Na Coreia do Sul, cidadãos-paparazzi denunciam infratores

Sul-coreanos atuam como caçadores de recompensas, filmando cidadãos que cometem infrações e denunciando-os ao governo

The New York Times |

Com dívidas cada vez maiores e um salário que mal dá para cobrir os juros, Im Hyun-seok decidiu que precisava de um novo emprego. Esse bem-educado ex-professor de inglês entrou para as crescentes multidões de caçadores de recompensas da Coreia do Sul, com câmera digital em punho.

Conhecidos aqui sarcasticamente como paparazzi, pessoas como Im perseguem suas presas e as capturam em fotografias. Mas não se trata de celebridades, políticos ou criminosos. Ao contrário, eles vagam por cidades filmando secretamente concidadãos infringindo a lei, entregam as provas a autoridades do governo e ganham por isso.

"Algumas pessoas nos odeiam", disse Im. "Mas estamos apenas fazendo o que a lei incentiva."

NYT
Moon Seong-Ok ensina estudante a usar câmera escondida em Seul, na Coreia do Sul

As oportunidades estão por toda parte: uma fábrica que despeja resíduos industriais em um rio, o dono de um edifício que mantém a saída de emergência trancada, médicos e advogados que não fornecem recibos de pagamento para que eles possam deixar de relatar seus rendimentos tributáveis.

O alvo preferido de Im são pessoas que queimam lixo em canteiros de obras, uma violação das leis ambientais do país.

"Estou ganhando três vezes o que ganhava como professor de inglês", disse Im, 39, que começou sua nova carreira sete anos atrás e diz ganhar cerca de US$ 85 mil por ano.

Os mercenários têm história na Coreia do Sul. Durante décadas o governo ofereceu recompensas generosas para pessoas que se transformaram em espiões norte-coreanos. Mas nos últimos anos várias agências do governo criaram programas semelhantes para qualquer um relatar pequenos crimes, alguns tão pequenos como um motorista jogando uma ponta de cigarro pela janela.

Dedurar para receber um pagamento se tornou especialmente popular desde que os problemas econômicos do mundo desaceleraram a poderosa economia da Coreia do Sul.

Entre os paparazzi sul-coreanos estão pessoas que perderam seus empregos durante a recessão e foram atraídas por relatos de colegas que ganham milhares de dólares por ano com os crimes alheios.

Não há dados confiáveis sobre quantas pessoas assumiram o trabalho desde que os governos passaram a oferecer recompensas, mas o fenômeno é grande o suficiente para resultar em uma nova indústria: escolas criadas para treinar aspirantes a paparazzi.

A terceirização da aplicação da lei também tem sido uma espécie de bênção para os governos locais. Não só eles conseguem economizar dinheiro na contratação de funcionários, mas as multas impostas aos infratores em geral superam os benefícios pagos aos informantes. A recompensa pela denúncia de depósito ilegal de lixo é de cerca de US$ 40. A multa é de cerca de US$ 400.

Para a maioria das infrações, as recompensas podem variar de menos de US$ 5 (a denúncia de uma bituca de cigarro jogada no chão) para até US$ 850 (a denúncia de um vendedor de gado sem licença). Mas há possibilidades inesperadas. O governo da cidade de Seul, por exemplo, promete até US$ 1,7 milhão para denúncias de corrupção envolvendo seus próprios membros.

Em um país onde a denúncia corporativa é algo praticamente inédito – tais ações são vistas como uma traição da empresa – denunciar um vizinho também pode carregar um forte estigma social. Im não contou a seus pais o que faz para viver. Mas como muitos outros na sua linha de trabalho, ele diz que teve pouca escolha quando começou a acompanhar pequenos delitos.

Bang Jae-won, 56, um veterano de oito anos do comércio, disse se sentir orgulhoso das vezes em que pegou pessoas despejando lixo em um camping ou de quando expôs fraudes de empresas marketing.

"Lamento o começo, quando em dias desesperados denunciei os delitos de pessoas tão pobres como eu", disse Bang, que adotou esse trabalho depois de ser informado por potenciais empregadores de que estava velho demais para o mercado.

"Não digo aos meus vizinhos o que eu faço, porque isso pode levantar suspeitas desnecessárias", disse ele. "Mas, em geral, não me envergonho do meu trabalho. Para aqueles que nos chamam de dedo-duro, digo: 'Por que você não obedece a lei?'"

Os críticos, no entanto, dizem que o programa de recompensa tem minado a confiança social. "A ideia em si é boa, mas quando as pessoas fazem um trabalho como este em tempo integral, ele efetivamente privatiza a aplicação da lei e provoca questões éticas", disse Lee Yoon-ho, professor de administração na Universidade Dongguk, em Seul.

Os paparazzi costumam desenvolver uma especialidade, como ir atrás dos hakwon, ou cursinhos particulares que cobram mais do que os preços estabelecidos pelo governo. O Ministério da Educação pagou US $ 2,9 milhões para os paparazzi desde 2009, quando começou a depender de caçadores de recompensa para ajudar a domar o crescente custo do ensino privado – uma carga excessiva para os cidadãos em um país focado no sucesso educativo.

Chamadas de hak-parazzi, essas pessoas se disfarçam como pais e se aproximam dos gestores dos hakwon para perguntar sobre os preços. Eles gravam secretamente suas conversas com câmeras de vídeo ocultas.

Os proprietários dos hakwon odeiam essas pessoas.

"O governo estabelece unilateralmente preços irreais e depois solta paparazzi em uma caça às bruxas", reclamou Cho Young-hwan, vice-presidente da Coalizão Coreana de Hakwon. "Isso é profundamente humilhante e vai contra a educação".

Ju Myong-hyun, o funcionário do Ministério da Educação responsável pelo programa, disse: "Nós não afirmamos que esta é a abordagem perfeita em uma democracia. Mas vamos mantê-la até que os hakwon sejam mais corretos."

Ex-professor de inglês, Im diz que muitos não ganham o suficiente como paparazzi. "As pessoas têm uma noção equivocada de que para ser bem sucedido o paparazzi deve se vestir e agir como um espião e usar equipamentos de alta tecnologia", disse ele, que tem um blog popular assinado com seu pseudônimo paparazzi, Song Mung-suk. "Mas o que mais importa é trabalhar e pensar bastante."

Ele deu um exemplo de sua própria ética de trabalho. Em 2005, quando percebeu que praticamente todas as máquinas de café em lan houses não tinham etiquetas de inspeção sanitária, ele teve uma ideia. Ligou para centenas de lan houses dizendo aos proprietários: "Deixei minha carteira perto da sua máquina de café", para descobrir quais tinham tal máquina. Ele compilou uma lista, relatou todos os estabelecimentos e conseguiu 3 milhões de won (cerca de US$ 2,6 mil): 5 mil won para cada uma das 600 máquinas.

Mas pode haver abusos. Os paparazzi revelam que alguns de seus colegas fazem acordos com grandes corporações infratoras que temem punições do governo e má publicidade.

Im disse que algumas pessoas têm jogado com o sistema, usando-o contra os seus concorrentes. Foi o caso do farmacêutico que pediu que ele relatasse uma farmácia ao lado da sua pela contratação de um farmacêutico não licenciado. Ele o fez.

"Certa vez alguém me pediu para relatar um restaurante ilegal dentro de um parque nacional", disse Im. "Acontece que o próprio cara tinha um restaurante ilegal do lado desse que queria denunciar no parque."

Como qualquer bom espião, Im ignorou a pergunta óbvia: ele denunciou ambos os infratores ou apenas um?

Por Choe Sang Hun

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