Na Rússia, dissidência se transforma em um ato solo

Diferentemente de protestos, manifestações individuais são legais e não precisam de autorização, que a oposição raramente obtém

The New York Times |

Nos últimos dias, após a prisão de Boris Y. Nemtsov, uma figura proeminente da oposição russa, num comício de ano-novo, um jogo de gato e rato tem acontecido nas ruas de Moscou ainda enfeitadas com decorações das festas de fim de ano.

Grupos juvenis pró-Kremlin estão tentando impedir a promessa de membros da oposição de realizar manifestações diárias diante da Câmara Municipal de Moscou e da cadeia onde Nemtsov, que foi vice-primeiro-ministro no governo do ex-presidente Boris Yeltsin, e alguns outros líderes da oposição estão sendo mantidos.

Reuters
Policial aborda manifestante da oposição Sergei Udaltsov, que protesta sozinho em Moscou (5/1/2011)
Sob um capricho da legislação russa sobre manifestações e protestos, as manifestações são legais e não precisam de autorização, que a oposição raramente obtém. Manifestantes sozinhos, estando a 30 metros ou mais de distâncias dos outros, podem segurar cartazes em público. Da maneira que polícia russa interpreta as regras, dois manifestantes em pé juntos podem ser presos – mesmo que eles atuem em lados opostos do espectro político.

Isso explica porque Alla A. Kuznetsova, uma professora de química do ensino médio, se posicionou sozinha na neve no Boulevard Simferopol na quarta-feira, olhando nervosamente rua acima e abaix, mas pouco preocupada com os policiais que andavam por ali.

Com um último olhar para se certificar de que ninguém estava por perto, ela tomou coragem e marchou em linha reta até a polícia. "Quero expressar a minha opinião pessoal", ela anunciou, acrescentando: "Eu não quero que as pessoas se aproximem de mim". Com o sol refletindo na neve em um dia de inverno, ela desdobrou um cartaz de papel no qual se lia: "Liberdade para os prisioneiros políticos".

Assim que ela o fez, no entanto, um jovem correu pela calçada, aparentemente surgido do nada, deslizando sobre o gelo até parar a poucos metros de Kuznetsova. Com um sorriso, ele ergueu seu próprio cartaz que dizia: "Trabalhos forçados para Nemtsov!"

Cena frequente

Esta é uma cena que tem sido frequente. Até agora, dezenas de manifestantes da oposição foram presos depois que ativistas da juventude pró-Kremlin esgueiraram-se a seu lado nas ruas. Tecnicamente, os ativistas pró-governo também deveriam ser presos, mas grupos da oposição dizem que eles nem sempre são formalmente detidos.

Na terça-feira, por exemplo, 24 ativistas da oposição e 10 jovens pró-Kremlin, foram presos. Na quarta-feira, a polícia prendeu apenas três ativistas da oposição e meia dúzia pró-governo, em parte devido aos esforços dos manifestantes da oposição para evitar os ativistas.

Defensores dos direitos russos e governos estrangeiros têm observado com certo espanto os primeiros dias de 2011 com certo espanto.

Casa Branca

A Casa Branca emitiu um comunicado condenando a prisão de Nemtsov e a Anistia Internacional disse nesta terça-feira que considera que ele e outros líderes da oposição são presos políticos.

"Mais uma vez, as autoridades russas fracassaram em suas obrigações de proteger os direitos à liberdade de manifestação, um direito garantido pela Constituição russa", disse Andrea Huber, diretor da Anistia para a Europa e Ásia Central, em um comunicado.

A proibição das manifestações representa um retrocesso para a Rússia, após o que parecia ser um avanço quando as autoridades concederam autorizações para protestos no outono. Mas depois de um tumulto de violência nacionalista em dezembro, o primeiro-ministro Vladimir Putin assinalou que a política de rua seria mais uma vez severamente restringida.

Persistência

Destemido, pelo menos por enquanto, os membros do grupo de oposição dizem que vão fazer protestos de solidariedade todos os dias até que seus líderes sejam libertados. Mas os grupos jovens pró-governo estão dificultando isso.

Logo após a ação de quarta-feira ter início, jovens homens e mulheres de grupos pró-governo podiam ser vistos seguindo ativistas da oposição, um a um ou cobrindo zonas da calçada para que eles nunca ficassem sozinhos. Depois que o jovem se aproximou de Kuznetsova, um comandante da polícia gritou: "É isso aí, prendam eles!".

Mas Kuznetsova fechou seu cartaz, dobrando-a ao meio, na hora certa. Ela não foi presa.

*Por Andrew E. Kramer

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