No Egito, crise política pode se transformar em econômica

Protestos contra o presidente Hosni Mubarak podem levar à crise humanitária se paralisia econômica atual continuar

The New York Times | 01/02/2011 13:52

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Um tanque do Exército monta guarda no porto de Alexandria para garantir que ninguém entre, mas o maior problema é que quase nada sai.

Há quatro dias, os contêineres que chegam em navios têm se acumulando no maior porto do Egito, contam os funcionários de empresas de transporte e caminhoneiros de Alexandria. Com as redes de distribuição mal funcionando e a internet desligada desde a noite de quinta-feira, grande parte dos negócios no Egito foram interrompidos.

Foto: Getty Images

Estrangeiros se aglomeram em aeroporto no Cairo para tentar deixar o Egito

Enquanto os protestos continuam no centro das atenções, com aviões sobrevoando a Praça da Libertação e prisioneiros fugitivos provocando medo no público, a crise política pode se transformar em uma questão humanitária se a paralisia econômica atual continuar.

"Uma grande parte do sistema de produção é dirigida pelo governo e está congelada, incluindo muitas das padarias que fazem pães subsidiados", afirmou Hoda Youssef, um economista do Fórum Árabe de Alternativas, uma empresa independente, e conferencista na Universidade do Cairo. "Aqui, no curto prazo – hoje, amanhã, nos próximos dias – podemos ter um problema sério de escassez de comida, água e combustível", disse Youssef.

Preços

O Egito nunca foi um país com uma larga margem entre a normalidade e a crise para começar. Ele tem sido suscetível a pressões sobre preços e tumultos. No domingo já havia indícios de que os preços dos alimentos estavam subindo.

Em um mercado de Alexandria, no bairro ocidental de Agamy, o preço da cebola subiu de US$0,25 para cerca de US$ 0,60 o quilo. Os tomates também aumentaram, de US$ 0,25 para cerca de US$ 0,85 o quilo, e o preço do quilo do feijão subiu cinco vezes de US$ 0,35 para cerca de US$ 1,70.

Khaled M. Hanafy, assessor econômico da Federação das Câmaras de Comércio no Egito, grupo que reúne representantes de todas as câmaras do país (ou cerca de 4 milhões de empresas), disse que ainda que eles não tenham números exatos das perdas da economia, o custo dos tumultos já atingiu a casa dos bilhões de dólares. "O efeito foi imediatamente sentido pelas empresas, pois muitas transações são realizadas pela internet, principalmente nos setores que lidam com o exterior", disse Hanafy. Questionado se a liderança da câmara tinha levantado essas preocupações ao governo, ele disse: "Hoje não há governo. Você não tem com quem falar”.

No escritório da Companhia de Navegação do Egito, uma empresa de transporte localizada em um grande prédio diante do porto, os funcionários disseram que os bens removidos com guindastes dos navios não estão deixando o local. "Por quatro dias, as mercadorias permaneceram ali por questões de segurança", disse Wagih Islam, assistente do gerente, acrescentando não saber quando isso irá acabar. "Não está nas nossas mãos", disse ele.

Foto: Getty Images

Grande parte do comércio do Cairo fechou as portas em meio a protestos (31/1/2011)

Ele carregava sacolas de legumes para levar para casa. "Estamos tentando fornecer para as nossas famílias", disse Wagih. A situação da segurança também é uma preocupação para Wagih, que não tinha dormido porque ficou ajudando seu vizinho a impedir a entrada de saqueadores até às 5h.

Youssef disse que os voos que tiram os turistas do país levam com eles muito do dinheiro necessário ao país. "O Egito é dependente do turismo", disse ela. O investimento estrangeiro direto provavelmente também diminuirá com a reputação do Egito para a estabilidade ainda mais prejudicada", ela explicou.

Combustível

"Nós não recebemos qualquer combustível há dois dias", disse Mustafa Ahmad Hamadi, o proprietário de um posto Mobil Alexandria, acrescentando que geralmente eles recebem cerca de 2.600 litros por dia e agora tem apenas cerca de 1,3 mil litros restantes. Ele disse que é dono do posto há 12 anos, mas nunca viu uma situação como essa antes. “Quando liguei para a empresa, eles me disseram que não há mais distribuição neste momento e que não sabem quando poderão voltar a fazer entregas ", disse ele, diante de uma fila de carros que buscavam abastecer com o resto da gasolina disponível. Brigas irrompiam entre os clientes, apesar dos funcionários do posto tentarem mantê-los na linha.

Um motorista de táxi com duas mulheres à espera no banco de trás disse que foi a 12 postos desde sábado, e encontrou apenas um com gasolina. "Estou muito preocupado", disse Muhammad Youssri Said, 29 anos. "Esse carro é a renda para mim e minha família. Sem táxi ficaremos sem dinheiro e sem comida”.

Adil Gabir, 43 anos, um motorista de caminhão, havia acabado de deixar o porto com sua carga. "Nós somos os primeiros caminhões que foram autorizados a sair do porto nos últimos dois dias", disse ele. "Tudo estava parado e ainda há problemas enormes".

Muitas empresas ainda estão funcionando, ainda que abaixo da capacidade. A Amreya Petroleum Refining Co. pode continuar a trabalhar porque tem um gasoduto direto no porto. A empresa está operando com dois e não três como operava anteriormente, mas os funcionários sentiram o impacto do tumulto que tem varrido o Egito da forma mais pessoal e dolorosa.

Ao falar com jornalistas no domingo, Salah Medin, 55 anos, que trabalha na refinaria, recebeu um telefonema dizendo que seu gerente havia sido morto nos protestos. "Esse é o preço que pagamos pela liberdade", disse Medin.

*Por Nicholas Kulish e Souad Mekhennet

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