No deserto, conflito renova disputa entre Marrocos e Argélia

Violência entre forças marroquinas e separatistas da Frente Polisário, apoiados pela Argélia, alimenta revanche no Saara Ocidental

The New York Times | 12/12/2010 08:03

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Dezenas de edifícios ainda estão enegrecidos por causa do incêndio que atingiu a principal avenida da remota cidade de Laayoune, no deserto. Suas janelas ainda estão quebradas e suas portas, fechadas com tábuas. Um silêncio hostil tem reinado desde a rebelião que ocorreu no mês passado, deixando 11 policiais marroquinos mortos e centenas de feridos.

A violência – a pior vista aqui em décadas – renovou um antigo conflito entre Marrocos, que rege o Saara Ocidental, e os separatistas da Frente Polisário, baseada e apoiada pela vizinha Argélia.

Foto: The New York Times

Mohammad al-Amin Wald Abdullah, 70 anos, viveu os últimos 20 anos próximo ao acampamento

Muitos temem que o episódio vá semear mais caos no território do tamanho do Estado americano do Colorado, ou até mesmo criar uma abertura para a Al-Qaeda, que ganhou espaço em países vizinhos no noroeste da África nos últimos anos.

"Há tensões sociais reais em Laayoune e elas estão sendo alimentadas pela Guerra Fria entre Marrocos e Argélia", disse Tlaty Tarik, um analista político. "Essa situação está se tornando mais perigosa por causa da violência e porque a Al-Qaeda está presente na região".

O tumulto começou depois que a polícia evacuou um acampamento de protesto armado nos arredores desta cidade pelos sarauís, o povo nômade nativo da região que está sendo superado pelos ricos emigrantes marroquinos do norte. Bandidos armados com facas – que podem ter tido um motivo político – parecem ter sequestrado o protesto pacífico. As forças de segurança depois revidaram, prendendo e espancando dezenas de sarauís, segundo testemunhas e um relatório do grupo Human Rights Watch.

Desde então, as divisões parecem ter se aprofundado, tanto entre os próprios sarauís quanto entre eles e os marroquinos que vivem na cidade recém-construída, com casas bem arrumadas.

"Depois do que aconteceu nada parece normal e as pessoas não se sentem seguras aqui", disse um sarauí de 25 anos chamado Laghdaf, que estava sentado nos degraus de uma casa de alvenaria recém construída. Alguns sarauís culpam membros de sua própria comunidade, disse ele. Outros dizem que o Estado marroquino os tem tratado injustamente.

Inquietação

A inquietação se espalhou para além do Saara Ocidental. No domingo, centenas de milhares de marroquinos manifestaram-se em Casablanca, denunciando partidos políticos espanhóis e os jornais que tinham acusado o Marrocos de realizar um massacre em Laayoune.

Um nevoeiro de rumores e propaganda ajudou a obscurecer os fatos sobre o que aconteceu aqui no mês passado. A Frente Polisário também acusa as autoridades marroquinas de executarem um massacre após a invasão ao acampamento onde cerca de 12 mil pessoas se reuniam para protestar contra condições sociais e econômicas. "Mais de 30 pessoas foram mortas", algumas delas enterradas vivas, disse Ahmed Boukhari, representante da Frente Polisário na ONU, em entrevista ao telefone. Histórias similares têm aparecido na imprensa argelina.

A verdade logo surgiu e era praticamente o oposto: gangues do acampamento, armadas com facas, atacaram agentes de segurança marroquinos desarmados, matando 11 deles, segundo a polícia, testemunhas e defensores de direitos humanos. Um vídeo registrado durante o ataque mostra um homem mascarado cortando com destreza a garganta de um agente marroquino e outro urinando sobre o corpo de um bombeiro morto.

Foto: The New York Times

Vidros foram quebrados em protestos contra ação de forças marroquinas, em novembro

O estilo selvagem e premeditado dos assassinatos levou à especulação de que militantes ao estilo Al-Qaeda pudessem estar envolvidos, mas não há provas disso. Dois ou três civis morreram, segundo a maioria dos relatos. Ao todo, 238 policiais ficaram feridos, disse Mohamed Dkhissi, chefe de polícia da cidade.

"Nós tínhamos de escolher: uma intervenção forçada que arriscava vítimas em massa ou não usar a força", disse Mohamed Jelmous, governador do distrito de Laayoune.

Revanche

As prisões e espancamentos que ocorreram depois podem espalhar mais raiva entre os jovens sarauís, de acordo com grupos de direitos humanos.

Autoridades marroquinas admitem que as tensões locais estão enraizadas, em parte, em seus próprios erros. Eles têm distribuído terras e dinheiro para novos refugiados sarauís em áreas controladas pela Frente Polisário, uma política destinada a conquistar corações e mentes e que irritou os moradores originais. "Tem havido corrupção e má administração, e isso alimenta a raiva", disse Mohamed Taleb, diretor de um grupo governamental de direitos humanos.

O problema é também, em parte, um legado colonial. O Marrocos ocupou o Saara Ocidental pela primeira vez em 1975, após a retirada dos espanhóis que haviam governado a região como colônia por quase um século. A Frente Polisário, formada com o apoio da Argélia, exigiu a independência da região. Ela começou a travar uma guerra de guerrilha e pressionou outros países a reconhecer a República Democrática Árabe Sarauí, tendo Laayoune como sua capital. Obteve algum sucesso (principalmente entre as nações africanas), embora o número de adeptos aumentasse e diminuísse de acordo com a conveniência política.

ONU

A ONU ajudou a intermediar um cessar-fogo em 1991, com o acordo que um referendo seria realizado para decidir se o Saara Ocidental seria independente ou permaneceria como parte do Marrocos. Isso não aconteceu porque Marrocos e a Frente Polisário não concordam sobre quem deve ser autorizado a participar.

Enquanto isso, o Marrocos tem investido rios de dinheiro em Laayoune, tornando o debate sobre a independência quase um anacronismo. O que antes era um forte espanhol e um aglomerado de barracos é agora uma moderna cidade de 300 mil habitantes, um lucrativo centro de pesca e mineração de fosfato com o seu próprio aeroporto. Os sarauís agora constituem menos de 40% da população. A independência muito provavelmente transformaria Laayoune em um satélite da Argélia. Os marroquinos no norte do país, que estão conscientes do dinheiro que seu governo investiu na região, dizem que essa perspectiva é inaceitável.

Foto: The New York Times

Foto do rei Mohammad VI, do Marrocos, é vista em parede de café que foi queimado durante os conflitos

Em 2007, o Marrocos propôs que ao Saara Ocidental fosse concedido autonomia sob soberania marroquina, uma ideia que encontrou apoio dos Estados Unidos e da França. Muitos sarauís parecem gostar da ideia. No início deste ano, o ex-chefe de segurança da Frente Polisário, Mustapha Salma, que foi para Laayoune sob o abrigo de um programa de visitas de intercâmbio, declarou publicamente seu apoio à proposta de autonomia. Mas a Frente Polisário se manteve firme em sua luta pela independência. Salma foi preso quando retornou à base da Polisário. Depois desapareceu e agora dizem que ele está na Mauritânia.

Diplomacia à parte, alguns sarauís dizem que nunca foram verdadeiramente aceitos pelas autoridades marroquinas e sentem que estão vivendo sob uma ocupação, mesmo que acreditem que a independência não é uma opção viável. O desemprego entre jovens sarauís, muitos dizem, é uma das causas da violência. "Todos os sarauís vivem com medo", disse Ghania Djeini, diretor de um grupo de direitos humanos. "Agora existe um ódio entre marroquinos e sarauís. Os ataques às forças de segurança demonstram isso".

Djeini revelou descontentamentos como a discriminação no trabalho, a corrupção do governo e "desaparecimentos" que aconteceram nos anos 1980 e 1990. Esses desaparecimentos aconteceram por todo o Marrocos durante esses anos, não apenas na área dos sarauís.

Desde os eventos de 8 de novembro, os marroquinos têm outras queixas. O derramamento de sangue não é bom presságio para o futuro do Saara Ocidental. "O que a Argélia fez não é certo", disse Abderrahim Bougatya, pai do agente cuja garganta foi cortada no mês passado, sentado ao lado de sua esposa na sala de estar da família, com lágrimas escorrendo pelo seu rosto. "Eles queimaram nossos corações. Eles nos magoaram muito".

*Por Robert F. Worth e Mekhennet Souad, com reportagem de Bryan Denton

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