Na Somália, crianças carregam armas para aliados americanos

Elemento crucial da estratégia americana contra o terrorismo na África, governo somali transforma crianças em combatentes

The New York Times |

Awil Salah Osman, 12, anda pelas ruas da destruída cidade de Mogadíscio, na Somália, com aparência semelhante a de tantos outros meninos, com roupas rasgadas, pernas finas e os olhos ávidos por atenção e afeto.

Mas Awilis é diferente em duas maneiras: ele anda com uma metralhadora Kalashnikov totalmente automática e totalmente carregada no ombro, e trabalha para uma força militar que é substancialmente armada e financiada pelos Estados Unidos.

É sabido que os radicais islâmicos da Somália estão tirando crianças de campos de futebol e transformando-as em combatentes.

Mas Awil não é um rebelde. Ele trabalha para o governo federal de transição da Somália, um elemento crucial da estratégia americana contra o terrorismo no Chifre da África.

Segundo grupos de direitos humanos somalianos e funcionários da ONU, o governo da Somália, que depende da ajuda do Ocidente para sobreviver, está empregando centenas de crianças ou mais na linha de frente - algumas chegam a ter até nove anos de idade.

Autoridades da ONU dizem ter apresentado planos específicos para que o governo somaliano desmobilize as crianças. Mas os líderes da Somália, lutando há anos para evitar o avanço dos insurgentes, paralisados por amargas disputas internas, até o momento não reagiram.

Diversas autoridades americanas também disseram estar preocupadas a respeito do uso de crianças-soldados e estão pressionando os seus parceiros da Somália para serem mais cuidadosos.

Segundo a Unicef, apenas dois países não ratificaram a Convenção dos Direitos das Crianças, que proíbe o uso de soldados menores de 15 anos: os Estados Unidos e a Somália.

Funcionários do governo da Somália admitem que na pressa para construir um exército permanente, eles não discriminam.

Ali Sheikh Yassin, vice-presidente do Centro para Paz e Direitos Humanos Elman no centro de Mogadíscio, disse que cerca de 20% das tropas governamentais (que totalizam entre 5 mil a 10 mil) são crianças e que cerca de 80% dos rebeldes também.

O principal grupo rebelde, que tem se aproximado cada vez mais da Al-Qaeda, é o chamado Shabab, que em árabe significa juventude.

Um dos muitos perigos que Awil enfrenta é a constante troca de tiros entre sua equipe e um outro grupo de soldados do governo de um clã diferente. O governo da Somália é atormentado pelas divisões que vão desde o gabinete do primeiro-ministro até as ruas.

Assessores do presidente Sheik Sharif Sheik Ahmed dizem que sintonizaram seus planos para uma próxima ofensiva, tornando-a uma operação militar gradual que busca lentamente tomar a cidade de volta dos insurgentes.

Awil está ansioso para a ação. Seus comandantes dizem que ele já se provou lutando contra o Shabab, que costumava intimidá-lo no mercado.

"Aquilo me fez querer participar do TFG", ele disse. "Com eles, sinto que estou entre irmãos."

Por Jeffrey Gettleman

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