Na região pós-soviética, protestos adotam forma sutil

Na Bielo-Rússia, manifestantes usam silêncio e alarmes de celular para protestar contra o governo em praça pública

The New York Times |

Na hora marcada para o protesto contrários ao governo na noite de quarta-feira em Minsk, capital de Bielo-Rússia, dezenas de policiais à paisana estavam esperando na Praça Yakub Kolas. Seu trabalho era impedir que ele acontecesse.

Mas era difícil para eles saber quem, entre os skatistas, jovens profissionais urbanos e avós impassíveis, estava participando. Os bancos do parque estavam lotados, mas os ativistas - seguindo instruções publicadas em um site na internet - não estavam realmente fazendo nada. Às 20 horas, seus telefones tocaram.

Aquele foi o protesto. Policiais à paisana com câmeras meticulosamente filmaram o rosto de cada pessoa no parque e levaram alguns manifestantes, aos gritos, em um ônibus. Mas o sexto dos "protestos de palmas" havia eliminado as palmas, o que apresentou tanto à polícia quanto aos ativistas algumas perguntas difíceis.

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Policiais vestidos à paisana detêm fotógrafo durante protesto em Minsk, capital da Bielo-Rússia
Você realmente pode deter pessoas porque seus telefones estão tocando? E quando você não pode dizer quem está protestando, isso ainda é um protesto?

A política de rua perdeu a sua relevância em muitos ex-países soviéticos, conforme a oposição política esvaneceu. Mas formas inovadoras de protesto estão surgindo na região.

Nenhum deles conseguiu mobilizar um grande número de pessoas ou representar qualquer ameaça real às elites dominantes. No entanto, eles atraem os jovens, muitas vezes como alternativas às formas de protesto adotadas por seus pais, propostas através de redes sociais. E os participantes estão se mostrando muito difíceis de punir.

A Rússia tem os ativistas "baldes azuis", ativistas que se usam baldes de areia em seus carros (ou sobre suas cabeças), em um protesto contra os privilégios concedidos aos funcionários do governo no tráfego, cujos carros são equipados com luzes azuis. No Azerbaidjão, onde os manifestantes são dispersados tão rapidamente a ponto de impedir que um encontro ocorra, pequenos flash mobs têm aparecido do nada para realizar lutas de espada ou danças folclóricas.

A atmosfera política mais permissiva da Ucrânia gerou o Femen, um grupo de mulheres jovens que trata de questões como a reforma da pensão expondo seus seios em público. Uma mulher foi presa em abril por caminhar até um memorial da Segunda Guerra Mundial, em Kiev, capital da Ucrânia, e fritar ovos e salsichas na sua chama eterna.

Escolhas

Cientistas sociais referem-se a esses protestos como "dilema de ações", porque forçam as autoridades a escolher entre duas alternativas igualmente desagradáveis: recuar e permitir que tais atividades possam continuar, correndo o risco de que construam algo significativo, ou impor uma punição severa sobre aqueles engajados em uma atividade aparentemente benigna.

A última via pode resultar em uma reação pública, como quando o Azerbaidjão impôs penas de dois anos de prisão aos chamados bloggers burros, ou quando as autoridades russas processaram o coletivo Voina, um grupo de arte radical mais conhecido por pintar um pênis gigantesco em uma ponte de São Petersburgo, na Rússia.

A Bielo-Rússia optou pela linha dura. Cerca de 1.830 pessoas foram detidas pela polícia desde junho, quando um pequeno grupo de ativistas que vive no exílio iniciou os “protestos de palmas”, disse Tatyana Revyako, que trabalha para Vyasna, um grupo local de defesa dos direitos humanos. Mais de 500 pessoas receberam penas de cinco a 15 dias, ela contou.

A repressão gerou uma boa dose de absurdo. Quando o feriado do Dia da Independência, comemorado em 3 de julho, se aproximava, o chefe da polícia de Minsk, Igor Yevseyev, convocou uma entrevista coletiva e anunciou que os cidadãos não seriam punidos por soldados ou veteranos aplaudindo. Uma das pessoas condenadas por participar de um protesto de palmas naquele dia foi Konstantin Kaplin, 36, que argumentou no tribunal que, ao contrário do testemunho de um policial, ele não poderia ter aplaudido porque tem apenas um braço.

Outra foi Galina A. Goncharik, uma mulher pequena de 68 anos, que na semana passada compartilhou, com prazer óbvio, as descobertas de um juiz de Minsk depois de ser detida por bater palmas no dia 3 de julho. Goncharik, segundo a decisão, "expressou em voz alta palavrões rudes e sem censura, agitou as mãos, agiu de maneira provocativa, não reagiu a instruções claras, conscientemente violou a ordem pública, a paz civil, expressando clara falta de respeito pela sociedade".

Sua acusação, ela disse, chocou até mesmo parentes e vizinhos que são partidários do governo. "Todo mundo simplesmente riu" quando ouviu as acusações, disse Goncharik, que foi condenada em um julgamento de 10 minutos e pagou uma multa de cerca de US$ 175. "Eles disseram: 'Será que eles estão completamente loucos?'."

Prisões

Konstantin Shalkevich, porta-voz do Ministério do Interior da Bielo-Rússia, não soube informar quantas pessoas foram detidas na quarta-feira, dizendo que a lei local permite que a polícia prenda qualquer cidadão por três horas sem dar qualquer razão para isso. Do ponto de vista da polícia, ele disse, as táticas dos manifestantes são irrelevantes.

"Quer se trate de bater palmas ou do toque de telefones ou qualquer outra ação, trata-se tudo da mesma coisa", disse Shalkevich. "Qualquer atividade organizada em Minsk é uma atividade de desordem em massa. As pessoas que a organizam estão baseadas muito longe do território da Bielo-Rússia”. Ele acrescentou: "Nós temos o poder e os meios para garantir a ordem em Minsk, e nós vamos garanti-la”.

As prisões tiveram um efeito assustador. Por essa razão, os organizadores do protesto mudaram suas táticas, esta semana, instruindo os participantes a não bater palmas, mas sim fazer soar o alarme de seus telefones celulares às 20h.

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Manifestantes fazem protesto silencioso em praça de Minsk
A "ação despertador", como alguns a apelidaram, procurou minimizar as prisões, e, nesse sentido, funcionou. Mas, ao tocar às 20h os alarmes de celular eram quase inaudíveis por causa do ruído do tráfego de passagem, quando silenciaram - cerca de um minuto mais tarde - quase não se sentia que algo tivesse ocorrido.

Olga Tatarinova, uma jornalista de 23 anos de idade, ficou desapontada. Ela tinha ido para a praça preparada para arriscar-se e ser presa. Ela contou ter batido com os pés, mas ninguém ouviu.

"Todo mundo tem medo", disse um homem de 27 anos, que disse se chamar Maxim Pulsov. "Nós precisamos de algum treinamento para não ter medo”.

Crise

Na praça, as pessoas iam e viam, algumas a caminho do trabalho para casa. A Bielo-Rússia está em meio a uma crise financeira, em parte devido às políticas econômicas de estilo soviético implementadas pelo presidente Alexander G. Lukashenko. No poder desde 1994, Lukashenko tentou melhorar sua popularidade, aumentando salários e fornecendo empréstimos a juros baixos. Isso levou a uma forte desvalorização do rublo bielo-russo: as pessoas então começaram a estocar comida e fazer fila para converter seus bens em moeda forte.

Mas como o verão é uma época sonolenta, grande parte da população desaparece para passar alguns dias em casas na floresta. Os “protestos de palmas” não atraíram muito apoio do público em geral ou, criticamente, dos trabalhadores operários que compõem um eleitorado político crucial.

Isso, em parte, deve-se a organizadores jovens que não estão oferecendo soluções para os crescentes problemas sociais, disse Anatoly V. Lebedko, líder da oposição que passou quatro meses na prisão depois de participar de manifestações após a eleição presidencial de dezembro passado. "Esses jovens querem mais liberdade, mas isso não vai convencer as pessoas nas fábricas de tratores", disse Lebedko. "Nós temos de obter algumas respostas para a pergunta ‘O que deve ser feito?’."

*Por Ellen Barry

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