Na Bielorrússia, pluralismo aparente cortejava o Ocidente

Liberdade de campanhas eleitorais indica inclinação de presidente Aleksandr Lukashenko, mal visto por Moscou

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Com panfletos prometendo "ação em vez de promessas", Yegor Vasilievsky fazia sua campanha diante de um centro comercial movimentado na sexta-feira, angariando apoio para um concorrente do presidente da Bielorrússia, Aleksandr G.Lukashenko. Ele já estava lá há quatro horas e tinha conseguido, extraordinariamente, não ser preso.

"Entregar panfletos costumava ser proibido", disse Vasilievsky, 20 anos. "Agora, é permitido".

Este é o ponto alto do progresso político na Bielorrússia, uma antiga república soviética onde até poucos anos atrás a propaganda eleitoral realizada por Vasilievsky poderia ter feito com que ele fosse preso, espancado ou algo pior. Lukashenko tem governado o que seus opositores chamam de uma ditadura. Mas, antes das eleições de domingo, ele parecia ter decidido permitir algo parecido com uma campanha presidencial.

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Campanha para eleições em Minsk, capital da Bielorrússia
Seria difícil descrever Lukashenko como um novo democrata. Nenhum dos nove candidatos que concorreram com ele pareciam ter muita chance de acabar com seu reinado de 16 anos. Mas esta aparência de pluralismo, evidenciada na capital e em outros lugares por alguns cartazes de campanha e comícios da oposição, parecia ser parte de um esforço de Lukashenko em cortejar o Ocidente em meio a relações cada vez mais imprevisíveis com o seu patrono de longa data, o Kremlin.

"Em geral, Lukashenko precisa desesperadamente de dinheiro e sabe que o dinheiro virá do Ocidente", disse Andrei O. Sannikov, que concorreu nas eleições de domingo. "É por isso que ele tem de mostrar algum tipo de liberalização na superfície".

Após uma reunião com Lukashenko no mês passado, os ministros dos Negócios Estrangeiros da Polônia e da Alemanha disseram que a União Europeia estaria disposta a dar a Bielorrússia US$ 3,5 bilhões em ajuda. O que eles queriam em troca? Que as próximas eleições fossem consideradas livres e justas.

E assim, com o seu país sofrendo com as tensões da crise financeira, Lukashenko, muitas vezes chamado de o último ditador da Europa, tem aprendido – ou pelo menos fingindo aprender – a jogar de acordo com regras diferentes.

"Nós nos tornamos um país tão democrático nestas eleições presidenciais que eu tenho medo de outros chefes de Estado se afastarem de mim, o democrata forte", Lukashenko disse a repórteres este mês.

Campanha

Durante a campanha eleitoral, os candidatos da oposição receberam tempo livre na televisão nacional e puderam fazer campanha em todo o país, embora não sem o assédio ocasional da polícia local. Pela primeira vez, os candidatos foram autorizados a realizar um debate televisionado. Lukashenko não participou, embora os outros candidatos tenham sido capazes de criticar o presidente livre de censura e ao vivo na televisão controlada pelo governo.

"Em comparação com as eleições de 2006, estas eleições aconteceram praticamente sem repressão", disse Aleksandr Milinkevich, cuja experiência como candidato nas últimas eleições presidenciais foi muito pior. "Parece uma celebração da democracia".

Ele alertou, porém, que a maioria das reformas foram superficiais. Ele citou Stalin, dizendo: "Não é importante como as pessoas votam, é importante como os votos são contados".

Na verdade, o governo de Lukashenko mantém controle completo sobre a contagem de votos, com a oposição constituindo menos de 1% das comissões locais encarregadas da contagem final. O presidente também recebeu cerca de 90% da cobertura da mídia durante a campanha, de acordo com os observadores das eleições, que também expressaram preocupação de que votos feitos durante um período de cinco dias de votação antecipada poderiam ser adulterados.

"Tem havido uma série de melhorias em diversas áreas", disse Jens Eschenbaecher, porta-voz da ala de observação eleitoral da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa. "Se isso é suficiente para criar uma situação de igualdade para todos os candidatos ainda é, penso eu, questionável".

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Presidente bielorruso, Aleksandr Lukashenko, candidato à reeleição, votou ao lado do filho no dia 19 de dezembro
Para aqueles que faziam campanha para a oposição nas ruas cobertas de neve de Minsk recentemente, havia pouca dúvida de quem tinha a vantagem.

Sergei Pradzed, 23 anos, que estava distribuindo panfletos na estação ferroviária local, disse que passou 14 horas em uma cela fria em outubro e foi multado em US$ 400, o mesmo que ganhou em um mês para segurar um cartaz na praça central da capital que dizia: "Onde estão os meus direitos?". Seu protesto não se enquadra na definição de campanha do governo. "A nossa campanha não importa para eles", disse Pradzed. "Eles podem obter os resultados que quiserem, sem esforço".

Apesar dos compromissos duvidosos de Lukashenko com sua nova experiência democrática, a União Europeia e, em menor medida, os Estados Unidos, com cautela começaram a aceitá-lo. Antes um pária no Ocidente, ele foi recentemente convidado a visitar capitais europeias e recebeu ofertas de investimento em troca de, pelo menos, um mínimo de abertura política em casa.

Em outubro, a União Europeia ampliou uma revogação das restrições de viagens para Lukashenko, "a fim de incentivar o progresso", segundo uma declaração do Conselho da União Europeia. Em seu lugar estabeleceram sanções que visam à participação financeira dos oficiais da Bielorrússia.

Ao mesmo tempo, os governos ocidentais e organizações não-governamentais cortaram drasticamente o financiamento aos movimentos de oposição e candidatos empenhados em derrubar Lukashenko, sucumbindo ao que um membro de uma ONG ocidental chamou de "cansaço da luta".

Críticas de Moscou

Por outro lado, é a Rússia, um país com as suas próprias deficiências democráticas, que se tornou um dos maiores críticos de Lukashenko. Neste verão, a mídia estatal russa deu início a ataques retratando-o como um tirano fã de Hitler em uma série de documentários.

A crítica se tornou tão intensa que muitos observadores, incluindo Lukashenko, passaram a acreditar que o Kremlin estava preparando o terreno para a sua queda. Em determinado momento, Lukashenko acusou o Kremlin diretamente de financiar forças da oposição na Bielorrússia. Em resposta, o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, disse Lukashenko não tinha uma decência humana básica.

O Kremlin havia apoiado Lukashenko durante anos, injetando crescimento econômico na Bielorrússia de estilo soviético, com gás natural barato e isenções nos impostos sobre o petróleo. Os líderes da Rússia também elogiaram as eleições que observadores independentes condenaram como uma farsa e ignoraram pedidos persistentes de ativistas de direitos humanos e das liberdades civis no país de 10 milhões de habitantes.

Mas o Kremlin parece ter cansado de Lukashenko, que brevemente cortou o fluxo de gás natural russo que passa através da Bielorrússia para abastecer a Europa Ocidental neste verão em meio a uma disputa de preços com Moscou, e se recusou a seguir a Rússia em reconhecer a independência de dois enclaves separatistas na Geórgia, entre outras infrações.

Gás e petróleo

A Rússia mudou um pouco de atitude ultimamente, decidindo este mês contra a imposição de impostos sobre o petróleo e o aumento no preço do gás natural para a Bielorrússia, em uma medida que observadores disseram indicar vontade de Moscou em reconhecer a vitória de Lukashenko.

Ainda assim, conforme as eleições se aproximavam, a televisão russa continuava seu ataque, fazendo uma cobertura bajuladora dos candidatos da oposição e alertando para o perigo de possíveis fraudes.

"Eleições bielorrussas são como teatro antigo", disse o correspondente da emissora estatal russa First Channel. "A única diferença entre os gregos antigos e os bielorrussos modernos é que os primeiros se reuniam para a alegria do processo, enquanto os bielorussos só esperam algum tipo de encerramento".

*Por Michael Schwirtz

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