A vacinação de pré-adolescentes contra o vírus sexualmente transmissível tornou-se a grande questão entre candidatos presidenciais

Uma questão pouco provável - a vacina para meninas pré-adolescentes contra um vírus sexualmente transmissível - se tornou o mais recente tópico de debate entre os candidatos presidenciais republicanos em busca do apoio dos conservadores e membros do movimento Tea Party .

A questão veio à tona em um debate na noite de segunda-feira, quando a deputada Michele Bachmann e o ex-senador Rick Santorum atacaram o governador do Texas, Rick Perry , a respeito da emissão de uma ordem executiva exigindo que meninas da sexta série fossem vacinadas contra o vírus HPV, classificando a ordem como uma forma de poder exagerado do Estado em intervir em uma decisão que deveria ser tomada pelos pais. Mais tarde, Sarah Palin, que ainda não anunciou suas intenções para as eleições de 2012, também encontrou problemas na decisão de Perry.

Candidatos presidenciais republicanos (E-D): Jon Huntsman, Herman Cain, Michele Bachmann, Mitt Romney, Rick Perry, Ron Paul, Newt Gingrich, Rick Santorum em debate (12/9)
AP
Candidatos presidenciais republicanos (E-D): Jon Huntsman, Herman Cain, Michele Bachmann, Mitt Romney, Rick Perry, Ron Paul, Newt Gingrich, Rick Santorum em debate (12/9)
A questão levanta muita oposição entre os conservadores, com os argumentos de que o governo está indo longe demais ao intervir em questões de saúde pública, de que a educação sexual leva à promiscuidade e até mesmo a crença - já contrariada pela ciência - de que a vacinação infantil pode estar ligada a deficiências mentais.

Na terça-feira, Michele, de Minnesota, levantou essa preocupação ao sugerir que Perry poderia ter colocado as meninas em situação de risco ao forçar "uma injeção do que poderia ser potencialmente uma droga muito perigosa". Ao aparecer no programa Today Show, da rede de televisão NBC, contou que, após o debate em Tampa, na Flórida, uma mãe se aproximou dela chorando e disse que a filha tinha sofrido uma "deficiência mental" depois de ser vacinada contra o HPV. "Essa droga pode ter muito efeitos colaterais perigosos ", disse.

A ênfase no histórico de Perry sobre a questão o coloca na defensiva durante um debate que segue pela segunda semana consecutiva, dessa vez entre o núcleo do círculo eleitoral de membros do movimento Tea Party.

"É a tempestade perfeita", disse Craig Robinson, um ex-diretor político do Partido Republicano de Iowa, salientando que Perry, o favorito nas últimas pesquisas, está sendo atacado por todos os lados. "Deu para perceber que esses ataques o afetaram."

Embora Michele tenha chamado a vacina contra o HPV de perigosa, um relatório do Instituto de Medicina divulgado no mês passado revelou que ela é genuinamente segura. Não há nenhuma evidência ligando-a deficiências mentais.

Vacina recomendada

A vacina é altamente recomendável pelos grupos médicos, incluindo a Academia Americana de Pediatria e a Sociedade de Câncer Americana, para prevenir o câncer do colo do útero , que mata cerca de 4 mil mulheres nos EUA anualmente.

A idade recomendada da vacinação para as meninas é de 11 ou 12, antes que se tornem sexualmente ativas. Mas somente na Virgínia e no Distrito de Columbia ela é exigida antes do ingresso no ensino médio, de acordo com a Sociedade do Câncer.

A Dra. Deborah Saslow, diretora da sociedade do câncer de mama e do câncer ginecológico, disse que não defende a ideia de exigência da vacinação antes do ensino médio, já que os pais e até mesmo os médicos precisam de mais tempo para se acostumar com a ideia da vacina e aceitar que ela é segura.

Quando Perry emitiu sua ordem executiva em 2007, fez do Texas o primeiro Estado a exigir vacinações, embora os pais pudessem optar por não imunizar suas filhas. A ordem foi imediatamente tópico de controvérsia - a Assembleia Legislativa do Estado a derrubou antes de que pudesse ser implementada -, e certas críticas foram levantadas dizendo que, na época, Perry fazia um favor para Mike Toomey, um ex-chefe de equipe que era então um lobista da Merck, fabricante da vacina HPV, a Gardasil, que ocupava primeiro lugar no mercado.

Na época, a Merck fez lobby para a criação de leis em todo o país para exigir que a vacina fosse administrada em meninas do ensino médio, mas em meio a críticas - liderada por grupos conservadores preocupados de que ela promoveria o sexo precoce - a empresa desistiu da campanha.

Michele, cuja campanha vem perdendo força desde que Perry entrou na corrida eleitoral no mês passado, aproveitou o debate de segunda-feira à noite para acusar o governador do que ela mais tarde chamou de "capitalismo antiquado " por causa de suas ligações com Toomey e Merck, que fizeram doações à sua campanha. Sarah endossou essas acusações na Fox News.

Perry disse durante o debate que deveria ter trabalhado com a Assembleia do Texas e não de ter emitido uma ordem executiva, descartando qualquer sugestão de que possa ter sido comprado por uma contribuição de meros US$ 5 mil (registros mostram que ele na verdade recebeu US$ 30 mil da Merck).

Mark Miner, um porta-voz de Perry, disse que os comentários de Michele e de outros eram "ridículos". "Alguns candidatos fazem de tudo para chamar a atenção", disse. "No entanto, o governador Perry continuará centrado em questões que interessam às pessoas, como a criação de empregos e a melhora da economia."

Michele disse que continuaria a levantar a questão da vacina, pois mostra "distinções verdadeiras" entre ela e Perry.

Estrategistas republicanos também disseram que a questão continuará em voga já que as ações de Perry em 2007 levantaram questões não apenas entre os conservadores sociais, mas entre membros do partido e independentes que acharam a ordem um abuso cometido pela autoridade executiva.

"Isso prejudica a capacidade do governador Perry de criticar o governador (Mitt) Romney ao lidar com as questões de saúde pública", disse Steve Duprey, um membro republicano nacional de New Hampshire. "Somos um Estado que tem uma perspectiva negativa sobre um governo obrigando-nos a fazer qualquer coisa."

A sugestão de Michele de que as vacinas contra o HPV podem ser perigosas causou rebuliço entre alguns blogueiros conservadores e emissoras influentes que sugerem que ela levou seu ataque longe demais, levantando questões sobre seu julgamento em ressaltar pontos de vista totalmente contrariados pela ciência de que as vacinas estão ligadas ao autismo ou outras doenças mentais.

Rush Limbaugh afirmou na terça-feira que ela "exagerou" ao fazer a ligação de vacinas contra o HPV à deficiências mentais. Ao fazer uma aparição no programa de Sean Hannity, um apresentador conservador, Michele recuou um pouco em sua opinião. "Não sou médica nem cientista ", disse.

*Por Trip Gabriel e Denise Grady

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