Na Cidade do México, beijos refletem mentalidade liberal

Acostumados à sociedade tradicionalmente conservadora, mexicanos aproveitam abertura e demonstrações de afeto mais efusivas

The New York Times |

Armando Ruiz e Veronica Villafuerte se beijavam, acariciando um ao outro, em um banco no meio de uma avenida movimentada da capital mexicana. Perto dali, depois de outro casal que se beijava profundamente sentado na grama, um homem brincava com os botões de sua blusa.

Crianças brincavam ao redor. Carros passavam. Ninguém se importava. "Agora a cidade é um pouco mais aberta", disse Ruiz. "Nós podemos nos curtir”.

Em Havana ou do Rio de Janeiro, isso pode parecer pouca coisa. Mas a Cidade do México sempre foi uma cidade de formalidades e camisas de mangas compridas, longe das saias justas. Um rosto corado é geralmente a resposta à sexualidade ostensiva, juntamente com palavras de duplo sentido que mascaram os desejos com termos banais como "coger" (que oficialmente significa agarrar e é o termo usado para designar o ato sexual).

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David Vasquez e Lorena Albiter se abraçam em frente ao Palácio de Belas Artes, na Cidade do México
E ainda assim, apesar de tal reserva – ou talvez por causa dela – as demonstrações de afeto em público têm se tornado um símbolo do que os especialistas descrevem como uma cidade que está aprendendo a se desprender. As autoridades locais agora se gabam de ter algumas das leis mais liberais da América Latina em relação ao aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Enquanto isso, sex shops podem ser encontradas até mesmo nos bairros mais chiques e tradicionais. Neste mês também, a Cidade do México foi palco para uma feira sobre sexo que durou cinco dias e atraiu 120 mil fãs – colocando-a entre as maiores feiras de sexo do mundo.

"O que está acontecendo é que tudo isso está se tornando mais oficial", disse Luis Perelman, presidente da Federação Mexicana para Educação Sexual e Sexologia. "Nós estamos vendo menos contradições”.

Mas se há menos constrangimento e vergonha, como Perelman e outros argumentam, por que agora? Isso parece depender de como o México se vê: o romântico ou o lúgubre.

Fatores

Os demógrafos – otimistas neste caso – veem ligações entre os casais e a economia. Vários estudos têm mostrado que, em comparação com uma geração atrás, os mexicanos estão tendo mais relações sexuais mais jovens, uma tendência que, geralmente, acompanha a expansão econômica do México. Sexo e afeto, alguns demógrafos mexicanos argumentam, tendem a ser sinais de confiança, expressões de fé que aguardam oportunidades.

Salários e cultura também são relevantes. O crescimento do México criou uma classe média maior que, além de abrir o processo político do país, tornou a tecnologia e a mídia internacional mais acessíveis. As referências a "Jersey Shore", por exemplo, agora são tão perceptíveis na Cidade do México quanto em Miami, e pornografia pode ser baixada em parques públicos com o acesso a wi-fi gratuito.

Os chamados hotéis do amor, onde os casais da Cidade do México têm se encontrado por décadas, já não conseguem manter a sexualidade escondida. "Eles veem tudo na TV ou na Internet, então já não sentem que são os únicos a fazê-lo", disse Perelman.

E, como Ruiz explica, "nós já não nos importamos tanto com o que as outras pessoas pensam".

Esse claramente parecia ser o caso para um adolescente em um shopping recentemente, que tinha os lábios ardentemente colados no joelho de sua namorada. Ou para o homem em uma esquina movimentada uma hora depois, que beijava uma mulher apaixonadamente com a perna em torno dela como uma trepadeira.

Mas Ruiz e Villafuerte, ambos de 40 anos, são mais típicos. Eles se conheceram há três meses vendendo chapéus em uma praça ao ar livre - em um ano em que a economia mexicana cresceu 4%, após ter crescido 5,5% no ano anterior - eles disseram que resolveram tirar uma tarde de folga para passar o tempo, simplesmente porque podiam se dar ao luxo.

Nenhum dos dois era particularmente sensual. Ruiz usava óculos redondos em uma cabeça careca brilhante. O delineador azul de Villafuerte era seu único indício de provocação. Mas ambos disseram que a sua afeição refletiu uma mudança positiva. “Quando éramos jovens, as pessoas iriam apontar e ficar de boca aberta com esse tipo de coisa", disse Ruiz. "Agora, há mais aceitação".

Orgulho pode ser um termo melhor. Dois anos atrás, a Cidade do México bateu o recorde mundial de beijos simultâneos quando 39.897 pessoas trocaram saliva no centro da capital. Outros casais, contudo, descreveram a demonstração de afeição em público em termos mais ameaçadores. O México nos dias de hoje é essencialmente como a história de O Médico e o Monstro: o crescimento econômico positivo é combinado com uma extensa guerra contra os cartéis de drogas que já custou 34 mil vidas desde 2006.

Confiança

Para pessoas como Paulina Pereira, 26 anos, que estava sentada no colo do namorado durante uma pausa na patinação in-line no chique bairro de Polanco, a demonstração de afeto em público não reflete um aumento na felicidade, mas sim um déficit na confiança.

Os mexicanos, segundo ela, sempre traçaram uma linha entre as relações formais e as relações com aqueles do seu "círculo de sua confiança". Abraços, beijos e calor humano são possíveis no último tipo de relação, enquanto apertos de mão e uma distância educada dominam o primeiro.

Isso é o que geralmente faz com que os casais mexicanos mais amorosos se destaquem. "Demonstrações públicas de carinho chamam a atenção precisamente por causa do desencontro com a cultura local mais comum", disse Ruben Gallo, que editou crônicas no livro The Mexico City Reader.

Mas a distância entre as esferas social parece estar aumentando. Embora a violência relacionada ao narcotráfico tenha feito com que os mexicanos tenham mais medo de estranhos, ela tem intensificado seus laços mais íntimos, disse Perez. Então, o carinho que para alguns parece uma abertura – um relato mais honesto da sexualidade – pode para outros ser um reflexo de introspecção, de luta contra o desespero.

"A afeição é uma maneira de esquecer", disse Perez. "Você se esquece de seus problemas e vive". O namorado dela, dando um tapa no seu bumbum, disse concordar.

*Por Damien Cave

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