Na Eritreia, jovens sonham em partir

Programa nacional que exige que população trabalhe para o governo causa fuga de milhares todos os anos, segundo a ONU

The New York Times |

Muito antes de aprender a enterrar em uma velha tabela de madeira, Awet Eyob nutria um sonho: jogar basquete nos Estados Unidos.

Ele tem 2m07 e é forte como uma árvore, além de ter aprendido a driblar por trás das costas com maestria e a acompanhar os adversários com o canto do olho.

Mas um grande problema estava em seu caminho: sua terra natal, a Eritreia, uma nação isolada no Chifre da África, que se recusa a deixar os jovens partirem.

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Awet Eyob Woldeselassie treina basquete em Amã, na Jordânia

A Eritreia, que lutou para conquistar a independência há quase 20 anos, é governada por ex-guerrilheiros radicais que se mantêm firme à sua política revolucionária marxista e exigem que todos os jovens trabalhem para o governo, às vezes até os seus 40 anos de idade. Qualquer um que tente evitar este programa nacional, de acordo com grupos de direitos humanos, é sujeito a torturas cruelmente inventivas.

Assim, em janeiro deste ano, em segredo, Awet reuniu quatro pares de cuecas, dois pares de meias, seu histórico escolar, seus tênis Air Jordan e algum dinheiro para pagar uma gangue de traficantes de seres humanos (ou chacais, como os chama).

"Eu me lembro da primeira ligação", ele disse. "O coiote disse: 'Olá, aqui é o Sol'. E eu respondi: 'Aqui é o Trovão'".

Awet, 20, é a personificação da geração perdida da Eritreia. Este pequeno país está gerando mais refugiados per capita do que qualquer outra parte do mundo, de acordo com estatísticas da ONU, e a maioria deles é jovem, muitas vezes os mais promissores daquele país.

O Alto Comissariado da ONU para Refugiados diz que centenas de milhares de pessoas fugiram da Eritreia nos últimos anos - a população total é inferior a 5 milhões - e quase todos os dias, 100 eritreus arriscam suas vidas para cruzar a fronteira para o Sudão, que é dificilmente uma Shangri-La.

Em dezembro, toda a seleção de futebol da Eritreia fugiu para o Quênia durante um torneio. Em 2004, alguns refugiados eritreus enviados para a Líbia estavam tão desesperados para não voltar que sequestraram o avião.

Mas muitos nunca conseguem partir. Um dos amigos de Awet recentemente ganhou uma bolsa de estudos de quatro anos no valor de US$ 200 mil em uma prestigiosa universidade americana. "Ele deveria ter sido enviado com uma guirlanda de flores", disse o pai do menino, com lágrimas nos olhos.

Ao invés disso, o jovem foi preso por tentar deixar o país a tempo de se inscrever para as aulas. Ele foi convocado para o serviço militar e alocado perto da fronteira sul da Eritreia, um dos lugares mais quentes da Terra.

Awet teve sorte. Vestindo um gallebeyah extra grande (um vestido longo e esvoaçante comum no mundo muçulmano), ele se esgueirou pelo Sudão e, em seguida, para o Quênia e Dubai. Ele está agora acampado no porão da casa de uma família americana em Amã, na Jordânia, fazendo flexões, trabalhando em seu arremesso, jogando Wii com as crianças da família e tentando entrar em uma faculdade ou escola preparatória americana.

A grande razão pela qual ele chegou tão longe é Matthew Smith, um atlético diplomata americano que ficou amigo de Awet alguns anos atrás, em uma quadra de basquete em Asmara, capital da Eritreia, onde Smith trabalhava. Smith ficou impressionado com o jogo do jovem, mas mais do que isso, comovido com ambição ardente de Awet em deixar aquele mundo tão fechado.

"Ele queria mais e eu conseguia entender aquilo", disse Smith, cujo pai era motorista de táxi no Brooklyn. "Quem pensaria que o filho de um motorista e uma babá poderia ser um diplomata?"

Smith colocou Awet em contato com um treinador de basquete americano em Amã, que agora está preparando o jovem.

"Suas habilidades eram melhores do que eu esperava", disse o treinador, Robert Taylor, que estava sentado ao lado Awet sobre uma pilha de esteiras de exercício em um ginásio local. "Sem querer ofender, Awet, mas a Eritreia não é exatamente conhecida pelo seu basquete".

Se a Eritreia é particularmente conhecida por alguma coisa atualmente, é por ser um país causador de problemas em uma região muito volátil. O país foi acusado de invadir o Djibuti, em 2008, e de alimentar o caos na Somália armando grupos insurgentes, o que levou a sanções do Conselho de Segurança da ONU.

Mas a Eritreia tem uma história orgulhosa, tendo lutado uma guerra de guerrilha por mais de 30 anos para se separar da Etiópia.

O nome de Awet significa vitória. Ele nasceu em casa, à luz de velas, em fevereiro de 1990, às vésperas da independência, logo depois de uma batalha lendária.

Ele sempre foi grande. Awet foi selecionado para jogar no time de basquete nacional quando tinha 15 anos e ganhou o apelido de King A. Pelos padrões da Eritreia, ele tinha uma vida invejável, com um pai mercador, boas notas, um pouco de fama e vários pares de Nikes de US$ 100.

Mas Dan Franch, seu professor de literatura do ensino médio, percebia que Awet não era feliz.

"Eu sabia que ele queria partir e eu não o culpo", disse Franch. "Este lugar está ficando inerte. Você incentiva os estudantes a tentarem universidades no exterior, mas suas chances de ir são pequenas".

Na superfície, a vida dos jovens eritreus não parece tão ruim. Asmara é repleta de cafés Art Deco, onde jovens bebem cappuccinos e comem pizza. Mas muitos jovens se queixam (baixinho) de serem acorrentados a empregos do governo que não oferecem perspectivas futuras.

Por lei, o serviço nacional obrigatório deve durar 18 meses. Na realidade, muitas vezes é por tempo indeterminado, e poucos podem obter licenças para sair do país até que tenham cumprido esse dever. O governo justifica esta medida como resultante de uma disputa de fronteira altamente militarizada ainda não resolvida com o país vizinho, a Etiópia, cerca de 20 vezes o seu tamanho.

Awet diz que ele provavelmente não irá ver seus pais durante anos, porque agora que escapou seria perigoso voltar para casa.

À noite, quando não consegue dormir, ele pega um pequeno livro de orações que sua mãe lhe deu - a capa é, literalmente, do tamanho de um selo postal - e pensa nela. Ou deita sobre a cama de solteiro com os pés balançando para fora, ouvindo músicas em seu tocador de MP3 e alimentando o seu sonho.

"Eu costumava sonhar com o dinheiro, os carros e as meninas", ele canta. "Mas agora vejo melhor, porque eu estou sentado no topo do mundo".

Por Jeffrey Gettleman

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