Não vamos nos esquecer do que aprendemos com a crise

Há alguns meses atrás, eu estava em um encontro com economistas e oficiais financeiros discutindo, obviamente, a crise. Todos procuravam muito uma explicação. Um funcionário do governo de planejamento de políticas perguntou ¿Por que nós não percebemos o que estava vindo?¿

The New York Times |

Acordo Ortográfico

Claro que houve apenas uma coisa a responder, então eu disse: Como assim nós?

Apesar disso, o oficial tinha um ponto crítico. Algumas pessoas dizem que a crise atual não tem precedentes, mas a verdade é que houve diversos, e alguns deles se mostraram no bons tempos que vinham ocorrendo recentemente. Ainda assim, eles foram ignorados.

E a história de como nós falhamos em ver o que estava por vir tem uma clara implicação política ¿ em outras palavras, a reforma do mercado financeiro deve acontecer rápido e não deveria esperar até que a crise seja solucionada.

Sobre esses precedentes: Por que muitos observadores dispensaram os sinais óbvios da bolha no mercado imobiliário, mesmo com os recentes problemas com a Internet que houve nos anos 90 ainda frescos em nossas memórias?

Questões

Por que tantas pessoas insistiram que nosso sistema financeiro era elástico, como disse Alan Greenspan, mesmo quando houve o colapso apenas na empresa de Fundos Livres, Long-Term Capital Management, que paralisou temporariamente o mercado de crédito em todo mundo?

Por que quase todo mundo acreditou na onipotência do Federal Reserve (FED, Banco Central dos EUA) quando seu parceiro, o Banco do Japão, passou uma década tentando e falhando em revitalizar sua economia paralisada?

Uma das respostas a essas questões é que ninguém gosta da parte ruim. Enquanto a bolha imobiliária estava crescendo, empresas de empréstimos ganhavam montanhas de dinheiro distribuindo hipotecas a qualquer um que aparecesse pela frente; bancos de investimentos ganhavam ainda mais dinheiro refazendo as hipotecas com garantias ainda mais brilhantes; e gerenciadores do dinheiro registravam inúmeros documentos de lucros através de compras de garantias com fundos de empréstimos como se fossem gênios, e eram pagos de acordo.

E quem queria ouvir economistas lúgubres advertindo que tudo aquilo era um grande investimento falso?

Histórico de crises

Há também outra razão para a instituição de política econômica ter falhado em ver que a crise estava chegando. A crise de 1990 e nos primeiros anos desta década deveriam ter sido vistas como maus presságios, como se fossem intimações para novos problemas. Mas todos estavam muito ocupados comemorando nosso sucesso em conseguir passar por aquela crise para perceber isso.

Considere, em particular, o que aconteceu após a crise de 1997-98. Ela mostrou que o sistema financeiro moderno, com seus mercados desregulados, alavancados por jogadores e pela circulação do capital global, se tornou perigosamente frágil. Mas quando a crise diminuiu, a ordem do dia foi comemorar o triunfo e não procurar por explicações

A revista Time famosamente nomeou Greenspan, Robert Rubin e Lawrence Summers de The Committee to Save de World (O Comitê para Salvar o Mundo) ¿ os Três marqueteiros que preveniram uma queda global. Com efeito, todo mundo declarou uma festa de vitória por conseguirmos sair da beira do abismo, enquanto se esqueciam de perguntar primeiro como chegamos tão perto de cair.

De fato, ambas as crises de 1997-98 e a explosão da bolha da Internet provavelmente teve um efeito perverso em tornar tantos os investidores quanto os oficiais públicos mais, e não menos, tranquilos.

Temores

Porque nenhuma das crises chegou aos nossos maiores temores e nenhuma delas trouxe outra Grande Depressão, os investidores acreditaram que Greenspan tinha o poder mágico de solucionar todos os problemas ¿ e, como se suspeitava, o próprio Greenspan, que se opôs a todas as propostas para a regulação cautelosa do sistema financeiro.

Atualmente, estamos no meio de outra crise, a pior desde os anos 30. No momento, todos os olhos estão voltados para uma resposta imediata para ela.

Será que o Fed irá fazer esforços mais agressivos para descongelar o mercado de créditos finalmente conseguindo chegar a algum lugar? Será que o estímulo fiscal da administração de Obama levantará a produção e os empregos? (Ainda não tenho certeza, a propósito, nem se a equipe econômica está pensando grande o suficiente).

Aprendizado

E porque estamos todos tão preocupados com a crise atual, é difícil se concentrar em assuntos de longo prazo ¿ como controlar nosso sistema financeiro descontrolado, prevenindo ou ao menos limitando a próxima crise.

Ainda que a experiência da última década lembre que devemos nos preocupar com a reforma financeira, mais do que com todas as regras da sombra do sistema bancário no centro da bagunça atual, antes agora do que mais tarde.

Pelo menos uma vez a economia está na estrada para se recuperar, os negociadores ativos irão começar a fazer dinheiro fácil novamente ¿ e farão interceder contra qualquer um que tente limitar seus ganhos. Além disso, o sucesso dos esforços da recuperação parecerá antecipado, mesmo que não sejam, e a urgência da ação se perderá.

Então aqui está minha opinião: mesmo que a agenda da próxima administração já esteja lotada, não deveriam deixar de fora a reforma financeira. A hora de começar a prevenir a próxima crise é agora.

Por PAUL KRUGMAN

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