Na China, tecnologia dá força a movimento trabalhista

Funcionários de empresas usam celulares e internet para divulgar manifestações e informações sobre greves

The New York Times |

Essa é a revolta trabalhista através de mensagem de texto e publicação de vídeos. Os 1.700 trabalhadores que entraram em greve na fábrica de auto-peças Honda Lock são na maioria imigrantes pobres, com educação que vai pouco além do ensino fundamental. Mas eles são usuários surpreendentemente avançados de tecnologias modernas.

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Grevistas usam celulares para fotografar manifestação em Zhongshan, na China (10/06)

Horas depois do início de uma greve que começou na semana passada, eles começaram a publicar relatos detalhados sobre a paralisação online, espalhando a notícia não apenas entre si, mas para trabalhadores inquietos e em greve no resto da China.

Eles enviaram mensagens de texto de celular que instavam seus colegas a resistir à pressão dos chefes da fábrica. Eles acessaram um site controlado pelo Estado - o workercn.cn - que está emergindo como um hub digital do movimento operário chinês. E armados com computadores, eles publicaram vídeos que mostravam guardas de segurança da Honda Lock agredindo funcionários.

Os trabalhadores descontentes desta cidade do sul da China aprenderam com grupos de grevistas anteriores de outras fábricas da Honda, que em maio criaram fóruns na internet e publicaram comentários em quadros de avisos online sobre a sua própria batalha com a montadora japonesa a respeito de salários e condições de trabalho .

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Ex-funcionário da Honda olha imagens de manifestações postadas na internet
Mas eles também fizeram proveito de uma rede de comunicação mais ampla que permite que a classe operária de toda a China compartilhe queixas e estratégias. Alguns líderes da greve agora dizem que gastam a maior parte de seu tempo na internet procurando material sobre as leis trabalhistas da China.

Empunhando telefones celulares e teclados, os membros do emergente movimento trabalhista da China parecem estar burlando a censura oficial até agora, na tentativa de conseguir um amplo apoio para o que dizem ser uma guerra contra as corporações gananciosas e seus aliados no governo local.

E isso não teria sido possível se o governo chinês não tivesse feito um esforço concentrado na última década para diminuir a desigualdade digital no país, reduzindo o custo da telefonia móvel e serviços de internet - uma campanha de modernização que deu à China a maior população mundial na rede de computadores (400 milhões) e permitiu que até os mais pobres se conectem à internet e publiquem suas queixas trabalhistas.

A questão agora, de fato, é saber se e quando o governo poderia tentar anular as reações atuais dos trabalhadores caso se tornem uma ameaça grande demais para a ordem social estabelecida. O governo já começou a reprimir websites sobre a greve e a apagar muitos dos posts sobre as greves em blogs locais.

O serviço de mensagens instantâneas QQ, que é acessível através da internet ou celular - e que talvez tenha sido o método de comunicação favorito de líderes da greve devido à sua popularidade entre os jovens - foi logo infiltrado por funcionários da Honda Lock e agentes de segurança do governo, obrigando alguns grevistas a usarem sites alternativos, dizem os líderes da greve.

Por David Barboza e Keith Bradsher

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