Na Chechênia, ativistas de direitos humanos investigam sequestros

Alvos de ameaças, equipes de três pessoas tentam se proteger enquanto investigam casos de desaparecimento em Grozny

The New York Times |

Eles nunca saem sozinhos e quando estão em seus pequenos apartamentos em Grozny, capital da Chechênia, uma televisão de tela plana na parede exibe imagens de câmeras de segurança posicionadas no corredor e na escada externa.

Ao se espremerem em seus pequenos automóveis, os três homens podem ativar uma câmera de vídeo e um microfone em caso de problemas. Um pequeno botão vermelho no painel transmitirá os dados diretamente para a sede de seu escritório, a mais de 1.400 km de distância.

"É uma política interna: sempre viajamos juntos", disse Vladislav Sadykov, 46, o advogado que lidera o grupo. "Se você está sozinho, é mais fácil te sequestrarem e te torturarem. As fotos são para a nossa proteção e também porque, no caso de nos matarem, tudo estará gravado."

NYT
Da esquerda para a direita, Mikhail Folyak, Dmitri Laptev e Vladislav Sadykov, ativistas dos direitos humanos que atuam em Grosny

Os três homens fazem parte de um grupo de investigadores de direitos humanos chamado Joint Mobile Group, que é rotativo e tem se responsabilizado por investigar casos de sequestro e tortura na Chechênia.

"Todos os trabalhadores de direitos humanos locais vivem em perigo", disse Dmitri Laptev, 24, um advogado que atuará em Grozny por 45 dias em sua terceira passagem pelo país. "Suas casas podem ser queimadas. Seus filhos podem ser sequestrados."

A guerra separatista quase não atinge mais a Chechênia, mas sequestros e execuções extrajudiciais continuam a acontecer contra pessoas que apoiam os rebeldes ou se manifestam contra o governo do líder checheno Ramzan Kadyrov, segundo grupos de direitos humanos. "Ao conversar com pessoas comuns, ficamos chocados ao ver como elas têm medo", disse Laptev.

O grupo de direitos humanos Memorial disse que sua monitoria está cada vez mais difícil de ser realizada já que as vítimas e seus familiares têm mais medo de relatar abusos do que no passado.

"Eles continuam sequestrando pessoas sem problema algum", disse Sadykov, que está em sua quarta passagem pelo país. "Eles fazem isso abertamente: mostram que têm o apoio da polícia e a polícia não mexe com eles. É um trabalho simples, sem investigação, sem documentação, sem procedimentos legais. Eles apenas pegam alguém e levam embora."

O Joint Mobile Group, com sede em Nizhny Novgorod, recruta advogados e investigadores de organizações de direitos humanos de todo o país para trabalhar em equipes de três na Chechênia durante um mês ou mais.

Em maio, o grupo foi reconhecido com o prêmio Front Line como Defensores dos Direitos Humanos em Situações de Risco, premiado em Dublin pela Fundação Mary Robinson.

"Trabalhamos como investigadores, analisando fotos, conversando com testemunhas ", disse Sadykov. "Seguimos todo um procedimento, embora não tenhamos uma posição oficial. Juntamos evidências e então pedimos que os órgãos oficiais efetuem sua própria investigação."

O trabalho da equipe algumas vezes rende frutos, disse ele, e acusações foram levantadas contra alguns policiais.

O Joint Mobile Group foi fundado em 2009, após o sequestro e assassinato de Natalya Estemirova, uma pesquisadora local do grupo Memorial e uma das ativistas mais persistentes e mais conhecidas da Chechênia.

Desde a morte de Natalya, a maioria dos defensores dos direitos humanos locais parou de confrontar as autoridades diretamente com relatos de abusos, segundo Sadykov. O grupo Memorial muitas vezes retira a sua monitoração da Chechênia por períodos que podem durar várias semanas ou até mesmo vários meses.

De certa forma, o Joint Mobile Group tenta dar continuidade ao trabalho de Natalya.

"Eles achavam que ela estava causando problemas e que sem ela haveria menos problemas", disse Sadykov. "Mas eu sou o quê? Estamos sempre em rotação. Eles sabem que existem pessoas atrás de nós e que se me matarem, outra pessoa irá me substituir."

Entre a meia dúzia de casos com os quais o grupo está lidando, um estava na lista de Natalya: o desaparecimento de um ex-rebelde chamado Apti Zainalov, 23, que se entregou e cumpriu um ano de prisão. Após a sua libertação ele desapareceu em 2009, reapareceu brevemente sob guarda armada em um hospital e depois desapareceu novamente.

Dias antes de ser morta, Natalya vinha exigindo informações sobre ele tanto no hospital quanto na polícia, e o Joint Mobile Group continuou a pressioná-los.

Mas a mãe de Zainalov, Aima Makayeva, disse que está cansada das perseguições e está pronta para abandonar o processo legal caso as autoridades devolvam o seu filho.

"A única coisa que resta é recorrer a Kadyrov", disse ela. Essa é uma visão comumente expressa na Chechênia, onde Kadyrov está no controle tanto do governo quanto das forças de segurança.

A tática pode até funcionar, segundo Sadykov. Isso aliviaria as autoridades da pressão constante trazida pelos investigadores e da possibilidade de alguém ser preso e acusado.

Mas, segundo ele, isso iria contra o objetivo dos defensores dos direitos humanos de promover a lei e apenas confirmaria que ainda são os homens com armas que têm o poder.

"O sistema é semelhante a um pântano", disse Laptev. "Você joga uma pedra e faz algumas ondulações, até que elas se aquietam e a pedra afunda."

Sadykov vislumbrou o sistema de dentro no ano passado, quando fazia parte de uma equipe de três pessoas que foi detida por uma noite em uma delegacia de polícia, enquanto investigava uma denúncia de violação dos direitos humanos. O grupo foi libertado e entrou com seu próprio processo por detenção ilegal.

Em uma discussão no final da noite, segundo ele, a polícia defendeu seus métodos, dizendo que um ambiente hostil exige táticas duras. "Você tem que torturar", um oficial lhe disse. "Sem a tortura como podemos lutar contra o terrorismo?"

Mas Sadykov também observou que o trabalho dos monitores de direitos humanos parecia pelo menos causar uma boa impressão. Quando os três foram dispensados, segundo ele, um oficial lhe pediu para assinar uma declaração confirmando que não haviam sido maltratados.

"Caso contrário", o oficial disse, "você vai dizer que nós te torturamos."

Por Seth Mydans

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