Na Índia, oficial coloca webcam em gabinete como ferramenta anticorrupção

Em país assolado por escândalo de proprinas no mais alto escalão do governo, governador de Kerala busca nova posição online

The New York Times |

O Little Brother está vigiando você. Esta é a premissa que um oficial de alto escalão do governo local usou para instalar uma webcam em seu escritório como uma experiência anticorrupção. Tudo o que acontece em seu gabinete pode ser visto na câmera 24 horas por dia, sete dias por semana.

Em uma Índia assolada por escândalos de propinas no mais alto escalão do governo e onde pequenos subornos nas delegacias e departamentos de transporte são muitas vezes considerados algo normal, Oommen Chandy está tomando uma posição online.

"Em vez de tomar medidas contra a corrupção, eu acredito que temos de criar uma atmosfera onde tudo deve ser feito de forma transparente", disse Chandy, que recentemente tornou-se ministro-chefe do Estado de Kerala depois que sua coalizão ganhou uma eleição apertada. "O povo deve saber de tudo”.

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O ministro Oommen Chandy, do Estado indiano de Kerala, espera impulsionar movimento online
Cerca de 100 mil visitantes se registraram no site onde o vídeo começou a ser transmitido no dia 1º de julho. Na tarde de sexta-feira passada, a transmissão havia sido visitada por 293.586 usuários.

O ministro-chefe - equivalente a um governador - deu entrevista durante uma pausa nas negociações com os líderes de faculdades particulares do Estado a respeito das taxas que podem cobrar dos alunos. Embora o processo tenha sido transmitido no site de seu gabinete, como tudo capturado pela webcam não havia áudio. (O ministro diz querer que seus visitantes e assessores falem livremente quando o encontrarem.)

Sunil Abraham, diretor executivo do Centro para Internet e Sociedade, em Bangalore, disse ter aclamado a webcam de Chandy, mesmo que seu valor seja apenas simbólico. "Esse tipo de simbolismo também é bastante útil", disse Abraham, prevendo que poderia verificar o comportamento não somente do ministro-chefe, mas também de seus subordinados e executivos poderosos e políticos que o visitam.

Claro, ele observou, que se as pessoas têm a intenção de pagar propinas elas ainda podem fazê-lo fora do escritório.

Abraham disse que as webcams podem ser uma ferramenta muito mais poderosa se forem instaladas nas delegacias de polícia, escritórios de emissão de carteiras de motoristas, agências de assistência social e outros locais onde os indianos interagem com oficiais que, por vezes, exigem propina para fazer seu trabalho. Poucas agências em todo o país começaram tal vigilância, ele disse, mas a maioria não tem.

O esforço de Chandy acontece no momento em que a Índia é atormentada por um escândalo de corrupção atrás do outro. Um ex-ministro de telecomunicações está na prisão sob acusações de ter concedido licenças de telefonia celular para empresas favorecidas, custando ao governo até US$ 40 bilhões. Vários executivos de empresas, um oficial envolvido no planejamento dos Jogos do Commonwealth e descendente de uma família política também estão atrás das grades acusados de corrupção.

Mas a transparência é tediosa. Na maioria do dia, acompanhado pelas câmeras de vídeo, Chandy está fora do escritório ou sentado com assessores e outros políticos. Uma segunda câmera posicionada na sala externa mostra assessores em suas mesas atendendo telefones ou olhando para suas telas de computador.

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Um político de carreira e membro do Partido do Congresso, Chandy, 67 anos, manteve uma webcam em seu escritório quando foi ministro-chefe por dois anos entre 2004 e 2006. Mas seu sucessor, o líder de um governo de coalizão comunista, removeu os dispositivos quando assumiu o cargo. Agora na oposição, os comunistas criticam a webcam como um golpe publicitário.

Mas outros veem virtude em tais esforços, mesmo que os detalhes ainda não tenham sido refinados. Em Bangalore, o principal executivo de uma companhia de eletricidade estatal resolveu adotar uma webcam em seu escritório. P. Manivannan disse que também instalará uma câmera "hemisférica", que captura o movimento em seu escritório inteiro, em vez de apenas mostrar seus visitantes.

Ele disse, no entanto, que deixaria de transmitir o vídeo no site da Bangalore Elecricity Supply Co. "Eu tenho recebido muitas reclamações por causa das câmeras", disse Manivannan em entrevista por telefone. "Meus colegas me dizem: 'O que você está tentando provar, que você é o único honesto?'."

Uma vez que a nova câmera for instalada, Manivannan disse que irá gravar tudo. Mas qualquer pessoa interessada em ver segmentos do vídeo teriam de pedir os clipes, sem nenhum custo. Isso deve aliviar a tensão no escritório, disse ele, enquanto mantém a vigilância.

Ele disse que teve sucesso com uma câmara semelhante no passado. Foi quando estava no governo da cidade e alguns políticos ameaçaram convocar uma greve, a menos que ele restabelecesse um empregado demitido. Os políticos recuaram, disse Manivannan, quando ele ameaçou entregar uma gravação de sua reunião às estações de TV locais.

"Eu definitivamente acredito que colocar uma câmera ajuda você a provar que você é responsável", disse. "Eu ficaria muito feliz se o governo da Índia decidisse que todos devem ter uma câmera”.

*Por Vikas Bajaj

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