Na China, excluídos políticos recorrem a campanhas em microblogs

Em eleições feitas para favorecer Partido Comunista, aumenta o número dos candidatos que constroem seu apoio online

The New York Times |

Para alguns candidatos que buscam conquistar assentos parlamentares nas eleições locais chinesas este ano, a fórmula vencedora é a própria antítese do que funciona nos EUA. Aqui, eles mantêm suas cabeças baixas e não esclarecem suas plataformas de governo. Além disso, quando fazem campanha, sua politicagem é extremamente discreta.

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Yao Bo, comentarista que quer assento legislativo em distrito de Pequim, é visto em seu escritório da capital da China em 19/10/2011
"A última coisa que quero fazer é reunir as pessoas", disse Yao Bo, um conhecido comentarista social disputando uma cadeira legislativa no distrito de Pequim.

Isso acontece porque Yao concorre como independente em uma eleição que é ostensivamente aberta a todos, mas na verdade favorece candidatos escolhidos a dedo pelo Partido Comunista. Para ter alguma esperança de vencer o sistema, argumentam alguns candidatos, quem é de fora precisa ser tão famoso que não possa ser impedido de concorrer sem um protesto ou tão anônimo que as autoridades sejam pegas desprevenidas.

Nos últimos anos, nenhuma estratégia tem funcionado. Mas, em uma reviravolta, a aposta deste ano dos que buscam se infiltrar no processo político ganha impulso em parte por causa da visibilidade que conseguiram via websites similares ao Twitter que operam na internet chinesa. Não só há mais candidatos – as estimativas variam de mais de 100 até milhares –, como também não são mais concorrentes sem rosto que se podem deixar de lado sem barulho.

Muitos, se não a maioria, talvez nem cheguem à cédula de votação muito menos sejam eleitos por causa de uma ampla gama de impedimentos do governo, explicou Li Fan, diretor do Instituto Mundo e China, um centro de pesquisa não governamental de Pequim. No entanto, segundo ele, o aumento dessas candidaturas é "uma indicação muito forte de que o governo não pode continuar a dominar totalmente as políticas públicas".

Tipicamente, as eleições chinesas para os congressos populares locais, o menor nível parlamentar do país, atraem pouco interesse. Mais de 2 milhões de legisladores são escolhidos para os únicos postos de governo determinados por eleição direta. O povo chinês geralmente não participa dos referendos, realizadas a cada 3 a 5 anos, porque veem os resultados como predeterminados.

Mas este ciclo eleitoral, que começou em maio e prosseguirá até o próximo ano, mostra-se diferente. Considere a candidatura de Guo Huojia, 59, um vendedor de vegetais e frutas com educação primária. Ele lutou durante quatro anos contra as autoridades locais de Guangzhou, no sul da China, em relação ao que diz serem apreensões ilegais de fazendas para a construção.

Neste verão, Guo decidiu levar as suas frustrações para o povo. Ele reuniu as assinaturas necessárias – um mínimo de dez – para ser indicado pelos eleitores individuais, em vez de pelo Partido Comunista ou organizações afiliadas. Ele chegou à cédula de votação e, em 28 de setembro, foi eleito com 4.827 votos, derrotando o segundo mais votado, o candidato apoiado pelo governo, por cerca de 2 mil votos.

"É uma honra ser eleito representante para defender os direitos pela lei", disse em entrevista por telefone. Questionado sobre sua campanha, Guo disse: "Não fiz uma. Mantive silêncio.” Uma vez no cargo, no entanto, ele espera pressionar as autoridades para devolver para ele e seus conterrâneos as fazendas de arroz confiscadas.

A história não está do seu lado: Yao Lifa, um professor descrito como o primeiro delegado "não afiliado" eleito por uma população local em 1998, foi derrotado na reeleição depois do que a mídia chinesa caracterizou de um mandato inútil. Desde então, tem sido alvo de prisão e perseguição constantes.

Mas as eleições deste ano têm atraído candidatos muito mais conhecidos. Chengpeng Li, 43, um comentarista esportivo que concorre a uma vaga na Província de Sichuan, no centro-sul, tem mais de 3 milhões de seguidores em um site de microblog chinês. Na cédula de votação em um distrito de Pequim está Danhong Wu, professor da Universidade de Ciência Política e Direito da China. Ambos se recusaram a conceder entrevista.

Jovens idealistas também entraram na briga, incluindo Liu Ruoxi, 18, um estudante do ensino médio em Shenzhen, que reuniu mais de 2 mil assinaturas para sua candidatura. Um defensor da democracia multipartidária, Liu disse que fará sua campanha pelos direitos dos alunos via microblogs.

A capacidade dos candidatos de angariar um sentimento para a mudança política online parece ser o que mais preocupa as autoridades. Um oficial de segurança chinês, que falou sob condição de anonimato por não estar autorizado a comentar publicamente a questão, disse que as autoridades reguladoras consideram medidas para coibir os sites de microblogs, em parte por causa do potencial de uso para a política.

Leia também: China impõe novas censuras sobre a mídia e a internet

De fato, o Global Times, um desdobramento do jornal oficial do Partido Comunista, o Diário do Povo, advertiu em um editorial em maio que "os candidatos independentes poderiam destruir o sistema atual solicitando votos na internet". E, em 26 de setembro, as autoridades de propaganda intervieram para suprimir notícias sobre candidatos independentes por meio de uma ordem judicial para que as autoridades de Pequim não sejam mencionadas nesses sites, de acordo com um editor de uma publicação partidária, que falou sob a condição de anonimato por não estar autorizado a comentar o assunto com jornalistas estrangeiros.

Segundo a lei eleitoral chinesa, os candidatos locais podem ser indicados pelo partido, por organizações sociais ou por meio de petições assinadas por dez ou mais eleitores. O China Daily divulgou em junho que os candidates ainda devem passar pela aprovação dos comitês eleitorais do partido. Esses comitês também devem supervisionar as interações entre candidatos e eleitores, um regulamento que pode frustrar as campanhas dos excluídos.

Este ano, porém, eles usam seus microblogs para expor tais interferências. Liang Shuxin, 35, membro do Partido Comunista e executivo da rede social Tianya, concorreu a uma cadeira no legislativo de Guangzhou, mas, menos de um mês antes da votação, a comissão eleitoral local anunciou que os candidatos deveriam ser do sexo feminino, trabalhadores e não membros do Partido Comunista.

A restrição foi abandonada mais tarde, mas Liang ainda ficou de fora da votação. Censores do governo proibiram qualquer menção da controvérsia, segundo o editor da publicação partido. "É escandaloso como eles pisam na dignidade da lei", Liang reclamou online.

Yao Bo, o comentador social, descobriu na sexta-feira que ele também não poderá participar da votação no distrito de Pequim. "Presumo que encontraram candidatos melhores do que eu", disse secamente sobre as autoridades.

Ele ainda tem planos para concorrer como um candidato independente. A mudança não ocorre da noite para o dia, disse, "mas se você tem direitos e não tenta exercê-los, então não tem direito algum".

Por Sharon Lafraniere

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