Música étnica testa limites na China

Músicos vivem dilema entre tocar sob controle do governo com chances de perder público e desafiar autoridades correndo risco de perder palco

The New York Times |

Eles excursionaram pela Europa, tocaram ao lado de nomes conhecidos como a banda Coldplay e ganharam elogios na imprensa internacional. Mas na China, a crescente popularidade da banda de rock Hanggai, da Mongólia, não tem exatamente inspirado adulação das autoridades.

Durante um festival de música recente que a banda organizou nos subúrbios de Pequim, a Hanggai encabeçou a lista de músicos que, como os membros da banda, são conhecidos por combinar música étnica tradicional com gêneros contemporâneos.

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Huricha, líder vocalista da banda mongol Hanggai, durante apresentação em Pequim
Houve apresentações de Mamer, um músico experimental da região da fronteira casaque da China que toca um alaúde comprido, e de Quan Zhang, uma cantora folk das planícies áridas do noroeste.

O evento, que não foi prejudicado completamente pela qualidade irregular do som e pelos alimentos caros, atraiu muitos agentes de segurança do Estado que acompanharam a multidão com impaciência e uma pitada de curiosidade.

Uma lista crescente de locais alternativos e festivais de música chinesa permitiram que os músicos de minorias étnicas, como os membros da Hanggai, desfrutem de um grau incomum de segurança financeira e proeminência cultural.

Mas na China, onde o governo central mantém um controle firme sobre a mídia popular e eventos culturais, músicos das minorias caminham sobre uma linha tênue: se tocarem com segurança eles podem perder a sua audiência, mas se forem longe demais podem perder o palco.

Cerca de 8% da população da China, ou mais de 100 milhões de pessoas, pertencem a 55 grupos étnicos minoritários designados pelo Estado. Séculos de isolamento e autonomia fizeram muitos deles linguística e culturalmente distintos da maioria Han.

Mas ao longo dos últimos 30 anos, uma variedade de forças sociais, econômicas e políticas os levou a assimilar a cultura chinesa tradicional. O status quo representa um desafio para aqueles que desejam tocar canções tradicionais como elas são, muitas vezes com letras que descrevem aspectos menos salubres da vida das minorias.

"Cerca de 80% das minhas músicas são sobre as dificuldades que passamos", disse Aojie a Ge, um músico que vive em Pequim e pertence à minoria yi, do sudoeste da China. "Mas será que eu posso fazer essas músicas? Claro que não. Eu ainda preciso sobreviver”.

Embora Aojie goze da estabilidade e do prestígio associados à sua posição, ele é consciente dos limites artísticos impostos pelas autoridades. O governo, por exemplo, decide onde ele pode tocar, bem como a linguagem que adota em suas músicas.

"Claro que tenho objeções", disse Aojie. "Em outros países você pode falar sobre elas. Aqui você não pode”.

*Por Jonathan Kaiman e Andrew Jacobs

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