Na Venezuela, fazendeiros lutam para manter cultivo do melhor cacau do mundo

PARQUE NACIONAL HENRI PITTIER, Venezuela - Kai Rosenberg reconhece que pode ser um pouco insano. Ele possui uma plantação de cacau neste trecho de floresta virgem coberta por nuvens indomadas no norte da Venezuela, por onde onças caminham sob árvores imensas e macacos fazem barulho ao perceber visitas.

The New York Times |

Só nesta década, sem-terra tentaram tomar o controle de suas terras, um fungo quase acabou com toda a colheita, inspetores do governo pediram subornos e funcionários de exportação lhe deram dores de cabeça intermináveis com exigências de licenças.

Pior ainda, invasores armados com metralhadoras arrombaram sua casa uma noite. Na luta que resultou disso, segundo ele, um dos homens atirou na sua garganta. Removido de helicóptero, ele se recuperou depois de seis operações. Mas voltou a cultivar o cacau venezuelano, ingrediente cru do chocolate desejado na Europa e Estados Unidos.


Cacau venezuelano é exportado para os EUA e Europa / NYT

"Talvez eu seja mesmo um pouco insano, mas essa é uma exigência para se trabalhar com cacau", disse Rosenberg, um judeu alemão que nasceu em Hamburgo em 1940 e se mudou para a Venezuela com 18 anos de idade.

A Venezuela produz a mesma quantidade de cacau que há três séculos: 15 mil toneladas ao ano, menos que 1% da produção global. Mas esta quantia gera paixões entre críticos e devotos, fazendo com que seja uma colheita de luxo destinada a estrangeiros e se torne um assunto contencioso e, às vezes, político e violento no país.

O cacau local é tão desejável que os fabricantes de chocolate europeus às vezes armam concorrência para ter acesso a ele. Os chocolatiers falam sobre os fatores únicos desta extremidade caribenha de maneira que se assemelha ao gout de terroir , ou gosto da terra, crucial para vinhos de qualidade.

"A Venezuela está em uma liga única", disse Gary Guittard, fabricante de chocolate da Califórnia que compra cacau venezuelano. "São precisos anos para desenvolver a singularidade do melhor cacau, talvez 20 ou 30 anos, talvez 100, então as outras nações ficam para trás".

Visto como um tesouro no exterior, o cacau é percebido de maneiras diferentes entre os muitos venezuelanos, do presidente aos pobres. Uma falha nesta reserva natural permite que fazendas de cacau pontilhem a floresta, perto de aldeias povoadas por descendentes de escravos africanos e imigrantes pobres que moram no parque.

Em uma visita ao local no ano passado, o presidente Hugo Chávez perguntou por que o chocolate feito com cacau venezuelano custa tanto na Europa, concedendo a William Harcourt-Cooze, britânico que possui uma plantação na floresta, um tratamento particularmente severo.

"Este cavalheiro está ficando rico enquanto os trabalhadores estão vivendo em pobreza", Chávez disse depois de escutar reclamações de moradores a respeito da fazenda Harcourt-Cooze.

Depois veio o pesadelo temido por todo cultivador de cacau: inspeções governamentais sobre violações do trabalho ou da terra. "Houve uma investigação oficial e eu fui vingado, todas as acusações eram totalmente infundadas", disse Harcourt-Cooze da Inglaterra.


Produção de cacau na Venezuela emprega milhares de trabalhadores rurais / NYT

Outros não têm tanta sorte. Apesar da parceria com uma empresa de chocolates de Barinas, Estado de Chávez, a El Rey, uma companhia líder da indústria de chocolates gourmet na Venezuela, não teve como impedir a invasão de suas propriedades por sem-terra que até hoje permanecem no local.

"Nós poderíamos ser líderes mundiais na exportação do cacau, como a carne de boi na Argentina ou o arroz na Tailândia", disse Jorge Redmond, chefe executivo da Chocolates El Rey, refletindo sobre a indústria. "Ao invés disso nós temos que enfrentar 52 tipos diferentes de permissão para exportar nosso produto, em comparação a quatro antes de Chávez subir ao poder".

Construída com trabalho escravo, a indústria do cacau aqui se tornou o esteio da economia colonial da Venezuela. Durante séculos, o país foi seu principal produtor. Monarcas europeus beberam muito chocolate feito com o cacau venezuelano.

Então, no século 20, chegou o petróleo. Os ditadores vieram e se foram. A Venezuela, apesar de suas vastas terras férteis, se tornou um importador de alimentos. O legendário Juan Vicente Gómez tomou as plantações de cacau desta floresta e fez delas parte de seu império pessoal.

Depois, os burocratas reuniram um monopólio sobre a indústria, corroendo incentivos para a produção do cacau de alta qualidade. Os rendimentos despencaram. Mas ainda que enfraquecido assim, o cultivo de cacau sobreviveu, atraindo cultivadores obsessivos o suficiente para resistir a políticas que maltratam as exportações de qualquer coisa que não seja o petróleo.

A Venezuela é conhecida como um lugar difícil de se negociar. Mas a estranha resiliência do comércio de cacau é evidente.

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