Na Arábia Saudita, humor ganha espaço na internet

Comediantes, que evitam polemizar sobre temas como revoltas no mundo árabe, são alternativa à TV saudita

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Você sabe que está participando de uma noite de stand-up comedy na Arábia Saudita quando a tenda de apresentações foi armada no meio do deserto para evitar a polícia moral e, surpreendentemente, mulheres tomam conta da porta, ainda que cobertas com a tradicional roupa negra usada no país.

Em seguida, luzes estroboscópicas e alto falantes gigantes tocando "I Gotta Feeling", do Black Eyed Peas, são desligados para a oração noturna. O gênero determina onde as pessoas se sentam – solteiros à direita, famílias, incluindo mulheres, à esquerda.

"Eu amo Riad!", disse o mestre de cerimônias em árabe, provocando uma resposta morna do público de cerca de 1 mil pessoas com a seguinte frase: "Quando você anda na rua, você não vê nenhuma mulher".

Stand-up comedy na Arábia Saudita continua a ser algo clandestino, emergindo de artistas locais contratados como aquecimento para árabes-americanos que começaram a excursionar pelo Oriente Médio há poucos anos. Mas os comediantes sauditas já estão conquistando espaço próprio.

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Omar Hussein no episódio de On the Fly, que ganhou notoriedade no YouTube
Dois estabeleceram programas muito populares no YouTube – principalmente porque a web surgiu como um espaço público em que é possível endossar as revoltas árabes. As noites de comédia apenas mudaram de inglês para árabe, ampliando seu apelo, e a moda é tamanha que comediantes foram convidados a entreter até mesmo em conferências sobre o Alcorão.

"É muito conveniente para a sociedade saudita, porque é uma pessoa no palco, não há nenhuma ação, nenhuma mulher no palco, não há homens vestidos como mulheres", disse Ahmad Fathaldin, estudante de medicina de 25 anos e um dos seis jovens que escrevem e atuam na série de sucesso no YouTube, a On the Fly. "Isso é socialmente aceito”.

Ajuda que a principal concorrência para entretenimento noturno consista basicamente em andar pelos gigantescos shoppings sauditas – cinemas ou qualquer outro lugar que possa incentivar a convivência entre homens e mulheres são proibidos. Outros fator que ajudou a impulsionar o fenômeno de comédia, e o levou ao YouTube, é a também a mesmice sufocante da maioria das redes de televisão árabes.

"A televisão está sofrendo uma morte lenta e dolorosa na região", disse Fahad Albutairi, 26 anos, um geofísico autointitulado nerd que se formou na Universidade do Texas, em Austin. Foi lá onde fez comédia pela primeira vez nos bares locais. Em novembro passado ele começou o outro programa de sucesso no YouTube, o La Yekthar, ou Cale-se.

Entre os quase 19 milhões sauditas, cerca de 70% têm menos de 30 anos de idade. Eles não aguentam mais os cerca de 200 episódios das novelas turcas, disse Albutairi. "Os programas não refletem as coisas que são importantes para o saudita comum", disse. "Nós transmitidos da Arábia Saudita para o povo saudita algo feito por sauditas".

Hobby

Omar Hussein, de 25 anos, supervisiona uma linha de produção de fraldas para uma empresa americana e usa seu tempo livre para estrelar como protagonist de On the Fly. No ano passado, ele e os outros fundadores do projeto procuraram criar o que chamam de "comédia socialmente responsável" sobre as notícias e as conversas nacionais.

Ambas os projetos exalam um certo ar totalmente em torno da comédia e rejeitam a televisão, com medo de serem censurados para evitar ofender os anunciantes. Online, eles podem ampliar seus limites, embora não muito.

Os programas evitam mencionar a Família Real saudita e a ausência da Primavera Árabe no reino. Eles também não falaram sobre o presidente tunisiano deposto, Zine El Abidine Ben Ali, que recebeu asilo no país depois que as manifestações o tiraram do poder – e eles raramente tocam no Sistema Judiciário ou em outros bastiões do puritanismo islâmico.

Entre os dois programas, On the Fly patina um pouco mais perto do precipício em relação a tabus políticos e sociais. O programa chegou a veicular uma reportagem sarcástica, que os escritores descreveram como um dom, de um juiz se defendendo publicamente de acusações de corrupção, dizendo que o diabo o possuiu. Ele também relatou a notícia de que um membro da polícia religiosa esfaqueou outro homem, possivelmente com um cortador de unha, depois que os dois discutiram sobre uma observação de que a esposa do homem deveria cobrir o rosto.

O episódio mais popular, divulgado em fevereiro em meio à revolta no Egito e em outros lugares, recebeu mais de 635 mil acessos. "Tomamos uma posição muito clara sobre os acontecimentos", disse Dima Ikhwan, 23 anos. Ela e Lama Sabri, uma psicologa de 22 anos de idade, são as duas roteiristas do programa – outra excentricidade em relação às normas da Arábia Saudita.

O episódio habilmente tomou a forma de uma lição de gramática árabe para expressar o sentimento popular. Frases diziam de "Eu entendo, sua Excelência o Senhor Presidente" ou "Fora!" – um grito muitas vezes brandido pelos manifestantes – e “Ai, você ainda está aqui!"

Eles puderam expressar uma opinião exatamente oposta à política oficial, que ressaltou a livre expressão de que gozam no YouTube. As revoltas populares que agitaram o mundo árabe horrorizaram a monarquia – principalmente a queda do presidente Hosni Mubarak, do Egito, um aliado de longa data – e Arábia Saudita chegou a enviar tropas para sufocar a revolta no Bahrein.

O episódio de fevereiro zombou de um canal via satélite privado saudita por transmitir programas como Os Árabes Têm Talento enquanto a maioria das outras emissoras mostrava as revoltas ao vivo. Ele também ridicularizou a televisão estatal por transmitir um programa de culinária enquanto inundações devastadoras em Jidda, no fim de janeiro, deixaram 13 pessoas mortas. "Nós devemos morrer de fome porque está chovendo?", brincou Hussein.

O programa, no entanto, não é abertamente político e tenta zombar de tudo, sobretudo de Jidá, onde vivem escritores que têm reputação entre os sauditas de beirar o decadente.

Religião

On the Fly escapou da ira do poderoso lobby religioso do país talvez em parte porque Hussein sutilmente expressa sua própria fé através de sua escolha de assuntos e vocabulário. Um telespectador religioso comentou online: "Esse programa é ótimo, mas eu queria que vocês fizessem tudo isso sem a música e as mulheres".

O programa exala inteligência – criando vinhetas que, por exemplo, explicam os muitos usos da palavra "Inshallah", que quer dizer "Se Deus quiser", "Seja paciente," Suma daqui" e "Sonhe sempre". E valoriza a si ao criticar instituições estatais como a Arabia, companhia aérea nacional que tem 29 vice-presidentes, incluindo o "vice-presidente para fazer com que as pessoas que foram rezar nos corredores não demorem”.

Os fãs dizem que Hussein vai direto ao assunto, enquanto a mídia tradicional evita exatamente isso. "Ele captura a cultura, ele capta a atitude, e ele realmente mostra o ridículo das questões que estão nos bloqueando", disse Fatin Bundagji Yousef, proeminente consultor de negócios e ativista.

O programa trata com humor assuntos sensíveis que resultam em motins em outros lugares. Quando Terry Jones, o pastor da Flórida, queimou exemplares do Alcorão, Albutairi brincou sobre isso no programa Cale-se dizendo que Jones havia equivocadamente queimado algumas Bíblias e livros infantis porque eles estavam em árabe, e ele sugeriu que estudantes do ensino médio enviassem ao pastor seus livros de biologia.

Seu episódio mais popular, que teve mais de 800 mil visualizações, foi sobre o malfadado time de futebol saudita. "Os sauditas não são um povo muito ligado à política, e você tem de levar isso em conta", disse Albutairi.

Na noite de stand-up comedy perto de Riad, as piadas se concentravam nos trabalhadores estrangeiros e nas diferenças entre os sexos – quase nenhuma se referiu à turbulência regional. Albutairi contou uma sobre o Conselho de Cooperação do Golfo – formado pelos seis Estados do Golfo Pérsico –, que inesperadamente convidou os reinos distantes de Marrocos e da Jordânia para participar. Eles deveriam chamar o grupo de Todos Podem Entrar, disse ele.

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Fahad Albutairi, Waddah Swar, Hisham Mansari e Ali Al Sidrah antes de show em Riad, capital da Arábia Saudita
Jovens sauditas disseram ter gostado do evento. "Eles não me fizeram morrer de rir, mas dá para perceber seu potencial", disse Hassan Mansouri, 27 anos, um banqueiro que frequentava clubes de comédia enquanto estudava em Boulder, no Colorado. "Foi bom ver algo com um sabor saudita".

Na Arábia Saudita, a tradição religiosa e repressão política impedem reuniões públicas. Moradores de Jidda se queixam de que suas tentativas de construir uma nascente cena cultural têm sido asfixiadas uma atrás da outra – um festival de cinema foi fechado e até mesmo palestras públicas exigem autorizações oficiais.

Assim, com a atual moda da comédia, os artistas são bombardeados com pedidos, muitos dos quais consideram estranhamente inadequados. "Todo mundo quer stand-up em toda parte e em qualquer lugar e eles encontram qualquer desculpa", disse Hussein. Ele acrescentou, imitando um interlocutor: ‘Temos esse workshop sobre o Alcorão, Omar, venha fazer alguma comédia’. Recebo convites assim”, disse.

* Por Neil Macfarquhar

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