Museu na República Dominicana perpetua lembranças da repressão

Memorial da Resistência procura expor os 30 anos da ditadura de Rafael Trujillo, uma das mais sangrentas da América Latina

The New York Times |

Melba Navarro parou diante da imagem de um homem com os olhos esbugalhados, a boca escancarada em terror. Ou será que era de dor? Ele estava amarrado a uma cadeira elétrica.

"Como foi horrível o sofrimento desse homem", disse ela, diante de uma réplica da cadeira - um simples assento de madeira com correntes e uma pequena lâmpada no braço com fios ligados até sua base. A cadeira tem apenas uma lâmpada acima para iluminá-la e fica localizada em uma sala fria e subterrânea para evocar o sentimento de uma câmara de tortura.

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Réplica de cadeira elétrica usada na tortura de presos políticos é exposta no Museu Memorial da Resistência Dominicana, em Santo Domingo

Chocar a consciência pública é o objetivo do novo Museu Memorial da Resistência Dominicana, que procura expor os anos do domínio repressivo no país, principalmente os 30 anos da ditadura de Rafael Trujillo (1930-1961), considerados entre os mais sangrentos da América Latina.

Em seu romance ganhador do prêmio Pulitzer, "A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao", Junot Diaz explorou a era de Trujillo e a tendência dos dominicanos, e dos povos de todo o mundo, de enterrar capítulos sangrentos de sua história em vez de "tomar uma medida que lide com esse tipo de legado traumático". "Nós cuidamos do nosso silêncio com mais energia do que qualquer outra coisa", disse Diaz.

Mas seja por sinal de progresso democrático ou por puro trauma da época - ou ambos - esse museu faz de tudo para chamar atenção.

Um holograma animado traz de volta à vida as três irmãs Mirabal, dissidentes cujos assassinatos em 1960 pelas forças de Trujillo contribuíram para a oposição internacional a ele e, anos mais tarde, foram tema do romance best-seller de Julia Alvarez, "No Tempo das Borboletas". Uma camisa ensanguentada de um dos assassinos que mataram Trujillo, em 1961, está pendurada em uma caixa de vidro. Criadores do museu estão planejando adicionar gravações de áudio de sessões de tortura da época, conhecida aqui como Trujillato.

Pela contagem feita pelo museu, mais de 50 mil morreram durante o período de opressão e conflitos políticos que foi de 1916 a 1978, incluindo pelo menos 17 mil haitianos em um massacre executado pelas tropas dominicanas sob as ordens de Trujillo na fronteira entre os países em 1937.

Na visão dos criadores do museu, muitos deles parentes das vítimas, o local poderá expor uma história que foi esquecida pelas gerações mais jovens. "Estamos resgatando memórias", disse Luisa de Peña Diaz, diretora do museu e uma de suas fundadoras cujo pai foi morto em 1967 durante um golpe de Estado contra o presidente da época, Joaquin Balaguer.

O atual governo apoiou a ideia do museu, contribuindo com US$ 2 milhões, cobrindo a maior parte do custo para construí-lo. O museu está localizado em uma casa reformada no centro histórico da cidade - na frente de uma escola chamada Gandhi - e conta também com apoio de doadores privados.

O museu recebeu milhares de visitantes desde sua abertura no dia 31 de maio, mas um dia poderá ter concorrência. Enquanto alguns historiadores concordam que Trujillo ganhou um lugar no hall da fama por sua tirania, os membros da sua família criaram um site, o Museo Generalisimo Trujillo, anunciando planos de construção de um museu em sua homenagem.

O museu de oposição é uma criação de L. Ramfis Dominguez-Trujillo, neto do ditador, que reconhece seu ancestral como tendo sido um "ditador militar que não tolerava a liberdade de expressão", mas acredita que o número de mortes atribuídas a ele é exagerada e inclui na contagem mortes por colaboradores que ele desconhecia.

Dominguez-Trujillo, 41, disse que irá usar a existente nostalgia de Trujillo para destacar os esforços que seu avô fez para modernizar a República Dominicana, como por exemplo, a construção de estradas, escolas e rede de distribuição de energia elétrica, que são negligenciados em favor de seus "excessos".

"Se ele cometeu uma série de excessos? Sem dúvida alguma. Ele era humano. Foi ele um monstro? De jeito nenhum", disse Dominguez-Trujillo em uma entrevista por telefone de Miami, onde vive. Ele fez questão de acrescentar que trabalha como um empreendedor imobiliário e que nunca precisou do dinheiro que Trujillo supostamente saqueou dos cofres do tesouro nacional.

Um grupo de historiadores disse que Luisa, por meio do uso do arquivo nacional, recentemente abriu fichas da polícia e de outras fontes, para pesquisar tudo o que foi reivindicado do museu que dirige.

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Luisa de Peña Diaz é uma das fundadoras do museu que tem como objetivo chocar as consciências dos dominicanos

Desde o início, o museu questiona qualquer de suas supostas realizações positivas, a primeira seção do museu é inteiramente dedicada ao que ele chama de mitos de Trujillo, contrariando a noção de estabilidade econômica, por exemplo, apontando fraudes em seu governo e sua participação majoritária nas ações de indústrias nacionais.

Monumentos à sua semelhança surgiram em todo o país durante seu governo. Um grupo de espiões mantinha a ordem e investigava possíveis ameaças ao ditador. Jovens mulheres de seu interesse amoroso ou se rendiam a suas investidas ou eram ameaçadas de morte. Ele renomeou a capital do país para Cidade Trujillo.

De acordo com um Relatório do Senado dos Estados Unidos em 1975, ele foi assassinado em 1961 por membros do Exército e por civis com a ajuda da CIA, mas até 1978 o país ainda passou por épocas turbulentas até o governo emitir um decreto liberando os presos políticos.

Os pesquisadores do museu estão compilando uma lista das vítimas de atos de opressão política e da resistência que ocorreram entre 1916 e 1978.

Luisa afirma que o que a levou a criar o museu foram os temores de que sua avó e mãe, combatentes da resistência que estava sendo esquecida pelas gerações mais jovens e tomou como inspiração uma visita ao Museu de História do Holocausto em Jerusalém.

A ideia de "nunca se esqueça" ficou forjada em sua mente. "Nossos valores foram alterados após a geração que cresceu na época da ditadura", disse Luisa, 44. "Foi como o surgimento de uma geração leve depois disso. E essa geração leve gerou uma geração ainda mais leve."

Alguns dos visitantes mais impressionados foram os jovens, que acharam os eventos, não tão antigos assim, chocantes. Muitos disseram ter aprendido pouco a respeito da ditadura na escola ou por meio de discussões e conversas sobre o conturbado passado de seu país na mesa de jantar de suas famílias.

"Nossa geração não sabe o que aconteceu", disse Mabel Rodriguez, 17, no dia de sua visita ao museu. "Embora seja triste e deprimente o fato de terem torturado todos esses militantes, isso faz parte da nossa história. Aqueles torturados estavam protegendo o nosso país".

Por Randal C. Archibold

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