No Afeganistão, casas são vasculhadas em busca de armadilhas

Campanha militar busca eliminar explosivos e esconderijos usados pelo Taleban em distritos recém-conquistados

The New York Times |

Nos distritos recém-conquistados em torno da cidade de Kandahar, no sul do Afeganistão, as forças americanas estão encontrando casas e armazéns agrícolas vazios cheios de armadilhas preparadas por insurgentes do Taleban e têm sido sistematicamente destruído centenas delas, de acordo com as autoridades locais.

A campanha, diferente da prática adotada pela Otan em operações militares anteriores, se destina a reduzir as baixas entre civis e militares, eliminando a ameaça das armadilhas e acabando com esconderijos e posições de combates usados pelos insurgentes do Taleban, segundo oficiais militares dos Estados Unidos.

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Soldados americanos em operação para demolir casa atrás de plantação de maconha na Província de Kandahar, no Afeganistão (24/10/2010)
Embora tenha amplo apoio entre as autoridades afegãs e até mesmo alguns moradores, e tenha sido acompanhada por um esforço igualmente determinado em compensar os proprietários dos imóveis, outros moradores se queixaram de que as demolições vão muito além do que é necessário.

A prática também parece ir contra a estratégia do general David Petraeus que apela para o respeito tanto às propriedades quanto às vidas e vai contra os apelos recentes do presidente Hamid Karzai para que forças estrangeiras diminuam sua visibilidade e evitem táticas que alienem civis afegão. Não houve relatos de vítimas civis das demolições.

Petraeus, o comandante da Otan no Afeganistão, recentemente revelou progresso na situação do conflito com o Taleban em Kandahar, graças a 30 mil tropas adicionais, embora os insurgentes digam ter simplesmente se escondido para esperar a tarefa ser concluída.

Dispositivos

O que deixaram para trás são casas e armazéns agrícolas vazios tão cheios de armadilhas que os soldados começaram a chamá-los de dispositivos explosivos improvisados. Nas últimas semanas, usando escavadeiras blindadas, explosivos, mísseis e até mesmo ataques aéreos, tropas dos Estados Unidos destruíram centenas deles, em uma estimativa conservadora, com algumas estimativas maiores.

"Nós não sabemos o número exato de casas destruídas, mas é enorme", disse Zalmai Ayubi, porta-voz do governador provincial de Kandahar, Tooryalai Wesa, que r visitou a região com o governado no dia 21 de outubro. "Os insurgentes e os inimigos do país são os culpados dessa destruição porque eles têm implementado minas em casas de civis e nas principais estradas".

O tenente-coronel Webster Wright, porta-voz das forças da Otan em Kandahar, disse não saber quantas casas foram destruídas na campanha, mas que o número de demolições deliberadas desde setembro chegou a 174, incluindo casas e outras estruturas. O número parecia bem abaixo do indicado por oficiais locais.

Nas áreas mais fortemente contestadas, especialmente no distrito de Zhare, mas também em partes dos distritos vizinhos de Panjwai e Arghandab, as tropas americanas têm rotineiramente destruído quase todas as casas e armazéns agrícolas desocupados em áreas onde estejam atuando.

No distrito de Arghandab, por exemplo, cada uma das 40 casas da aldeia de Khosrow foi demolida por uma salva de 25 mísseis, segundo o governador Mohammad Ahmadi, que estima que entre 120 e 130 casas foram destruídas em seu distrito . "Não havia outra maneira, sabíamos que as pessoas queriam se livrar de todos aqueles explosivos", ele disse, referindo-se aos dispositivos explosivos improvisados, o termo militar para bombas caseiras.

"Em alguns vilarejos, onde apenas algumas casas foram contaminadas por bombas, nós ligamos para os donos e obtivemos sua autorização para destruí-las", disse Ahmadi. “Em outros, como Khosrow, que tinham casas completamente vazias e cheias de explosivos, destruímos sem acordo porque era difícil encontrar as pessoas”. ''E não apenas Khosrow, mas muitos vilarejos", ele disse. "Nós tivemos de destruí-los para torná-los seguros”.

As unidades militares em campo têm mantido registros meticulosos não apenas de cada casa que explodem, mas também de cada galpão, parede e plantação, e inserido os dados em sistemas informatizados.

AFP
Soldados das forças de coalizão no distrito de Surobi, perto de Cabul, no Afeganistão
''Eu não sei exatamente quantas pessoas receberam uma compensação ainda, mas há centenas de pessoas à espera para pedir uma restituição”, disse Karim Jan, governador do distrito de Zhare, onde a destruição das casas tem sido mais extensa.

No distrito vizinho de Panjwai, o governador Baran Khaksar disse que 60 famílias haviam sido compensadas pela destruição de suas casas ou outros bens.

Respondendo a perguntas sobre se as demolições de casas contrariam a estratégia de contra-insurgência, o coronel Hans Bush, assessor de imprensa falando em nome de Petraeus, disse que as medidas foram tomadas para proteger os moradores locais. “Esses prédios representavam uma ameaça para todos na área, uma vez que foram equipados com explosivos e armadilhas, de modo a evitar que o pessoal de exterminação de explosivos conseguisse torná-los seguros”, ele disse.

Ferramentas

As tropas americanas estão usando um impressionante conjunto de ferramentas, não apenas para demolir casas, mas também para eliminar árvores nas quais os insurgentes possam se esconder, explodir dependências, alisar paredes agrícolas e esculpir novas “estradas militares” porque as existentes estão fortemente minadas, de acordo com jornalistas integrados na área recentemente.

Uma das ferramentas mais temíveis é o MICLIC, uma corrente de explosivos ligados a um míssil que no momento do impacto destrói tudo em um perímetro de 9m x 90m. O sistema de mísseis HIMARS, um lançador de foguetes de 4 metros pés com ogivas de 200 quilos, também tem sido usado com frequência para o trabalho de demolição.

Frequentemente, novas estradas militares passam direto por fazendas e armazéns, criando um percurso que mantenha os soldados seguros. Apenas no distrito de Zhare, a Brigada Aérea 101 perdeu 30 soldados desde junho, principalmente para tais bombas.

Ativistas da organização Rights Monitor do Afeganistão têm criticado a campanha. ''Trata-se de casas de barro muito humildes", disse Akmal Dawi do grupo,"e eles estão tomando o caminho mais fácil e dizendo: 'Vamos destruí-las e depois ajudá-los a reconstruir, dar-lhes cem dólares e mostrar que estamos do seu lado’”.

Lenta reconstrução

No entanto, com o inverno se aproximando e a luta em andamento, os proprietários não devem começar a reconstruir em breve. ''Não é suficiente", disse Dawi. "As pessoas não vão ficar satisfeitas com isso”.

É difícil estimar o número de refugiados dos distritos em torno de Kandahar pois a maioria deles fica com parentes ou amigos na cidade, mas as autoridades locais dizem que cerca de 1 mil famílias fugiram de Zhare e Arghandab no mês passado. Muitos outros partiram antes que as operações militares se intensificassem, fugindo da dominação Taleban na área.

Abdul Rahim Khan, de 50 anos, líder tribal de Spirwan, no distrito de Panjwai, afirmou que em muitos casos, as tropas dos Estados Unidos haviam destruído casas vazias, mesmo quando não havia explosivos dentro delas. No entanto, oficiais militares salientaram que realizar buscas em casas vazias é muito perigoso.

''As pessoas não estão felizes com a compensação", disse um líder tribal de Zhare, que também disse temer informar seu nome para publicação. "A compensação está apenas jogando poeira em nossos olhos”.

*Por Taimoor Shah e Rod Nordland

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