Na Índia, sombras de um passado violento acompanham político em ascensão

AHMEDABAD - Narendra Modi, o político mais polêmico da Índia, está tentando se posicionar como a vanguarda do futuro industrial da Índia moderna. Contudo, os fantasmas do passado cruel dessa cidade estão se recusando a deixá-lo em paz.

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Modi é saudado em comício em Khatlall

Modi, 59, é o ministro-chefe eleito três vezes pelo Estado de Gujarat, no oeste do país. Na sua visão, essa cidade testemunhou um dos piores episódios de violência entre hindus e muçulmanos na história da Índia independente. Em 2002, quase durante três dias, 1.180 pessoas foram mortas em todo o Estado. A maioria era muçulmana. A administração de Modi foi acusada de tomar poucas medidas para parar o descontrole e, na ocasião, cooperar com ele.

Nesta segunda-feira, a Suprema Corte da Índia, em seu movimento mais forte até agora, pediu a uma equipe especial de polícia para investigar o papel de Modi na suspeita de conspiração para atacar muçulmanos.

Com as eleições nacionais em breve, Modi é quem mais atrai eleitores para o principal partido da oposição indiada, o Partido Bharatiya Janata (BJP, sigla em inglê). E enquanto a hierarquia do partido significa que ele não é o candidato do Bharatiya para primeiro ministro neste ano, ele está se posicionando para um cargo maior na próxima corrida eleitoral.

Ataques verbais

Durante a campanha, ele é cínico, muitas vezes não é educado e sempre tem um jeito teatral. Em um comício, ele comparou o Congresso Nacional Indiano no poder de partido mais velho do país, a uma mulher velha. Em outro, ele atacou o primeiro-ministro do Congresso, Manmohan Singh, dizendo que ele era tão fraco que deveria fazer uma checagem geral no médico; Singh recentemente se recuperou de uma cirurgia de ponte de safena.

Em um terceiro comício, apunhalando o ar com seu dedo, ele provocou Singh por se voltar para os Estados Unidos para pedir apoio, após os ataques terroristas em Mumbai, em novembro do ano passado. Episódio o qual a Índia diz que foi uma ação de um grupo militante paquistanês.

O-baaaa-maaa," choramingou ele, referindo-se ao presidente Barack Obama. O-baaa-maaa. Nosso vizinho veio e nos atacou. Faça algo!. A multidão se agitou, gritou, bateu palmas e o imitou O-baaa-maa."

Ascensão

O sucesso de Modi fornece uma porta para o delicado balanço das ações do BJP: ele tem que manter a base de apoio hindu mesmo que isso interfira no partido em relação a sua força de prosperidade e segurança. Sua ascensão também lembra um momento de retorno para a política indiana, na qual os eleitores pesam o que mais importa: questões de identidade, como fé e casta, ou questões práticas, como eletricidade, água e estradas. As pesquisas de opinião mostram que o Hinduísmo diminuiu seu apelo.

Com um perfil nacional claramente em mente, Modi tem procurado assiduamente se reinventar deixando de ser o mascote do nacionalismo Hindu para ser um administrador absoluto com estilo corporativo. Atualmente, seus pontos de diálogo são o crescimento econômico de Gujarat, portos marítimos privados e a eletricidade 24 horas por dia para Ahmedabad, uma próspera cidade do oeste, a qual Gandhi já chamou de casa.

Estratégias

Modi se veste em ternos de executivo para encontros de negócios, ao invés de túnicas. Ele ainda satiriza os urbanos, a elite que fala inglês nas também está melhorando suas habilidades no inglês. Sua maior vitória envolveu o Tata Nano, o carro mais barato do mundo. No ano passado, Modi convenceu a Tata Motors a realocar sua fábrica Nano para uma terra do governo não muito longe de Ahmedabad. A companhia tem lutado com protestos pela aquisição da terra em outro Estado.

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Garoto partidário do BJP usa máscara com rosto de Modi

Pouco tempo depois, alguns dos industrialistas mais proeminentes da Índia se juntaram em Gujarat para um encontro e declarou Modi, ex-gerente de uma loja de chá, se encaixaria no cargo de futuro primeiro-ministro.

Swapan Dasgupta, colunista que aconselha o BJP sobre estratégias, o descreveu como um modernizador agressivo da Índia.

O BJP promete crescimento, boa governança, desenvolvimento e segurança. Mas também se volta para os pilares ideológicos originais do partido, desde a promessa de construir um templo hindu no local de uma mesquita destruída que data do século 16, até a volta da lei de detenção preventiva que os muçulmanos disseram ser injustamente aplicadas a eles.

Raramente Modi faz apelos claros de fé. Ele não precisa. Modi aprendeu que temos que desenvolver para sermos reeleitos, deve-se ter uma imagem secular se você quer ser primeiro-ministro, disse Ajay  Umat, editor do jornal diário Gujarati-language (Idioma-Gujarat, em tradução livre), Divya Bhaskar, que conhece Modi há mais de 20 anos.

Modi também aprendeu, disse Umat, que seus partidários hindus não esquecerão facilmente de sua encarnação original como seus protetores.

Passado

Essa imagem ficou marcada em 2002, após um trem com Hindus ser incendiado por muçulmanos em uma cidade chamada Godhra, matando 59 pessoas a bordo e despertando ataques de uma multidão de hindus contra muçulmanos em todo o Estado. A multidão esfaqueou, estuprou e incendiou suas vítimas; eles queimaram casas e negócios. Modi nunca se desculpou pelo que houve (seu escritório não responde os inúmeros pedidos por uma entrevista ao The New York Times).

Seus admiradores dizem que ele seguiu em frente. Creditam ele por ter retirado a burocracia dos negócios, desenvolvendo as redes de estradas do Estado, e por ser linha dura com ilegalidades e corrupções pequenas. Quem não gosta dele o chama de autocrata (Sonia Gandhi, presidente do Congresso, chamou uma vez de comerciante da morte).

Se e quando Modi se tornar representante de seu partido, os eleitores indianos terão que decidir se conseguirão negligenciar o que é chamado de estigma de 2002 em favor do modernizador agressivo. Seus críticos esperam que não.

Esse homem não pode representar a Índia, seja como civilização, seja como nação, disse Shiv Visvanathan, professor de sociologia e um dos críticos de Modi. Ele não pode representar uma parte. E nunca poderá representa o todo. Essa é a sanidade da democracia indiana.

Investigação

Infelizmente, para Modi, tem sido difícil apagar o passado. Uma equipe de polícia indicada pela Suprema Corte começou a investigar vários casos de 2002, o que resultou em prisões recentes.

Maya Kodnani, ex-ministro do Desenvolvimento da Mulher e da Criança de Modi, foi preso sob acusações de ajudar ataques de multidões hindus próximo a um território muçulmano. Ela está esperando pelo julgamento das acusações de armar a multidão com latas de querosene, que foram usadas para incendiar pessoas. No total, o ajuntamento matou 106 pessoas em apenas um dia, incluindo sete membros da família do Sheik Abdul Majid Mohammed Usma.

O Sheik, 56, que veio à corte judicial na manhã da prisão, no fim de março, chamou isso do começo da justiça pelos mortos. Entre eles estava sua mulher grávida, três filhos e três filhas. Ele levou suas fotos em uma sacola plástica de compras. Ele disse ter se sentido um pouco satisfeito.


Por SOMINI SENGUPTA

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