Na Rússia, escassez de trigo sarraceno retoma hábitos soviéticos

Grão preferido pelos russos é consumido como cereal quente no café da manhã, ao lado de carne, recheios e panquecas

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Galina Litvyak parou no quiosque da rua de baixo, vagou por supermercados e falou com amigos em busca dos últimos rumores. Ninguém sabia onde encontrá-lo. Em todo o seu bairro de classe média, as lojas estavam cheias com uma ampla seleção de produtos, refletindo o quanto Moscou tem mudado ao longo das últimas duas décadas. Com uma exceção. A grande escassez de trigo sarraceno de 2010 não acabou.

Como se o calor brutal do verão, os incêndios florestais e a seca não fossem suficientes, o país está sofrendo com mais um problema relacionado com o clima: a escassez de um grão adorado que está causando uma espécie de túnel do tempo no país. Russos como Galina, 72 anos, uma contadora aposentada, estão retomando hábitos espartanos afinados sob o comunismo. E não estão felizes.

"Eu não consigo encontrar trigo sarraceno em nenhum lugar e, se encontrasse, seria caro demais para que pudesse comprar", ela disse.

Essas queixas podem parecer triviais, mas as autoridades estão levando o problema a sério. Desde a época dos czares, o descontentamento público com a escassez – de farinha ou de salsicha, sal de mesa ou vodca – muitas vezes provocou instabilidade política na Rússia.

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Desde o tempo dos czares, descontentamento público com escassez de farinha, salsicha, sal ou vodca provoca instabilidade política na Rússia
Quando o Kremlin ordena que a polícia disperse manifestações da oposição, a maioria das pessoas tendem a não se importar. Mas os russos comem trigo sarraceno todos os dias – como cereal quente no café da manhã, ao lado de carne, recheios, panquecas e muitas outras maneiras. Privá-los do produto por qualquer período de tempo pode causar uma reação violenta.

Várias vezes nos últimos dias, o presidente russo, Dmitri Medvedev, falou sobre a escassez de trigo sarraceno em visitas a centros provinciais, na tentativa de assegurar o país que o governo está trabalhando para resolver o problema. Ele alertou que as autoridades irão reprimir aqueles que manipularem o mercado do fagópiro.

Na segunda-feira, Medvedev apareceu em uma loja de conveniência em Voronezh, 480 quilômetros ao sul de Moscou, onde questionou a balconista sobre o recente aumento nos preços dos alimentos básicos.

"Você tem algum trigo sarraceno?”, ele perguntou. "No momento, não há", ela respondeu.

Safra

A safra de trigo sarraceno foi, sem dúvida, afetada pela seca, que deve reduzir a produção global de grãos em cerca de um terço. Mas oficiais do Kremlin insistem que há quantidade suficiente de grão disponível para os consumidores russos, especialmente agora que o governo proibiu as exportações de grãos pelo menos até 2011, a fim de estabilizar o mercado interno. Assim, a suspeita recai sobre o pânico da compra, o estocamento e a especulação – práticas que também remetem aos tempos soviéticos.

Antes do verão, o trigo sarraceno era vendido a US$ 0,50 o quilo em Moscou. Agora ele custa US$ 1 o quilo, ou mais, se puder ser encontrado. Para os pobres e idosos, o preço atual é alto demais.

O trigo sarraceno não é tão central na dieta russa como o trigo comum, mas é considerado como um alimento distintamente típico do país, uma planta que floresce saudável nas estepes siberianas.

*Por Clifford J. Levy

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