Na capital da Dinamarca, ciclistas e pedestres disputam espaço

Cidade tomada por bicicletas, Copenhague abriga associação que exige vigilância mais rigorosa sob ciclistas

The New York Times |

Mikael Le Dous cansou dos ciclistas. O engenheiro elétrico de 56 anos usa uma bicicleta, assim como os seus filhos, embora também tenha um carro. Ele apenas gostaria que os ciclistas se comportassem. "Nós chamamos os ciclistas de praga do asfalto", disse.

Le Dous, um homem barbudo e animado, não costuma apenas reclamar dos ciclistas delinquentes. Como chefe da Associação Dinamarquesa de Pedestres, que fundou há seis anos, ele tem dedicado seu tempo livre para fazer algo a respeito.

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Ciclovias tomam conta da capital da Dinamarca, Copenhague

Armado com uma câmera digital colocada no painel de seu carro, ele fotografa ciclistas que ignoram os faróis, entram na contramão ou passam por áreas de pedestres sem descerem de suas bicicletas, armazenando evidências para apresentar às autoridades como argumentos para uma vigilância mais rigorosa sob os ciclistas.

Às vezes, segundo ele, os resultados de mau comportamento de um ciclista podem ser fatais. "Às vezes acontece de você se deparar com uma mulher idosa, e não necessariamente colidir com ela, mas de surpreendê-la e assustá-la com a bicicleta de forma que ela caia e talvez até mesmo morra", disse. "Então eles dizem: 'Por acaso é culpa dos ciclistas que ela seja idosa?"'

Em uma nação dedicada ao ciclismo, Le Dous tem lutado em uma batalha difícil. A associação tem hoje em dia cerca de 160 membros, e conta com um escasso orçamento anual de pouco mais de US$ 2 mil. "Eu ando muito de bicicleta. Nós não temos problemas com ciclistas em geral," disse Le Dous, enquanto tomava um café. "Nós temos problemas com pessoas que não não respeitam as leis".

Andreas Rohl alega ter visto o futuro e está convencido de que ele andará em duas rodas. No imenso prédio neo-medieval da prefeitura da cidade, ele dirige um programa notavelmente bem-sucedido em fazer das bicicletas o meio de transporte dominante. Diariamente, 55% dos moradores de Copenhague se locomovem para o trabalho ou para escola em uma bicicleta, embora, no ano passado, ele admite, o número tenha caído um pouco devido a invernos rigorosos. Qual o motivo de tantas bicicletas? Simples, ele diz: "Elas são uma maneira fácil de se locomover."

Ciclovias amplas atravessam a capital dinamarquesa, que tem uma população de 1,2 milhão de pessoas, e os ciclistas utilizam cada uma delas. Algumas delas, incluindo em pontes sobre o porto, são exclusivamente para bicicletas. Em alguns dias, Rohl diz com orgulho, mais ou menos 36 mil ciclistas passam pela Norrebrigade, uma das ruas principais que levam ao centro da cidade, que agora conta com largas ciclovias que vão em ambas as direções, deixando pouco espaço para carros e ônibus.

Ullaliv Friis, 66, uma oficial municipal aposentada, que é a diretora administrativa da associação de pedestres, diz que ela aprecia tudo isso, mas que existe um outro lado da história. Muitos aposentados e idosos vivem em casas perto do subúrbio ao norte do centro da cidade, onde ela também mora. As calçadas se tornaram um risco para eles, ela diz, devido aos ciclistas. "Eles tomaram conta de tudo", disse.

Le Dous tem uma certa inveja de um grupo que ele considera muitas vezes como seu inimigo, a Federação dos Ciclistas da Dinamarca. Fundada em 1905 e contando com cerca de 17 mil membros em todo o país, a federação exerce uma enorme influência no país quando se fala de tráfego de bicicletas.

Com 25 funcionários em sua sede, a federação tem crescido cada vez mais nos últimos anos, com o objetivo de tornar a bicicleta um bem exportável. E não apenas os aparelhos e equipamentos relacionados a ela, mas também a consultoria e assessoria para outras cidades que procuram tornar a bicicleta um meio de transporte mais utilizado. Em 2009, a federação elogiou o prefeito Michael R. Bloomberg pelos seus esforços em promover o ciclismo em Nova York - mesmo com o protesto de alguns grupos de nova-iorquinos contra a remoção das ciclovias ao longo da Avenida Bedford, no Brooklyn.

Frits Bredal, 46, um jornalista de televisão que é ex-porta-voz da federação, disse estar ciente da raiva contra os ciclistas. "Existe uma resistência das pessoas que estão frustradas com o fato de que as cidades estão ficando inundadas pelas bicicletas", disse. "Eu sou um motorista de carro e também um ciclista", acrescentou. "Se eu dirigir meu carro para a cidade, eu fico invariavelmente frustrado."

No entanto, ele ressalta: "As bicicletas não são apenas agradáveis e bonitas, pois elas são, e devem ser, uma parte central da política de transportes dinamarquesa, tanto local quanto nacional".

A segurança para ciclistas tem melhorado recentemente, segundo ele, graças a uma série de medidas, incluindo ciclovias mais amplas e programas para alertar da necessidade da disciplina. "No ano passado, tivemos o menor número de acidentes de trânsito, incluindo o menor número de mortes envolvendo bicicletas", disse. "Em 2010, o número de ciclistas seriamente feridos caiu para 92, incluindo três mortes, em comparação com o número de 252 feridos gravemente apenas cinco anos atrás.".

Como muitos, em Copenhague, Natalia Privalova, 37, uma gerente de escritório, tem duas bicicletas, incluindo uma estruturada para o transporte de seus filhos. Ciclistas respeitam os pedestres, ela disse, acrescentando, "quando seguem as regras". "É claro", disse, "a hora do rush é outra história."

Na sua loja localizada no centro da cidade, onde vende cerveja e vinho, Simon Barfoed, 32, foi mais duro sobre o assunto envolvendo os ciclistas. A raiva dos pedestres pode ser "justificada", disse ele. "Eu acho que muitos dos ciclistas pedalam como se fossem donos das ruas". Ele não possuía carro e utilizava uma bicicleta para o trabalho, mas disse que as bicicletas trouxeram desvantagens para as negócios como o dele. "Se você quiser comprar uma caixa de cerveja, é difícil de transportá-la em uma bicicleta ", disse ele.

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Durante a hora do rush, população da Dinamarca prefere usar bicicleta
Na Prefeitura da cidade, Rohl ouve as reclamações dos pedestres e diz que a cidade tem tomado medidas para melhorar o comportamento dos ciclistas. Ocasionalmente ele envia trabalhadores para pesquisa de campo, por exemplo, parando os ciclistas que demonstram um comportamento exemplar, como o de fazer sinais com as mãos adequadamente ou respeitar os pedestres, e os recompensam com pequenas caixas de chocolate.

Ayfer Bayka, 35, a vice-prefeita do departamento de tecnologia e meio ambiente, minimiza a guerra entre os ciclistas e os pedestres. "Queremos que as pessoas andem também", disse ela. "Não existem faixas, uma para os pedestres e uma para andar de bicicleta."

Bayka, que nasceu em Copenhague de pais imigrantes turcos, tem orgulho do que a cidade tem realizado. Quando os seus parentes da Turquia, onde o automóvel continua sendo um símbolo de sucesso, a visitam eles ficam chocados com o fato de que ela utiliza uma bicicleta como meio de transporte. "Eles perguntam: 'Você não tem dinheiro para comprar um carro?'" Ela disse com uma risada.

O abuso dos ciclistas aos pedestres, acrescentou ela, "acontece, mas, acontece também dos pedestres andarem nas ciclovias. Eles têm que respeitar uns aos outros. Não é tão ruim assim".

Le Dous, apesar de não desanimar, é realista sobre suas chances de direcionar a discussão para os direitos de pedestres. Sua situação, ele disse, "não é encarada como algo sério, simplesmente não é algo que os interesse".

Então, referindo-se aos ciclistas, acrescentou, "o novo garoto do pedaço é que tem recebido toda a atenção".

Por John Tagliabue

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