Na volta para casa, a cena trágica de um massacre afegão

Morador de distrito de Panjwai, no sul do Afeganistão, encontrou 11 parentes mortos e queimados em suposta ação de militar dos EUA

The New York Times |

Deslocado por causa da guerra, Abdul Samad finalmente trouxe sua família de volta para o volátil distrito de Panjwai, no sul do Afeganistão, no ano passado. Ele tinha medo do Taleban, mas acreditava que estaria seguro em sua nova casa já que ela estava situada perto de uma base militar americana.

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Mas quando Samad, 60 anos, entrou em sua residência de paredes de barro no domingo de manhã e encontrou 11 de seus parentes esparramados pelo chão com um tiro na cabeça, esfaqueados e queimados, ele descobriu que o culpado não havia sido um insurgente do Taleban. O suspeito era um sargento do Exército americano de 38 anos de idade que havia saído da base militar com a intenção de matar pessoas.

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Abdul Samad perdeu 11 membros de sua família no massacre em Kandahar
O soldado americano foi acusado de matar um total de 16 pessoas em um ataque violento e sangrento que atrapalhou ainda mais as relações do Afeganistão com os Estados Unidos e deixou Samad devastado, ele que é um respeitado ancião da aldeia e cujos olhos cansados derramaram lágrimas num certo instante e raiva logo em seguida.

Ele que uma vez acreditou na tática ofensiva dos Estados Unidos contra o Taleban, agora insiste que os americanos deixem seu país. "Eu não sei por que eles os mataram", disse Samad, um homem de estatura baixa e frágil, com uma barba e um turbante brancos, enquanto se esforçava o máximo possível para tentar lidar com a perda de sua esposa, quatro filhas com idades entre 2 e 6 anos, quatro filhos entre 8 e 12 anos, e dois outros parentes.

"Nosso governo nos disse que era seguro voltarmos para nossa aldeia e então deixaram esse massacre acontecer", disse Samad perto da base militar, conhecida como Acampamento Belambay, e acompanhado de outros moradores indignados com o ocorrido.

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Eles carregavam os corpos dos familiares de Samad e de outras vítimas e os cobertores queimados que os cobriam como prova do crime terrível que tinha acontecido.

Após anos de guerra, Samad, um fazendeiro pobre, havia relutado em voltar para sua casa em Panjwai, na Província de Kandahar, região antes conhecida pela qualidade de suas uvas e amoras.

Mas ao contrário de outros moradores desalojados que permaneceram em Kandahar, Samad acabou atendendo aos apelos do governador da província e do Exército afegão. Eles haviam encorajado os moradores a voltarem e assegurado que as forças americanas iriam protegê-los.

Entre partes

Embora os Talebans estejam sob controle há um certo tempo, aldeões como Samad dizem que o grupo ainda está ativo e descrevem uma vida intolerável entre as forças da coalizão e do Taleban, enquanto as suas vinhas e campos de trigo são consumidos por confrontos.

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Samad e outros parentes das vítimas se reuniram com Karzai na sexta-feira
"O Taleban está atacando as bases plantando minas e as bases estão disparando morteiros e tiros indiscriminadamente contra as aldeias quando estão sob ataque", disse Muhammad Malak Mama, 50 anos, um morador de Panjwai.

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Ele disse que há um mês atrás, um morteiro disparado da base matou uma mulher e que na semana passada uma bomba atingiu um veículo blindado americano.

O secretário de Defesa americano, Leon Panetta , afirmou nesta quarta-feira que o sargento retornou à base depois dos assassinatos "e, basicamente, se entregou, além de informar a oficiais o que tinha acontecido." Quando questionado sobre se o soldado havia confessado os crimes, Panetta respondeu: "Eu suspeito que sim."

Panetta, que falou com repórteres em seu avião em rota para o Quirguistão, disse que foi um soldado afegão na base americana quem primeiro percebeu que o sargento não estava lá."Ele relatou que eles fizeram uma inspeção de cama e que haviam preparado uma equipe de busca para sair e tentar descobrir onde ele estava. Quando receberam a notícia do que havia acontecido, ele já havia se entregado", disse.

Panetta disse que o Exército irá tomar as "medidas apropriadas" contra o soldado e que a pena de morte "pode até ser levada em consideração." Ele disse que os militares ainda estavam tendo dificuldades em entender o motivo que levou o sargento a realizar os ataques. "Não temos certeza do porquê ele fez essas coisas", disse.

Mas ele chamou os assassinatos de "um ato criminoso" e disse que havia garantido ao presidente afegão, Hamid Karzai , que o soldado "seria levado à justiça e que será responsabilizado por seus crimes."

O Taleban publicou algumas fotos sangrentas do ataque em seu site, e as fotografias das crianças carbonizadas circularam em muitas redes sociais e blogs afegãos, que receberam uma enorme quantidade de comentários antiamericanos.

Em Cabul, o Parlamento emitiu um comunicado dizendo que sua paciência com as forças da coalizão estava se esgotando. Cerca de 10 deputados de Kandahar saíram em protesto pelas mortes. "Nós imploramos para que o governo dos EUA puna os culpados e os coloque em julgamento em um tribunal aberto para que os restantes dos indivíduos que querem derramar o sangue inocente de nosso povo possam aprender uma lição com isso", disse o comunicado.

Muitos afegãos, incluindo Samad, continuam a duvidar de que o ataque tenha sido obra de um único atirador, como haviam dito os militares. Vários dos moradores em Panjwai disseram ter visto mais de um soldado, bem como helicópteros, sugerindo que se tratava de um ataque intencional coordenado.

Versão

No entanto, em Cabul, diplomatas americanos disseram em reuniões privadas com outros oficiais aliados o que têm insistido em público: que os disparos foram realizados por um único indivíduo e que ele está agora sob custódia das forças dos Estados Unidos, de acordo com as autoridades americanas que estão a par das conversas. Eles disseram que os helicópteros foram enviados após o ataque para transportar pelo menos cinco pessoas feridas das aldeias para um hospital militar da Otan.

Quanto a Samad, ele disse estar muito desesperado para sequer pensar em como conseguirá seguir em frente com sua vida. Mas ele disse que a lição aprendida com este ocorrido é clara: os americanos devem se retirar do Afeganistão.

Karzai ligou para Samad no domingo, após o ocorrido, e Samad, descalço ao falar por telefone via satélite ao lado de autoridades distritais, disse ao presidente: "Ou você nos extermina de uma vez ou se livra dos americanos".

"Nós te elegemos presidente e veja o que acontece com as nossas famílias", disse. "Os americanos nos matam e depois queimam os corpos".

*Por Taimoor Sha e Graham Bowley

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