Música de resistência ganha espaço no Irã

Artistas que usam a música para criticar governo deixam o país para evitar prisão

The New York Times |

Parisa lembra o momento exato em que ouviu a primeira música de Shahin Najafi, um rapper iraniano que vive em exílio na Alemanha, na televisão via satélite ilegal que assiste na pequena cidade de Karadj, a oeste de Teerã. "Suas palavras me cortaram como uma faca", ele disse.

Divulgação
Iraniano Shahin Najafi faz show na Europa
Parisa, um estudante universitário de 24 anos, ficou acordado durante toda a madrugada em uma noite recente, quando a conexão à internet estava mais rápida, baixando músicas de Najafi.

Desde que as autoridades iranianas reprimiram as manifestações que abalaram o país depois de uma disputada eleição há um ano, músicas de protesto passaram a confortar e inspirar a oposição. Ainda que os protestos nas ruas tenham sido calados, as músicas têm conquistado mais espaço e se tornado mais expressivas. O governo, no entanto, tentou todos os métodos possíveis para abafar o que se tornou conhecido como "música de resistência".

Websites que disponibilizam os downloads foram bloqueados e redes sociais, usadas tanto para disseminação da cultura de resistência quanto para para organizar protestos e distribuir vídeos sobre a violência governamental, foram fechadas.

Em abril deste ano, um grupo pró-governo que se auto-intitula "cyber-Exército" tirou do ar o website de Najafi. O grupo, que também invadiu o Twitter do iraniano em dezembro, deixou uma mensagem dizendo que o website havia sido "conquistado por combatentes anônimos de Imam Zaman", uma referência ao messias xiita.

No final de dezembro, as autoridades detiveram Shahram Nazeri, um importante músico clássico persa que gravou a música "We Are Not Dirt or Dust" (Não Somos Poeira ou Pó, em tradução livre) em uma resposta às palavras usadas pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad para caracterizar os manifestantes anti-governo. O governo tomou seu passaporte, além de intimidá-lo. Nazeri não lançou músicas novas desde então.

Mas tentar proibir músicas na era digital é como tirar água de uma esponja úmida. Músicas de protesto são baixadas pela internet, vendidas no mercado negro ou compartilhadas via Bluetooth, uma tecnologia sem fio que os iranianos têm adaptado para compartilhar arquivos por celular, evitando completamente a internet. Os fãs também fizeram centenas de vídeos caseiros, que mostram imagens e músicas de protesto, que são publicados online.

nullParisa ouviu a música de Najafi pela primeira vez na emissora Pars TV, um canal via satélite da oposição que é transmitido de Los Angeles. Apesar de ser bloqueado pelo governo desde o último verão, o website de Najafi ainda pode ser encontrado por iranianos especializados no uso da internet com a ajuda de programas que evitam a vigilância governamental.

Nativo da cidade de Bandar Anzali, Najafi comprou seu primeiro violão quando fez 18 anos e aos 25 já havia sido expulso do país por uma música que satirizava um clérigo local.

Ainda que a proibição do Irã à música pop, condenada pelo governo como não-islâmica, tenha sido aliviada em 2000, durante a era de reformas do presidente Mohammad Khatami, apenas música sem teor político era tolerada.

A satírica "I Have a Beard" ("Eu Tenho Barba", em tradução livre), de Najafi, foi longe demais e três anos de prisão e 100 chibatadas esperam por ele caso volte ao país. Como outros artistas iranianos no exílio, o coração de Najafi é dividido por fronteiras: sua vida é na Alemanha, onde tem liberdade artística, mas a sua terra natal sempre será o Irã.

* Por Nazila Fathi

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