News Corp. tem problemas que o dinheiro não pode dissipar

Mas de uma vez, império midiático de Rupert Murdoch usou grandes somas de dinheiro para sair ileso de processos e acordos

The New York Times |

"Enterre seus erros", Rupert Murdoch gosta de dizer. Mas alguns erros não ficam enterrados, não importa quanto dinheiro você jogue por cima deles.

Diversas vezes, nos Estados Unidos e em outros lugares, o império de notícias de Murdoch usou grandes somas de dinheiro para passar pelo julgamento alheio sem cicatrizes, concordando com o pagamento de acordos legais e, o mais importante, para silenciar seus críticos. No caso do News America Marketing, o obscuro mas rentável jornal de marketing, a News Corp. pagou cerca de US$ 655 milhões para fazer sumir acusações embaraçosas de espionagem corporativa e comportamento anticoncorrência.

Esse tipo de estratégia oferece um vislumbre útil sobre a cultura corporativa de uma empresa que agora está sendo engolida por um escândalo fora de controle em Londres, provocado pelo grampeamento do telefone de uma menina assassinada e alimentado por um fluxo constante de revelações sobre um comportamento antiético, e às vezes criminoso, nos jornais da empresa.

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James e Rupert Murdoch prestam depoimento no Comitê de Mídia do Parlamento britânico
Até agora, 10 pessoas foram presas, incluindo, no domingo, Rebekah Brooks , chefe da News International. Les Hinton , que dirigiu a News International antes dela era chefe da Dow Jones, pediu demissão na sexta-feira. Agora a questão é se Murdoch será forçado a fazer um sacrifício como o de Abraão e abandonar seu filho James, suposto herdeiro.

A News Corp. pode ter a esperança de voltar para seus negócios, agora que alguns dos responsáveis foram chamados a prestar contas - e que as pessoas vão ver o incidente como um subproduto aberrador do mundo dos tabloides britânicos. Mas isso parece improvável. O dano deve continuar, talvez porque o problema subjacente não é restrito a quem já caiu.

Como Mark Lewis, o advogado da família da menina assassinada Milly Dowler disse após Brooks pedir demissão : "Não se trata de apenas um indivíduo, mas de toda a cultura de uma organização”.

Bem colocado. Essa organização usou de tino estratégico para criar amplos e lucrativos projetos midiáticos, mas sempre demonstrou ter problemas. Ela patinou sobre questões regulamentares, tratou um comitê de supervisão editorial como se fosse um vaso de plantas (no The Wall Street Journal), e fez acordos com governos restritivos (como a China) e empresas suspeitas - tudo isso em sua busca incessante por mais. No processo, Murdoch sempre foi franco sobre sua impaciência com as regras dos outros.

Segundo o jornal britânico The Guardian, o primeiro a revelar o escândalo das escutas telefônicas, em 2009 a News Corp. pagou US$ 1,6 milhões para resolver alegações relacionadas com o escândalo. Embora conveniente e barato - a empresa ainda tem rios de dinheiro nas mãos - essa provavelmente não seria uma boa estratégia no longo prazo. Se alguns desses casos tivessem ido a julgamento, eles teriam fechado a ferida.

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Rebekah Brooks responde perguntas de parlamentares britânicos em Londres
O litígio pode ter um efeito de cozimento sobre as empresas, forçando-as a reexaminar a maneira como fazem negócios. Mas da maneira que foi feito, a extensão e a vilania dos grampos nunca foram conhecidas porque a News Corp. pagou muito dinheiro para ter certeza que fosse assim. 

Dinheiro

E o dinheiro que a empresa teria pago a vítimas de escutas telefônicas é nada se comparado com o que ela gastou para encobrir as táticas da News America, em uma série de ações movidas por concorrentes menores nos Estados Unidos.

Em 2006, o Estado de Minnesota acusou o News America de fazer uso de práticas desleais de comércio, e a empresa resolveu concordar em pagar os custos e não falsamente depreciar seus concorrentes. Em 2009, um caso federal em Nova Jersey, movido por uma empresa chamada Floorgraphics, foi a julgamento acusando a News America de invadir o seu sistema de computador protegido por senha.

A queixa resumiu a cultura da News America muito bem, dizendo que a empresa havia "acessado ilegalmente o sistema de computador e obtido informações privadas" e "divulgado informações falsas, enganosas e maliciosas”. A denúncia afirma que a violação foi atribuída a um endereço de IP registado na News America e que, após a invasão, a Floorgraphics perdeu contratos com empresas como Safeway, Winn-Dixie e Piggly Wiggly.

Grande parte da ação foi baseada no depoimento de Robert Emmel, ex-executivo de News America que se tornou um delator da empresa. Depois de alguns dias de testemunhos, a News Corp tinha ouvido o suficiente. A empresa fez um acordo de US$ 29,5 milhões com Floorgraphics e dias depois comprou a empresa, mesmo que supostamente seu faturamento estivesse abaixo de US$ 1 milhão.

Mas os problemas continuaram, e manter uma tampa sobre a News America acabou por ser um exercício constante e caro. No início deste ano, a empresa pagou US$ 125 milhões para a Insignia Systems para resolver acusações de comportamento anti-concorrência e de violação de leis antitruste. E no mais caro acordo, gastou meio bilhão de dólares em 2010, dias antes do caso estar programado para ir a julgamento. A autora da ação, a empresa Valassis Communications, já havia vencido um veredicto de US$ 300 milhões em Michigan, mas desistiu do processo em troca de US$ 500 milhões e um acordo para cooperar em determinados empreendimentos dali para frente.

A News Corp. é um muito grande e bem capitalizada, mas esse pagamento para a Valassis representou um quinto do lucro líquido da empresa em 2010 e correspondeu ao lucro da divisão de jornais e informação da qual a News America era uma parte.

Cultura

Como os consumidores (e jornalistas) não se importam muito quem é o dono da máquina de cupom no corredor de lanches, os casos não receberam muita atenção. Mas isso não significa que eles não oferecem um vislumbre útil sobre cultura da News Corp.

A News America era liderada por Paul V. Carlucci, que, segundo a Forbes, costumava mostrar para o pessoal de vendas a cena de Os Intocáveis em que Al Capone bate em um homem até a morte com um taco de beisebol. Emmel testemunhou que Carlucci era claro sobre a filosofia empresarial. Carlucci dizia que se "havia indivíduos que estavam preocupados em fazer a coisa certa, ele os chamava de liberais mijões, era essa a descrição que usava, então ele poderia arranjar para que aqueles indivíduos fossem tirados da empresa", disse em seu Emmel em seu testemunho.

Claramente, dado o tamanho dos acordos, além das provas e depoimentos nos processos, a News Corp. provavelmente sabia que tinha outros desonestos em suas mãos, alguém com quem precisariam lidar. Afinal, Carlucci, que se tornou presidente e executivo-chefe da News America em 1997, havia supervisionado uma divisão que atraiu o escrutínio de investigadores do governo e foi alvo de ações judiciais.

E enquanto Murdoch pode razoavelmente afirmar que não possuía conhecimento da cultura permissiva criada por Hinton e Brooks, agora ele tem 655 milhões de razões para saber que Carlucci agia fora dos trilhos.

Então, o que aconteceu com ele? Carlucci tornou-se o editor do New York Post em 2005 e continua a servir como diretor da News America, o que não se enquadra exatamente com a declaração recente de Murdoch de "estabelecer absolutamente a nossa integridade aos olhos do público”

Um representante da News Corp. não respondeu a um pedido de comentário.

Mesmo quando as chamas do escândalo começam a chegar mais perto da porta de Murdoch, qualquer pessoa que apostar contra a sobrevivência do seu negócio provavelmente ficará desapontada. Ele esteve em apuros antes e não apenas sobreviveu, mas prosperou. A reputação da News Corp. pode ser debaixo d'água, mas a empresa em si é muito líquida, com US$ 11,8 bilhões em dinheiro na mão e mais de US$ 2,5 bilhões em fluxo de caixa anual livre.

Ainda assim, dinheiro pode resolver muitas coisas, mas não tudo. Quando você joga dinheiro na fogueira, ele queima e nada mais.

*Por David Carr

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