Na Líbia, rebeldes lutam para tentar formar frente unificada

Enquanto buscam ajuda do exterior para derrubar Kadafi, opositores tentam se unir e encontrar nome forte como alternativa

The New York Times |

Em menos de três semanas a incipiente oposição da Líbia, um dos países mais isolados do mundo, montou uma espécie de governo de transição, reuniu um Exército rebelde desorganizado e apresentou-se para o mundo como uma alternativa a quatro décadas de governo de Muamar Kadafi.

Mas os acontecimentos dessa semana têm testado a viabilidade de uma oposição que ainda tem de se unir, ao mesmo tempo que solicita ajuda do exterior para derrubar Kadafi.

Os rebeldes encontraram reveses militares em Zawiyah e Lanuf Ras na terça-feira, parte da contraofensiva reforçada do governo. Enquanto isso, os líderes do conselho da oposição contradizem uns aos outros publicamente. A oposição apela para a ajuda externa e tem ampliado as divisões a respeito de uma intervenção. E os líderes provisórios alertam que uma crise humanitária pode surgir conforme as necessidades da população sobrecarregam os governos locais.

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Rebeldes em casa bombardeada em Ras Lanuf, na Líbia
"Eu sou a Líbia", vangloriou-se Kadafi após o início da revolta. A afirmação é algo padrão para um dos líderes mais ultrajantes do mundo – de uma megalomania tão pronunciada que soa como paródia. A frase ressalta, no entanto, o maior obstáculo enfrentando pelos rebeldes no país – encontrar um substituto para Kadafi em um Estado que era encarnado por ele.

"Nós nos encontramos em um vácuo", Mustafa Gheriani, porta-voz da liderança provisória, disse na terça-feira em Benghazi, a capital rebelde. "Em vez de nos preocuparmos com a criação de um governo de transição, nos preocupamos com as necessidades: segurança, quais são as necessidades mais urgentes das pessoas e para onde a revolta está seguindo. As coisas estão indo rápido demais", disse. "Isso é tudo o que sobrou", disse ele, levantando seu celular. "Agora só podemos receber chamadas".

Capacidade

A questão da capacidade da oposição deve ser decisiva para o destino da rebelião, que parece superada pelas forças do governo e incomodada por divisões tribais que o governo, tem voltado a explorar. As forças rebeldes são acionadas mais por entusiasmo do que por experiência. A liderança política praticamente implorou à comunidade internacional para reconhecê-la, mas ainda tem de impor sua autoridade nas regiões que controla.

Os organizadores reconhecem o caos, mas argumentam que não há mais ninguém com quem conversar. "Precisamos de apoio, seja ele militar ou não, e pedimos ajuda", disse Abdel-Hafidh Ghoga, vice-líder da liderança provisória, em entrevista coletiva em Benghazi. "A comunidade internacional tem de assumir o seu dever neste momento".

Embora a situação continue agitada em partes do leste da Líbia, principalmente porque poucos acreditam que Kadafi pode reconquistar uma região há muito descontrolada, ela é mais sombria em Benghazi, um porto do Mediterrâneo e a segunda maior cidade da Líbia.

No tribunal, que serviu como sede do governo, a bagunça reinava na terça-feira conforme rajadas de vento batiam portas e quebravam uma janela. O teor nacionalista era escutado em conversas apressadas que aconteciam debaixo de posteres de Kadafi.

A segurança tem começado a se deteriorar, com tiros ecoando à distância, alguns assaltos e uma granada atirada em um hotel que serve de base para jornalistas estrangeiros. Na linha de frente, a três horas e meia de distância daqui, os rebeldes tentam se recuperar de uma ofensiva do governo que os forçou a deixar Bin Jawwad em direção a Lanuf Ras, uma cidade estratégica de refinaria. O governo também pareceu enfrentar reveses em Zawiyah, cidade tomada pelos rebeldes perto de Trípoli, e Misratah, uma cidade estratégica costeira.

Com a mudança no clima, os rebeldes enfrentam a perspectiva de serem derrotados por um Exército maior e mais bem armado naquilo que cada vez mais se parece com uma guerra civil. "Eles não entendem", disse Sami Tujan, um oficial tentando, sem sucesso, controlar os rebeldes perto de um posto de controle. "Eles são um grande alvo”.

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Opositores veem combatente morto ser levado para hospital, em Brega, na Líbia
Os rebeldes ganharam as batalhas iniciais com uma variedade de armas antigas, mas eficazes, e uma oferta aparentemente abundante de munição da Coreia do Norte e Rússia.

Na caçamba de caminhonetes Toyota, muitos dos soldados montaram uma metralhadora pesada da antiga União Soviética que chamam de 14,5 milímetros por conta do seu calibre. As armas são usadas juntas como defesa antiaérea e podem ter sido responsáveis pela derrubada de um avião do governo no início desta semana perto de Ras Lanuf. Homens segurando foguetes lançadores de granada completam o sistema de defesa aérea dos rebeldes.

Na linha de frente em Ras Lanuf, as forças da oposição dependem de métodos mais rudimentares de rastreamento para detectar aviões: um homem magro em cima de um caminhão com um par de binóculos, juntamente com centenas de orelhas de voluntários ansiosos. Mesmo assim, os aviões de fabricação soviética do governo têm agido com impunidade. As forças do governo também têm artilharia, tanques e helicópteros melhores que os rebeldes não conseguem igualar.

Na terça-feira, quando as forças do governo se reuniram perto de Ras Lanuf, rebeldes discutiam entre si, reclamando que não têm granadas o suficiente e que há um espião entre eles.

O reabastecimento da linha de frente provou ser um desafio para os rebeldes. Assim como a liderança. Pequenas unidades de homens que disseram pertencer a ramos especializados do Exército da Líbia se juntaram à luta, incluindo membros das unidades de forças especiais e paraquedistas. Alguns oficiais de alto escalão também são vistos no fronte, mas muitos dos rebeldes são banqueiros, policiais e desempregados que formaram brigadas inexperientes.

"Além de algumas unidades mecanizadas em Benghazi e Tobruk, e alguns batalhões blindados perto Al Bayda, as áreas controladas pelos rebeldes não têm qualquer equipamento substancial com o qual assumir o reduto pró-Kadafi em Trípoli", disse um relatório divulgado na terça-feira pelo Instituto Internacional para Estudos Estratégicos de Londres. "As regiões pró-Kadafi também estão bem guarnecidas com artilharia antiaérea e formações mecanizadas", acrescentou.

Após a queda de grande parte da autoridade do governo no leste da Líbia, os moradores criaram o que chamam de conselhos locais de números variados de representantes – três em Darnah, seis em Al Bayda. Teoricamente, cada um tem de enviar um representante para Benghazi, onde a oposição criou um grupo chamado Conselho Nacional de Transição da Líbia, uma espécie de Estado de espera. Composto por 30 representantes, ele é liderado por Mustafa Abdel-Jalil, um ex-ministro da Justiça e talvez a única figura que goza de apoio nacional.

Sua autoridade não é definitiva, algo reconhecido por todos os envolvidos. "Nós não temos qualquer autoridade, é claro, nós demos autoridade a nós mesmos", disse Iman Bugaighis, um porta-voz do conselho. "Ninguém tem qualquer experiência política".

O conselho apenas começou a abordar as grandes decisões que os rebeldes precisam tomar: se irão apoiar a intervenção estrangeira ou negociar com o governo. O conselho tem defendido uma zona aérea restrita que ainda está sendo debatida pelo Ocidente, mas os líderes rebeldes em Darnah avisaram que irão se opor a qualquer interferência estrangeira.

Em sua entrevista coletiva, Ghoga descartou qualquer negociação com o governo, apesar de Abdel-Jalil, teoricamente seu superior, ter dito a um canal árabe que se Kadafi deixar o cargo em 72 horas ninguém irá persegui-lo. "Como podemos falar de algo que não foi proposto?", Ghoga perguntou.

Transição

Líderes da oposição também divergem sobre se declarar formalmente um governo de transição, ressaltando receios de que possam com isso criar a base para a partição da Líbia. Dois de seus representantes se reuniram com oficiais europeus na terça-feira, mas o conselho ainda tem de se unir com outros grupos de oposição no exterior, afirmam os ativistas.

"Não há comunicação entre os grupos de oposição e nenhuma liderança para a oposição", disse Arqiq Adem, um membro da Irmandade Muçulmana exilado em Dublin. "Há grupos de oposição na Europa, nos Estados Unidos e em alguns países árabes, mas cada um trabalha para si mesmo. Houve esforços para unificá-los, mas eles falharam".

Há dias, comboios de ajuda de muitas organizações islâmicas têm se alinhado na fronteira egípcia ajudando a estancar a escassez, em uma apresentação notável de organização e solidariedade. Gheriani estimou que Benghazi tem abastecimento suficiente para seis meses e as Nações Unidas têm enviado mais ajuda.

Mas no interior, onde conselhos locais ainda estão lutando para reconstituir as burocracias derrubadas no mês passado, alguns temem que uma crise se aproxima. "Ninguém sabe quanto tempo os suprimentos irão durar, se uma semana ou duas", disse Ahmed Boughrara, coordenador e organizador em Bayda. "Então vai ser uma enorme crise".

Alguns já têm expressado uma preocupação mais urgente: a de que em uma luta prolongada, pode se tornar cada vez mais difícil manter a união que a oposição tem procurado congregar entre grupos religiosos e tribais.

"Quanto mais tempo o conflito durar, mais as pessoas vão se radicalizar", disse Ibrahim El-Gadi, um hidrogeólogo de Darnah, cujo filho foi ferido em uma luta com as forças do governo. "Isso não aconteceu ainda, mas acontecerá se este conflito não terminar”.

*Por Anthony Shadid e Kareem Fahim

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