscitar a cartilha de Mubarak para permanecer no poder. Os militares implantaram medidas draconianas para silenciar os críticos, dizem eles, proibindo greves e destacando os críticos individuais como Alaa Abdel Fattah, um blogueiro de renome preso por um promotor militar esta semana numa sentença de 15 dias sob a acusação incitamento.

A recente aparição surpresa de cartazes do marechal Mohamed Hussein Tantawi e o slogan "O Egito Acima de Tudo" alimentou as suspeitas generalizadas de que os generais querem que ele seja o quinto presidente militar a assumir o poder desde que as Forças Armadas derrubaram o governo do Egito em 1952.

Os generais negaram qualquer conexão com a campanha, mas os ativistas reconhecem que a derrubada de Mubarak acabou por ser a parte mais fácil e que eles deveriam ter pressionado por uma mudança radical enquanto ainda tinham força.

"A maioria daqueles que participaram da revolução está satisfeita com a queda de Mubarak", disse Mona Mina, uma pediatra que ajudou a liderar os médicos de todo o país em uma campanha pela melhoria nos serviços médicos. "Eles comemoraram e deixaram a Praça Tahrir antes que fosse estabelecida uma autoridade própria para monitorar as transformações exigidas pela revolução."

O espírito revolucionário vive, mas ressoa menos.

"Estamos prontos para viver de tâmaras e água pela nossa liberdade", proclamou Mohamed Sabr, um engenheiro de 30 anos, protestando na praça Tahrir na última sexta-feira.

"Se você quer água e tâmaras, tudo bem, coma isso você", replicou Tareq Ali, 36 anos, um gerente de exportação de uma empresa de queijo.

"Feloul!" revidou Sabr, uma calúnia popular que significa "contra-revolucionários remanescentes".

Por Neil Macfarquhar

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