No antigo quartel-general de Kadafi, líbios celebram vida normal

Atração turística de Trípoli, complexo do líder deposto da Líbia agora é palco de feiras livres e brincadeiras infantis

The New York Times |

Creme dental, hidratante, loção pós-barba, sapatos, ovelhas, cães, pombos, agulhas e bombas de bicicleta agora tomam conta de lugares outrora proibidos, uma repentina mudança de valores que pode ser comparada com o saque de Roma. Até cinco meses atrás ninguém chegaria perto do complexo Bab al-Aziziya, o quartel-general do líder líbio Muamar Kadafi, sem ser preso - muito menos para tentar comprar um colchão.

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Líbios passam por loja de sapatos em feira no local onde funcionava quartel-general de Kadafi em Trípoli (04/10)

Antes o imenso e sigiloso complexo de Kadafi, Bab al-Aziziya foi saqueado e entregue ao povo em grande estilo. O ditador foi morto no mês passado, mas sua derrota é promulgada diariamente em milhares de vitórias pessoais sobre aquele que era o centro de seu poder. Agora o local é um testamento da humilhação: grandes terrenos cheios de concreto quebrado, barras de ferro e barro.

A comunidade tem preenchido o vazio da morte de Kadafi, transformando este lugar antes espetacularmente simbólico no mais simples dos locais. Ele já não é mais um elemento na alquimia de Kadafi, mas apenas o pano de fundo da feira de sexta-feira, com vendedores e compradores competindo em meio à história sombria de seu entorno.

Diariamente, famílias visitam o local com uma alegria tranquila. Onde Kadafi recebeu líderes estrangeiros, fez discursos belicosos televisionados ao povo ou simplesmente apreciou sua piscina, crianças pequenas e armadas com rifles de plástico agora brincam.

Mães e pais das províncias observam com satisfação, mesmo aqueles que não pegaram em armas contra Kadafi, mas agora podem corrigir 40 anos de humilhação. O complexo foi bombardeado várias vezes pela Otan este ano antes de ser tomado pelos rebeldes em 23 de agosto.

"Durante 42 anos, ele disse: Faça isso, faça aquilo’", disse Khaled al-Fittouri, 28, um segurança que visitou o local com suas duas filhas pequenas em um sábado recente. As meninas riram dos fragmentos de uma peruca pendurada em uma parede coberta por videiras. "Queremos ver como Kadafi viveu", disse Al-Fittouri.

Um motorista de táxi que também visitava o local lembrou que cinco anos antes ele havia sido detido e interrogado durante uma hora depois que seu carro quebrou diante dos muros altos. "Amanhã, você não vai ver o sol", disse um de seus interrogadores.

"Louvado seja Deus", disse o taxista, Saad Amar el-Arabi, ao se lembrar do momento. "Agora somos livres."

A nova atração turística da capital líbia existe em um mundo virado de cabeça para baixo.

Bab al-Aziziya – centro nervoso do temido Comitê Revolucionário e Bureau de Inteligência de Kadafi, bem como a sua residência privada e quartel militar – e mesmo o imenso e agora vandalizado complexo penitenciário Abu Salim, onde presos políticos foram torturados e mortos, têm sido visitados por centenas de pessoas.

"Meus amigos morreram aqui", disse Mohammed Khalifa Swisse, um homem de olhos tristes que foi ao local com sua câmera de vídeo para gravar as portas das celas totalmente abertas, sandálias apressadamente descartadas, pilhas de fiação, vidros quebrados e colchões de espuma rasgados na agora vazia prisão.

Ele lembrou de quando, há 15 anos, a prisão ecoou aos gritos de "Allahu akbar" conforme armas automáticas e granadas atacaram os prisioneiros em um pátio fechado. Cerca de 1,2 mil morreram em duas horas e meia; buracos de bala continuam a infestar as paredes do espaço silencioso. Swisse passou 12 anos em Abu Salim por ter rabiscado dizeres anti-Kadafi em paredes do centro, disse ele.

Na Praça dos Mártires, localizada à beira-mar e iluminada pelo sol, onde Kadafi (e antes dele, Mussolini) falou às massas, multidões de homens se debruçam para ver estranhos cartões postais: Kadafi como uma prostituta, Kadafi usando vestidos brilhantes, Kadafi com a Estrela de Davi, Kadafi tendo sua peruca raspada por um barbeiro de cara ruim, Kadafi como uma diva envelhecida, Kadafi emergindo de um esgoto.

Algo parecido tem acontecido em outros lugares. Em Misrata as pessoas fizeram fila por vários dias para ver seu corpo, prova de que ele era, na verdade, mortal. E em Benghazi as paredes foram decoradas com grafites que zombam ainda mais do que aqueles encontrados em Trípoli: um desenho mostra Kadafi no trono, em um banheiro.

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Crianças brincam perto de muro pichado no local que servia de quartel-general para Kadafi em Trípoli (04/10)

A feira de sexta-feira em Bab al-Aziziya é a prova de que as oportunidades comerciais oferecidas pela sua queda são ilimitadas, uma fusão genial de parque temático – venha ver como Kadafi viveu! – e shopping center ao ar livre. O visitante pode dar uma espiada no local em ruínas, e em seguida faz um bom negócio na compra de um cabo de extensão.

Os vendedores que se estabeleceram ali nas semanas recentes tomaram conta do entorno no tranco. Uma montanha de entulho que há 25 anos era cuidadosamente preservada pelo próprio Kadafi – o edifício bombardeado pelos Estados Unidos em 1986 – é agora o pano de fundo para os produtos elétricos de Abdu Salam Al-Harashi. "Onde quer que você possa conseguir dinheiro é um bom lugar", disse Al-Harashi. "Eu realmente não me importo, contanto que possa vender".

Omar Ramadan, um comprador que segurava sacolas de plástico contendo produtos de higiene recém-comprados, disse: "A mente não pode acreditar nisso. Como um líbio, é impossível expressar como me sinto". Seu sorriso, no entanto, era revelador.

Fathi Mabrouk Khalifa, que havia acabado de comprar alguns emblemas do novo governo – alguns cartazes revolucionários – disse: "Um ditador costumava viver aqui. Agora é uma feira. Ainda estamos vivendo em um sonho."

Por Adam Nossiter

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