Na escuridão da noite, sírios atravessam rio em busca de segurança

Com medo de execuções ou prisões em hospitais, sírios enfrentam 160 km de travessia noturna até a Turquia

The New York Times |

Os sírios saíram da névoa que encobria o Rio Orontes carregando com esforço duas macas em direção a uma ambulância turca.

Eles carregavam dois irmãos enrolados em cobertores marrons em meio à noite gelada. Os dois foram feridos por um tanque que disparou contra eles perto do centro da cidade síria de Hama. Um deles havia perdido as duas pernas abaixo do joelho, e seu irmão tinha estilhaços na cabeça.

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A sua família tinha medo de que caso fossem levados para um hospital na Síria eles poderiam ser presos, disse um de seus acompanhantes. Então, seus parentes e desconhecidos os levaram por uma balsa por cerca de 160 km, atravessando uma paisagem castigada pela guerra, até que suas energias foram diminuindo e seus olhos, antes cheios de lágrimas, secaram.

Toda noite, do outro lado do rio e ao longo da fronteira, são revelados novos segredos da violência que tem assolado a Síria. Barcos de madeira em condições precárias transportam um grande número de pessoas, algumas delas feridas, até a segurança da Turquia, passando por cidades e vilarejos devastados pelo conflito.

A medida que o ritmo dos ataques do governo tem aumentado nos últimos dias, também aumenta o tráfego no rio.

Refugiados

O número de exilados continua crescendo, lotando os campos de refugiados e cidades na fronteira com suas histórias terríveis do que vem acontecendo em seu país. Um oficial turco afirmou que cerca de 1,5 mil sírios cruzaram a fronteira no mês passado, aumentando o número de refugiados nos acampamentos da região para 11 mil, um pouco abaixo do número registrado em junho, depois de combates entre desertores e o Exército sírio.

Estima-se que um grande número de pessoas também tenha entrado na região sem se registrar com as autoridades.

A ambulância levou os irmãos feridos ao hospital. "Situações assim acontecem todos os dias", disse um dos acompanhantes, um ativista de 23 anos de idade chamado Arref, que vive em uma cidade vizinha, na Síria. "Ontem eu trouxe um homem. Ele havia perdido as mãos e os olhos."

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Arref disse que formou um grupo com cinco amigos cujos deveres envolvem guiar os refugiados através da fronteira durante a noite. Depois de trazer os irmãos para a ambulância, eles se reuniram, vestindo apenas jaquetas finas e fumando cigarros, em um momento de reflexão após uma viagem perigosa.

"Eu costumava levar minha noiva para passear naqueles barcos", disse Arref enquanto olhava para trás em direção à água. "Agora eu levo os feridos."

Ele comentou sobre a vida na Síria: "Dia após dia a situação está ficando pior. Eles cortaram a eletricidade. Cortaram a água. Por sorte ainda não conseguem cortar o oxigênio."

Há algumas semanas atrás, em hospitais na Síria, os soldados do governo contaram as suas próprias histórias a respeito da violência, de ataques e emboscadas feitas nas estradas por homens armados. Os médicos locais disseram que admitem dezenas de soldados feridos por opositores armados do governo diariamente.

Então, o presidente sírio, Bashar al-Assad, enviou suas tropas em uma nova ofensiva, mais uma vez banindo jornalistas de entrar na Síria à medida que tanques e artilharias blindadas cercavam cidades por todo o país. Os moradores mais sortudos tinham parentes em outros lugares do país ou dinheiro para fugir. Muitos simplesmente se dirigiram para as fronteiras.

Aqueles que querem cruzar para a Turquia têm sido forçados a atravessar cada vez mais longe ao norte, já que soldados sírios ocupam as aldeias próximas ao sul da fronteira. Contrabandistas e ativistas disseram ter visto militares plantando minas terrestres na região.
Alguns dos feridos serão transferidos para os acampamentos de refugiados na região, que viraram incubadoras para o desespero. "Nós nunca esperávamos que isso iria acontecer com a gente", disse um homem chamado Luay, de Jisr al-Shoughour, que estava sentado diante de uma barraca em um dos acampamentos. "Dois dos filhos da minha irmã foram mortos. As linhas telefônicas foram cortadas."

Em uma casa mal equipada não muito longe do acampamento, um empresário sírio enumerou todas as coisas que havia comprado por conta própria e enviado para casa: telefones via satélite para restabelecer a comunicação que foi interrompida pelas linhas de telefone cortadas e medicamentos para tratar as vítimas da guerra.

Tudo, aparentemente, exceto as armas que disse acreditar necessárias para ajudar a derrotar as forças do governo.

Armas

Muitas pessoas no acampamento falam a respeito das armas como uma solução para os problemas da Síria. Poucos levantam a possibilidade de que elas possam piorar ainda mais a situação.

"Não é uma questão de dinheiro", disse ele, mexendo na única arma que foi capaz de encontrar, uma pistola que ele usa para sua própria proteção. "Nós recebemos dinheiro de pessoas dispostas a nos ajudar."

Ele estava à procura de câmeras de vídeo na internet, na esperança de que ajudem a espalhar a verdade sobre esta tragédia oculta. "Ninguém consegue acreditar no que está acontecendo na Síria", disse.

*Por Kareem Fahim

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