Nigéria: No futebol feminino africano, homofobia continua a ser obstáculo

Técnica da seleção de futebol feminina nigeriana tenta usar religião para livrar equipe de comportamento homossexual, que classifica como 'sujo'

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Pouco antes de ser contratada em 2009 como a primeira técnica da equipe feminina de futebol da Nigéria mulheres nacionais poderoso time de futebol, Eucharia Uche disse em um seminário que se sentia perturbada com a presença de lésbicas na equipe, dizendo que se tratava de uma "situação preocupante”.

Nos últimos dois anos, conforme a Nigéria progredia em direção à Copa do Mundo das Mulheres, que começou dia 26 na Alemanha, Uche disse que usou a religião como uma tentativa de livrar sua equipe do comportamento homossexual, que ela chamou de uma "questão suja" e "espiritualmente e moralmente muito errada”.

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Eucharia Uche, primeira técnica mulher, durante treino de suas jogadoras em Saalfelden, na Áustria
A Fifa, entidade dirigente do futebol, declara como parte de sua missão o desejo de usar o jogo para "superar os obstáculos sociais e culturais para as mulheres, com o objetivo final de melhorar a posição das mulheres na sociedade”. Mas a história da seleção da Nigéria ilustra os obstáculos culturais para muitas atletas africanas, décadas depois de esforços mais amplos de inclusão terem ocorrido em lugares como Estados Unidos, Alemanha, Noruega, Suécia e, mais recentemente, Brasil.

Uche disse que nunca presenciou suas próprias jogadoras participando de atividades homossexuais. Ela disse que se baseou em rumores, especulações e relatos da mídia para formar a sua convicção de que o comportamento homossexual era algo comum na equipe nigeriana. "Quando os boatos são fortes, você é obrigada a acreditar que são verdadeiros", disse Uche, 38 anos, em entrevista por telefone do centro de treinamento da Nigéria na Copa do Mundo em Saalfelden, na Áustria.

Em março, Uche fez observações semelhantes ao jornal The Sun, da Nigéria. O veículo também citou o ex-assistente técnico da seleção James Peters, dizendo que ele havia tirado algumas jogadoras da equipe no ano passado "não porque elas não eram boas jogadoras, mas porque eram lésbicas”.

Esse não é o seu estilo, disse Uche. Ela contou ter levado pastores para orar com a equipe e aconselhar as jogadoras. Suas jogadoras rotineiramente leem a Bíblia e, por vezes, oram juntas.

"A questão do lesbianismo é comum", disse Uche, que já jogou uma Copa do Mundo pela seleção da Nigéria e se descreveu como uma cristã casada e mãe de dois filhos. "Eu vim perceber que não é uma batalha física, precisamos de uma intervenção divina, a fim de controlar as jogadoras. Eu posso dizer que isso funcionou para nós. Isso é uma coisa do passado. Nunca mais mencionaram a questão”.

Penas

Em um continente onde o comportamento homossexual é considerado imoral, as lésbicas são muitas vezes ostracizadas e submetidas a espancamentos. Em países como a África do Sul e o Zimbábue, algumas mulheres são estupradas em um chamado tratamento corretivo para o comportamento homossexual.

Em um caso famoso na África do Sul, uma das principais jogadoras de futebol do mundo e ativista lésbica, Eudy Simelane, 31 anos, foi assassinada em 2008. Embora um de seus atacantes tenha testemunhado que o motivo do esfaqueamento tenha sido roubo, a morte de Simelane se tornou o foco de uma campanha para chamar a atenção para a violência contra gays e lésbicas no continente.

No ano passado, a Nigéria, que participa de sua sexta Copa do Mundo, acusou a Guiné Equatorial, outro país participante da Copa, de usar de pelo menos um ou talvez dois jogadores do sexo masculino em sua equipe por causa de sua aparência supostamente masculina. Oficiais da equipe de futebol da Guiné Equatorial disseram que a acusação era infundada e resultava de um "complexo de inferioridade" entre as equipes africanas rivais.

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Eucharia Uche contou ter levado pastores para orar com a equipe e aconselhar as jogadoras
O caso foi indeferido pela Confederação de Futebol Africano, órgão responsável pelo esporte no continente, de acordo com um porta-voz do federação nigeriana. Uche disse: "Até que seja provado, ninguém pode dizer que um jogador é homem ou mulher”.

O tratamento dado a lésbicas no esporte não é uma questão restrita a mulheres na África. Algumas mulheres de antigas seleções americanas, por exemplo, relutaram em assumir sua homossexualidade por medo de repercussões. E, apesar de todos os avanços da equidade de gênero no esporte, o lesbianismo continua sendo um assunto delicado no recrutamento do basquete universitário.

No entanto, a homossexualidade continua a ser um assunto particularmente tabu e carrega um estigma social significativo em muitas partes da África. A Nigéria é dividida entre um norte muçulmano e o sul cristão. Os atos homossexuais são proibidos, e aqueles que são abertamente gays ou lésbicas sofrem assédio e chantagem, dizem especialistas. No norte da Nigéria, os homens abertamente gays podem enfrentar a morte por lapidação.

'Doença'

"É triste porque muitos dos nigerianos olham para a homossexualidade quase como uma doença", disse Unoma Azuah, uma romancista nigeriana que ensina literatura na Faculdade Lane, em Jackson, Tennessee, e tem escrito extensivamente sobre o tratamento de lésbicas e bissexuais na nação mais populosa da África. "É um ambiente muito rigoroso”.

Conforme as economias estagnaram em países como Nigéria e Uganda e muitas pessoas perderam a fé no progresso, elas têm cada vez mais se voltado para interpretações conservadoras do cristianismo e do islamismo, disse Marc Epprecht, historiador chefe interino do departamento de estudos de desenvolvimento global da Universidade de Queen em Kingston, Ontario, e pesquisou a sexualidade na África.

"A homofobia é uma maneira fácil de simplificar a mensagem dessas igrejas", disse Epprecht. "Nossa igreja é mais moral do que aquela. Venha se juntar a nós. Você pode ter uma boa vida na Terra, se seguir estritamente crenças simples”.

Joanie Evans da Inglaterra, que é copresidente da Associação Internacional Gay e Lésbica de Futebol, disse que seu grupo está "chocado" com a situação na Nigéria. "As mulheres no esporte já são vistas como um parente pobre", disse Evans. "Discriminar as mulheres novamente por causa de sua sexualidade é muito prejudicial”.

Evans criticou a Fifa por não ser tão forte na luta contra a homofobia como tem sido no combate ao racismo no futebol. A Fifa disse que a discriminação de gênero é estritamente proibida e que as violações podem resultar em suspensões ou expulsões, mas não quis comentar o caso da Nigéria por não ter recebido nenhuma informação ou reclamação oficial.

Na África do Sul, um time de futebol tem desafiado a homofobia no continente. É uma equipa formada por jogadoras assumidamente lésbica e negras em Joanesburgo, chamada Chosen Few (As Poucas Escolhidas, em tradução livre). Ainda assim, participar do time tem os seus riscos, disseram os jogadores ao New York Times em entrevistas para um vídeo feito durante a Copa do Mundo de 2010.

Uma jogadora, Tumi Mkhuma, contou ter sio estuprada e como decorrência disso engravidou. Depois de perder seu bebê, ela disse que por duas vezes tentou se matar. O time, segundo ela, é uma espécie de segunda família e quando está em campo ela se sente “livre para ser quem eu sou”. Ainda assim, Mkhuma continuou a sofrer por causa de ataques. "Às vezes, eu queria estar morta", disse ela.

Na Nigéria, parece improvável que qualquer jogadora lésbicas viva abertamente a ponto de desafiar Uche e se arriscar a perder seu lugar na seleção nacional e uma chance de jogar profissionalmente na Europa ou nos Estados Unidos, disse Azuah, o escritor nigeriano. "Não vejo acredito que elas tenham escolha", disse. "Eu conheço muitos homossexuais que encontraram uma maneira de sobreviver, de fingir. Talvez alguns deles tenha sentido uma transformação espiritual. Quem sabe? O mais importante é ser competente e ter uma carreira, não importa o quão incômodo isso seja”.

Quando perguntada sobre a posição de sua técnica, Precious Dede, capitã e goleira da Nigéria, disse em uma entrevista por telefone da Áustria que não estava em posição de responder a essa pergunta. "Eu não sei nada sobre isso", disse ela. “Tudo o que ela disser é fato”.

*Por Jere Longman

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